Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, June 12, 2018

Príncipe Carlos: a nobre arte de...ter compostura à prova de bala. Literalmente.




Por aqui já falei, incontáveis vezes, na importância da nonchalance, de ser blasé, de manifestar uma certa fleuma (ou indiferença elegante e discrição) seja face aos desaires da vida seja perante as grandes alegrias. de não se deixar impressionar por nada (ou pelo menos, de não o demonstrar).

 Bati tantas vezes nessa tecla que agora é difícil seleccionar um ou dois links para posts em que reflicto, em mais detalhe, sobre a necessidade de ter uma cara de paisagem  (também conhecida como "cara número três" ou, mais recentemente e numa versão mais malcriada, "resting bitch face" sempre à mão para nos livrar de embaraços. E se fica difícil controlar os nervos, o medo, o espanto, a raiva ou o entusiasmo, invoque-se prontamente a intercessão de São Clint Eastwood, padroeiro de quem se está marimbando:





Como diz o meu estimado autor Anton Moonen, pessoas mundanas nunca se permitem afectar por coisa alguma, boa ou má; jamais deixam transparecer tristeza, deslumbramento, mágoa, fúria, carência, ou - Deus nos defenda- necessidade de atenção ou pior ainda, de aprovação. 

Mais: pessoas que têm "mundo" e que estão realmente seguras do seu lugar nele, beberam serenidade no biberon junto com carradas de chá, por isso nunca se deixam surpreender por nada (ou se deixarem, agem com um "só nos faltava esta, hein?" , com um "senhores, já basta, que isto é ridículo" com um "we are not amused" (estribilho que a Rainha Victória nunca terá dito, mas pegou) ou como se nada tivesse acontecido, se possível.  James Bond, com todos os seus defeitos, é um exemplo impecável dessa fleuma britânica e indiferença Alfa cheia de domínio. Ok, acho que também se pode chamar por James Bond se a coisa estiver mesmo preta.



Se de todo cai mal a atitude de quem se está nas tintas - sei lá, perante um caso muito sério ou muito trágico- pessoas elegantes procuram reagir com grande, enorme, imensa contenção. Face ao cenário mais escabroso, o que há a fazer é revelar um certo enfado ou descaso e demonstrar-se, em suma, sempre no controlo das situações... ou pelo menos, das próprias emoções. Essa tranquilidade é apanágio dos grandes líderes e heróis, das verdadeiras estrelas, das cabeças coroadas, dos verdadeiros Cavalheiros, das Verdadeiras Senhoras e vá, dos homens e mulheres Alfa. Pessoas dessas nunca perdem a cabeça mesmo que eventualmente a percam (em sentido figurativo e literal).



Recordemos Carlos da Maia e João da Ega que, furibundos face às baixarias do Dâmaso e do Eusebiozinho falavam apenas, com parcimónia olímpica, em "rolá-lo aos pontapés Chiado acima e Chiado abaixo", "dar-lhe bengaladas" ou "arrancar-lhe as orelhas". Mestres.
E se quisermos deixar as metáforas de lado, lembremos personagens que perderam a cabeça mas nunca perderam a compostura, como Maria Antonieta ou a Marquesa de Távora. Só não vale inspirar-se em Victória Beckham, que essa até pode ter muito talento para criar roupamas no quesito "resting b** face" ainda tem muito que aprender até parecer natural.



Nervos de aço, sangue de barata, aterrar sempre de pé e aparentar calma de Buda em todas as situações (para não dar prazer à multidão que gosta de se rir das desgraças alheias nem vantagem ao oponente) foram pontos em que tanto a minha avozinha como o resto da família (que descendia sobretudo de militares, o que terá contribuído decerto para isso) sempre insistiram. Por isso tenho -como tantas outras pessoas mais "old school"- dificuldade em simpatizar com a atitude muito em voga, seja nas estrelas de Hollywood, entre políticos mais "modernaços" ou - o pior do piorio - mesmo entre certos elementos mais jovens de Casas Reais- de revelar fraquezas e dar que falar.



Temos assistido a lágrimas em público, gestos estouvados de agarrar criancinhas e dar beijinhos à multidão mais dignos de candidatos às autárquicas do que de Príncipes, caretas, carinhas e bocas, braços no ar, modos de prima donna, desacatos entre parentes para câmara ver, cenas de desrespeito para com os mais velhos, birras, gastos extravagantes próprios de estrelas de rap, you name it.
 Infelizmente, na era das redes sociais o  mundo não caminha para a discrição nem para o mistério que costumava ser a imagem de marca de certas instituições.

Porém, haja esperança, nem tudo está perdido: felizmente para todos nós, volta e meia ainda vai havendo exemplos recentes de fleuma inquebrável, perfeito à vontade em todas as situações, nervos de aço e (isso também dá jeito) reflexos rápidos - e almas iluminadas que se lembram de ir desenterrar exemplos não muito antigos, mas que aconteceram quando a internet ainda não andava para aí a captar tudo.

Como este momento de agilidade à cowboy de George W. Bush, que deixaria Billy the Kid - e Clint eastwood - a impar de orgulho:



Ou mais recentemente, o instante em que se enganaram no vencedor dos óscares e foi uma vergonhaça completa, com toda a gente a passar-se menos Ryan Gosling, que se manteve com um meio sorriso imperturbável, em modo "que é isto?".



No entanto, alguns utilizadores do tumblr foram há dias desenterrar o exemplo dos exemplos de frieza, a quintessência da fleuma britânica, o supra sumo da expressão igualmente britânica "cool as a cucumber"- estar tão fresco como um pepino: nada mais nada menos que Sua Alteza Real, o Príncipe Carlos. 




O Príncipe de Gales tem sido injustamente tratado graças à infelicidade no primeiro casamento, que o tornou impopular junto de boa parte do público. Porém, quem o sabe apreciar elogia-lhe tanto o sentido de estilo (veste impecavelmente, como já vimos) como o cavalheirismo (a sua delicadeza para com a mãe da noiva do filho mais novo, ali sozinha e caída de pára quedas naqueles assados, foi - a par com a cara de Zara Phillips e de Sua Majestade perante todo aquele espectáculo - o ponto positivo do casório do passado 10 de Junho) e o saber estar. Herdou o espírito do Senhor seu pai, o inimitável  Duque de Edimburgo de quem vamos falar em breve, e o estoicismo da mãe, a Rainha Isabel II, e por isso nunca se juntou aos circos que armaram à sua volta...uma forma de estar que a plateia às vezes confunde com frieza de coração.

Adiante: em 1994, quando o Príncipe visitava Sidney, alguém se lembrou de o tentar assassinar a tiro, não sei porquê. E a reacção do Príncipe foi esta: olhar com ar de caso, como quem nota um mosquito, e compor os botões de punho. Nem James Bond, senhores!!! Ou como alguém disse, zero f***ks given.







Quem é que manda aqui, c´os diabos?  Eis um homem capaz de limpar o chão com o oponente. Mas não é preciso ser príncipe, estrela de Hollywood, cowboy ou presidente dos E.U.A. para dar desprezo nítido e reagir com tranquilidade haja o que houver: é tudo uma questão de orgulho, de não querer fazer figura de urso. Podemos não controlar o que acontece à nossa volta, mas controlar a forma como se reage a isso está inteiramente na mão de cada um.


Wednesday, May 16, 2018

Tirar a roupa está démodé: para dar nas vistas, a moda é ir descalça.


Kristen Stewart, a eterna namorada-enjoada do vampiro, repetiu a proeza de há três anos atrás e descalçou-se, toda trapalhona e com a graciosidade de uma pata choca com os copos, em plena passadeira encarnada de Cannes.

Ao que pude apurar até aqui (tenho pouquíssimo tempo para estas coisas, desculpem...) não se sabe ainda o que motivou tão comovente acto de rebeldia gratuita: se foi mais um dos seus acessos de   "feminazi desocupada armada em Maria Capaz, protestando contra coisas que não prejudicam ninguém", se foi simplesmente um acto de relaxaria/preguiça pura e dura (fazer um pequeno percurso nuns Louboutins é um calvário, minha gente!) ou ainda se, não contente com ser jurada no festival (um dos poucos eventos do género  em que ainda se vão vendo toilettes dignas de admiração, repito) achou que isso dava pouca publicidade e sentiu que tinha de fazer mais alguma coisa para dar nas vistas.



 Ok, admito que, apagadita como costuma andar, não lhe seja fácil chamar a atenção no meio das Fan Bingbings e Monicas Belluccis deste mundo, mas haja paciência. A verdade é que quando Kristen faz um esforço por agradar fica bem bonitinha. Só parece esquitóide e "alternativa" porque quer, vide:



Mas enfim, disse ela "se não obrigam os homens a usar vestido e sapatos, não nos deviam obrigar a nós"...que argumento mais parvo, ó menina. Por acaso a si alguém a obriga a seguir o dress code deles- a fazer a barba e usar gravata ou laçarote? Mas esta gente vê o mundo com óculos que fazem rir, ou quê? Se está entediada a rapariguinha pode, sei lá eu, mudar de ares em vez de aborrecer as almas: por exemplo, pode convidar a Emma Watson e a Jennifer Lawrence, outras flausinas adeptas de dizer tonterias do género, para rumarem ao deserto numa road trip empoderadora tipo Thelma e Louise, que ficamos todos mais sossegados.



Sobre este disparate, só tenho a frisar o que escrevi sobre o tema, em detalhe, de há três anos a esta parte: as tradições, os dress codes e as regras existem por bons motivos-nomeadamente, para dar às pessoas pistas sobre o que usar e para manter a mística e o encanto das coisas.  Neste caso concreto, se deixa de haver normas de vestuário para os convidados, se se começa a deitar tudo abaixo, daqui a nada o festival de Cannes deixa de ser Cannes para passar a ser outra coisa qualquer.

Se lhe apetece andar  descalça, de ténis, de galochas, deixe de aparecer em Cannes e limite-se a festivais estilo Coachella- sítio onde não passaria pela cabeça de ninguém impor stilettos no dress code. Seria ridículo, certo? Pois é: a cada situação, a sua fatiota e a  sua forma de estar.



É um fartote de rir quando os moderninhos de serviço entram por aí adentro, recém chegados e maçaricos de todo,  a dizer que fulano e sicrana são "uma lufada de ar fresco" porque, com a sua rebeldia e irreverência, a sua preguiça de aderir às normas, a sua incapacidade para seguir simples instruções e a sua mania que sabem tudo, vão revolucionar e "mudar" tradições e instituições antigas- seja, mal comparado, um simples evento como o Festival de Cannes, ou casos bem mais graves como a Família Real Britânica, Espanhola ou outra, ou mesmo a Igreja Católica. Ai que têm de se modernizar, têm de se adaptar aos novos tempos e às modinhas temporárias, etc. É claro em tudo na vida há uma evolução natural, mas querer impor mudanças disparatadas, sem sentido e que descaracterizam completamente a tradição, ocasião ou instituição em causa, isso é simplesmente idiota.


 Querem por força que os representantes de Famílias Reais (cujas idas e vindas seguem apaixonadamente via tablóides) se comportem como tutti quanti, que sejam "do povo". Porém (pondo agora de parte questões mais profundas) se isso acontecesse, deixariam de lhes achar graça, de comprar as Novas Gentes e os souvenirs. Nesse caso, será mais sincero serem (cof, cof) Republicanos! Querem que Cannes se transforme na festinha da esquina, para andarem à vontadinha? Por quem sois, ide à festinha da esquina. Há mais quem queira embonecar-se para um festival de cinema. Querem uma Igreja modernaça, pachorrenta, de acordo com as suas conveniências, sem procissões majestosas, sem cânticos em latim nem regras preto no branco e com guitarras de heavy metal e coreografias ao Domingo? O que não falta para aí são seitas protestantes e religiões alternativas- sirvam-se.

Neste mundinho de Deus, já ninguém é obrigado a ser fiel à Santa Madre Igreja, ou à Coroa, nem tão pouco a frequentar festas com dress codes rigorosos. Há para todos os gostos, mas decidam de que lado querem estar e vão lá ser felizes,  em vez de maçarem as pessoas com lamuria.

É positivo deixar entrar algum "ar fresco" de tempos a tempos...mas não tanto que morra tudo de pneumonia.

Tuesday, May 15, 2018

As coisas que eu ouço: não tirem a piada às viagens em família!




Há umas semanas  ouvi na rádio um anúncio de uma qualquer MEO cá do burgo (já não me recordo que companhia era, mas oferecia um pacote de internet desses para dentro e fora de casa) que basicamente, prometia aos pais o sossego e a tranquilidade de crianças caladinhas nas longas viagens de carro. 

Nem conversas, nem gargalhadas, nem andar à batatada uns com os outros, nem cantar a árvore da montanha até encher a paciência aos adultos, nem constantes perguntas "ainda falta muito?" e muito menos "preciso de ir à retrete!", "quero comer!", "estou a enjoar!", "oh mãaaaae, ele não me larga", "paaaaai, ela pôs o pé em cima da minha cabeça" etc. Nada dessa selvajaria e coboiada que tanta graça e mística davam a qualquer percurso de férias nos anos 80/90 (já lá vamos). 






Nada de cantorias em família e os pais a alinharem na brincadeira até perderem a compostura e atirarem com um "quietos, ou voltamos já para casa" ou, melhor ainda, "se não se comportam como gente decente, levam uma tareia que choram com razão" (esta era ouro!). Nada disso. Zip it. Fecho eclair. Nem xus nem bus. 



Ou seja, viagens em família todas zen, de uma respeitabilidade pequeno-burguesa, pretensiosa, afectada e peneirenta; ideais, portanto, para paizinhos Bimbi armados em cosmopolitas de frágeis nervos, praticantes da "parentalidade positiva"que puseram no mundo crianças ora índigo ora hiperactivas (uma das duas tem de ser), adeptas ferrenhas da dieta Paleo e praticantes de mindfulness. Paizinhos estilo pais do Ruca (esse demónio!) que invariavelmente vão aproveitar a paz e o silêncio para meditar nas sábias palavras do guru do momento, mandar às "migas" a imagem das unhas de gel "de verão" e para partilhar nas redes sociais cada instante do percurso - mas atenção, com a cara da petizada devidamente oculta por um focinho de cachorro ou macaco do snapchat, não vá o diabo tecê-las. 



 E - voltemos ao anúncio- como se conseguia tal milagre, assim sem recurso à hipnose, clorofórmio, Xanaxes nem ritalina? Ora, usando a melhor forma de anestesia que existe: ou seja, alienando, perdão,  entretendo a pequenada (devidamente algemada nas suas cadeirinhas mesmo que já tenha quase treze anos e pernas super compridas) com os seus IPAD em vez de os deixar maçá-los com coisas aberrantes vulgo impaciência ou entusiasmo infantil. 

Para que não restem dúvidas, vou citar o "reclame", que era mais ou menos isto:

"Goze a sua viagem e deixe a Porca Peppa tomar conta das crianças!". 



 O quê??- saltei eu logo e desatei a fazer juras- peralá! No way!  Hell no! Era melhor!!! Não, c´os diabos!


Em planeta nenhum a Porca Peppa há-de tomar conta dos meus potenciais filhos e sobrinhos. Nem ela, nem a Popota, nem a Leopoldina e nem mesmo personagens mais aceitáveis ou vintage como a Bela Adormecida, os Cavaleiros do Zodíaco, os Pequenos Póneis, os Ursinhos Carinhosos, o Batman ou os Guardiões da Galáxia. Ponto. Mas a  Porca Peppa muito menos. Apre. Irra. Vade Retro Satanás.



Se é para se usar a internet com o propósito de tornar as viagens em família mais divertidas, não lhes ocorria nada melhor, tipo ir ao Youtube buscar vídeos de karaoke para cantarem todos juntos?

As  road trip em família foram das melhores recordações que me ficaram da infância. O caminho para chegar ao local das férias (ou aos vários pontos que queríamos visitar) era tão entusiasmante como as férias em si mesmas. Poucas coisas nos uniam mais a pais e irmãos e nos davam um melhor insight uns dos outros como peregrinar para conhecer as melhores e mais secretas praias do Alentejo ou percorrer a Europa de carro. 



Numa dessas viagens mais longas, não havia rádio e eu encarreguei-me da banda sonora, cantando com o pai o Jesus Christ Superstar inteirinho, de fio a pavio. A única coisa que tornava estes passeios melhores ainda era quando primos, avós e tios se juntavam à festa. Mais cantoria. Mais cobóiada. Mais pugilato e solavancos no banco de trás. Mais piqueniques. Mais do primo Vasco a berrar "traz a sopa!" para nós respondermos igualmente aos berros "já vaaaai", nunca percebemos de onde vinha o estribilho porque nem havia sopa no menu mas tinha graça, tal como a história a fingir francês "o Julien foi à misse...veio de lá uma mulher e disse... c'est ça, Julien?". Não havia selfies nem perdíamos tanto tempo a tirar retratos, mas ficaram alguns bem giros, revelados ou polaroid.



Não importa o quanto a tecnologia tenha evoluído, não se pode perder a magia. Nem podemos esquecer que as crianças crescem muito rápido. O tempo para fazer viagens divertidas, barulhentas e stressantes passa muito, muito depressa. É um fósforo. Não quero que as memórias da minha família venham a ser uma névoa de árvores a passar e olhos no monitor - arriscados a fazer um descolamento de retina, esse mito urbano da minha infância. Nem crianças alienadas, nem descolamentos de retina enquanto eu cá andar. A porca Peppa e toda a sua pandilha que vão pregar para outra freguesia!

Monday, April 23, 2018

A nobre arte de..."apertar as pérolas"



A expressão anglo saxónica "clutching the pearls" ou "pearl clutching" (levar as mãos ao peito/colo, em sinal de indignação perante qualquer coisa vulgar, escandalosa ou de mau gosto,  como que segurando um colar de pérolas imaginário) tem sido, ultimamente, batida à exaustão por esta internet do Senhor.



  E sempre de forma jocosa, acrescente-se:  invariavelmente em textos que-querem-por-força-ser-subversivos da ala ultra progressista, marxista, feminista, esquerdista, comunista, socialista, relativista, artista, alpinista, ciclista,malabarista e outras coisas revolucionárias, agitadoras e patetas acabadas em ista.



Basicamente, quando a tropa moderninha quer dar nas vistas e arreliar os mais conservadores com uma das suas "modinhas e novidades" (que até podem irritar mas já não chocam ninguém) adiciona esse cliché provocador aos seus artigos.

Isto porque as pérolas estão, enfim, incontornavelmente ligadas a uma imagem tradicionalista; pensemos na Baronesa Thatcher, que nunca as largou nem por um decreto.




 Dispendiosas (quando verdadeiras ou de bijutaria muito boa) mas não extravagantes e jamais decadentes, as pérolas são normalmente usadas em jóias e acessórios elegantes, intemporais e bon chic bon genre. 

Às vezes andam mais em voga e ganham até uma aura jovial, edgy, quase punk dependendo do styling que lhes quisermos dar: é o caso agora, com marcas como a Gucci a apostar em acessórios de/com pérolas e a Chanel a investir nelas mais do que nunca e de formas inesperadas- e.g, cravejando-as em botas.  Noutras alturas estão menos evidentes nos editoriais e nas lojas; mas nunca passam realmente de moda.


A Rainha Alexandra com o célebre colar "Dagmar", no dia da sua boda com o futuro Eduardo VII



"Só há uma jóia que favorece toda a gente por igual, que fica encantadora com quase todos os conjuntos, que é apropriada para praticamente todas as ocasiões e indispensável no guarda roupa de todas as mulheres...longa vida ao colar de pérolas, verdadeiro ou falso, do primeiro encontro ao último suspiro!"


Genevieve Antoine Dariaux, autora de "A Guide to Elegance"





Modas à parte - e por muito que a Chanel, por mão de Karl Lagerfeld, as misture ao denim e ao cabedal desde os anos oitenta-  as pérolas, verdadeiras ou de bijutaria, naturais ou de cultura, sozinhas ou entrelaçadas com fios dourados, brilhantes, correntinhas, etc, estão  invariavelmente presentes em looks associados ao old money, às "pessoas bem"ou com uma imagem mais "betinha", "certinha", old school e por aí fora.




 Pensemos em Jackie Kennedy (autora da imortal frase"pérolas são sempre apropriadas"), Audrey Hepburn, Grace Kelly (que jurava preferi-las a quaisquer outro adorno, dentro e fora das telas) ou em Sua Majestade Isabel II, só para citar alguns exemplos mais conhecidos. Lady Sarah Churchill dizia sentir-se despida sem as suas; Marilyn Monroe, que era adepta de um estilo bastante minimalista na sua vida privada, não prescindia de pérolas para iluminar o rosto.



  

Quanto a Coco Chanel, essa afirmava que uma mulher deve possuir fiadas e fiadas de pérolas. Tanto que popularizou as missangas (de qualidade, atenção) junto da boa sociedade, fazendo prevalecer o valor do design sobre o da matéria prima per se e abrindo caminho para a democratização das pérolas entre as mulheres de classe média.





Pessoalmente, toda a vida fui fã acérrima de pérolas. E embora seguisse quase sempre as filosofias "menos é mais" e "materiais nobres, ou nada", preferindo uma statement piece a muitas peças juntas e dando primazia às pérolas verdadeiras, abri sempre uma ou outra excepção para colares ou gargantilhas de pérolas falsas (falsas mas de boa qualidade e se possível, vintage) que tivessem os formatos que me agradavam.


Josephine Baker e as suas famosas fiadas à la "flapper"

 Porém, como o estilo pessoal está em constante evolução e (de acordo com o que já aqui falámos várias vezes) chegamos a uma altura da vida em que ele se define no essencial para ir sofrendo apenas pequenas actualizações a partir daí, ultimamente tenho investido mais nos acessórios- nomeadamente, em pérolas! Não só na compra de algumas peças que me faziam jeito, mas também no uso (e styling) das muitas que já tinha.




 Afinal quando, graças à experiência de uma vida, ficámos a conhecer de cor o que nos assenta e construímos um guarda roupa de acordo, é altura de brincar com a tela que fomos criando ao longo dos anos. Principalmente se o nosso estilo é bastante depurado e suporta bem mais alguma informação visual. Por fim, trabalhar muito com o styling de acessórios de luxo nos últimos anos também contribuiu para aprender novas formas elegantes e inesperadas de os coordenar.



E como tinha de ser fiel ao meu estilo e no meu dress code profissional a sobriedade é nota obrigatória - não esqueçamos que, segundo as normas, pérolas são das poucas jóias "correctas" para usar antes do pôr do sol - eis-me a luzir mais pérolas do que alguma vez usei na vida, de mil maneiras consoante o decote ou a gola que trouxer no dia, por vezes misturando vários colares e gargantilhas.


 Ora à Belle Époque ou à Barroca, ou à la Chanel - usando mesmo colares longos de várias voltas estilo anos 20, que eu até julgava não serem my cup of tea.




Por vezes ponho uma fiada de pérolas redonda do mais básico; mas se quero algo um pouco mais singular, a minha escolha vai para um colar justo, baixo no pescoço e espesso de várias voltas com um pesado fecho de brilhantes, estilo Madame du Barry. A minha combinação preferida, porém,  é uma gargantilha de veludo espessa do tipo vitoriano, rodeada de vários colares mais longos, ou uma gargantilha de veludo fina, mais outra fina de pérolas, seguida de várias fiadas de contas conforme me dita a fantasia. Não haja dúvidas que tornam o look mais interessante: quando a roupa é simples, são os detalhes que a tornam divertida.




Tive mesmo de comprar um guarda jóias maior, claro, que mais parece o cofre de um pirata, para conter e organizar todas as minhas relíquias (e como compro quase tudo vintage porque a qualidade e a piada não se comparam, a maioria é relíquia mesmo).


Contei-vos tudo isto só para dizer que os meninos e meninas "rebeldes de pacotilha" podem mandar-me apertar as pérolas à vontadinha (e fazer imensos disparates no firme propósito de arreliar as pessoas caretas como eu) que eu tenho bastantes pérolas para apertar e faço o maior gosto nisso.



 Aliás, continuem a fazer mais e pior a ver se me dão motivos: é que isto está uma seca...ultimamente aperto-as mais por um misto de pena e zombaria quando vejo o mulherio "forte e independente" a chorar pelos cantos porque não encontra o amor no Tinder nem emagrece com lattes de soja -ou outro motivo patético- do que por alguma novidade que me faça gritar, com o devido zelo e efeito : "ultraje! Pouca vergonha! Blasfémia!". Daqui a nada já nem aperto as pérolas, limito-me a um ligeiro rolar de olhos, erguer de sobrancelhas ou encolher de ombros. Ná- nada o efeito que os revolucionários contorcionistas,  malabaristas e monociclistas pretendem! Sorry. Fail.




 Isto porque na tentativa de serem tão subversivos, tão anárquicos, tão avant garde, tão tolerantes com todas as bizarrias, tão amorais, tão politicamente correctos, tão ateus, tão promíscuos, tão hispsters, tão sensíveis, tão "artísticos"...acabam por ser todos iguais e já não escandalizarem ninguém. 

Paradoxalmente, até são esses pseudo rebeldes tão amiguinhos da liberdade e da tolerância que andam sempre com chiliques, ofendidos com tudo, armados em "floquinhos de neve"- a apertar os piercings e as rastas sempre que alguém discorda dos seus disparates!




 Aiás, digo imensas vezes  que ser conservadora é a minha forma de rebeldia - mas se calhar, não é só a minha; será, isso sim,  a única forma de rebeldia possível actualmente, face ao esprit du siècle em que todos são "diferentes" e "rebeldes". 

Ser careta é o novo punk. Posto isto, continuem que está fraco: cada vez tenho menos motivos para me chocar ou surpreender e logo, para levar as mãos às pérolas, o que é extremamente entediante. Viver sem troçar de ninguém não tem a menor das graças.

 As pérolas, essas. nunca passarão de moda- tal como a beleza, a harmonia, a elegância de maneiras, os dress codes, os valores familiares, as tradições, a religião e outras coisas que os "Lucifers de trazer por casa" tanto adoram mandar abaixo. Deal with it.







Wednesday, April 11, 2018

Aos jovens adultos cujos pais (e parentes) são um perigo no Facebook




Quem tem filhos tem cadilhos até depois de morrer, lá diz o povo. O maior medo de qualquer pai ou mãe (em qualquer época, de qualquer idade e com filhos pequenos ou graúdos) é que as suas crias se metam em sarilhos.

Por sarilhos podemos entender coisas graves vulgo estragarem a sua vida, andarem na má vida ou mesmo darem cabo da dita cuja, mas também coisas mais pequenas como fazerem más opções e tornarem-se a vergonhaça da família (sendo que a noção daquilo que é ou não "vergonha" varia cada vez mais consoante as famílias: para uma, dotada de bom senso, vergonha é a filha concorrer à Casa dos Segredos; para outras, de outra qualidade, vergonha é a sua filha concorrer à Casa dos Segredos e perder).




Porém, na era dos social media  (e especialmente do Facebook, rede social de eleição das pessoas da geração dos nossos pais e avós) muitos filhos têm igualmente cadilhos. Ou mais concretamente, o cadilho de verem prolongar-se, para a idade adulta, aquele complexo da adolescência que é ter vergonha dos pais (nunca o tive, felizmente - fui abençoada com pais que tinham tanto estilo como bom senso, e que só me envergonhavam se ameaçassem dar-me uma lamparina ali mesmo quando tinha os meus momentos de parvalheira).




Aliás, quase podemos dividir a actual população de jovens adultos em três universos: 

1- O universo privilegiado dos sortudos cujos pais não têm Facebook (ou têm mas usam-no como qualquer pessoa normal e escorreita);

2-  O universo dos que têm pais que só partilham tolices mas como é tal pai, tal filho a vergonha não lhes assiste; 

3- E por fim, o terceiro universo: o dos filhos que, sendo dotados de noção do apropriado, sofrem com progenitores que não sabem estar nos social media

Para esses, coitados, existe ainda o problema da proporção directa entre não saber estar no Facebook e adorar passar lá tempo. Enunciemos a fórmulaquanto menos uma pessoa sabe usar o Facebook, mais gosta de perder tempo com ele, a debitar disparates - ou a passá-los adiante.





Eis alguns exemplos que fazem corar filhos, parentes e amigos comuns (por contágio/ vergonha alheia***):

***Nota bene: como os tipos de causadores de vexames eram tantos, optei, conforme o post se ia formando, por alargar as hipóteses incluindo oficialmente tias, padrinhos, avós ou qualquer parente mais velho mais ou menos afastado, mas que se mantém como amigo facebookiano por boa educação. 



1- A mãe recém divorciada que, sendo até então uma senhora normal, não aguenta a solidão/ desgosto e pira de tanta carência, perdendo toda a compostura.

 Aflita para - conforme os seus ideais românticos- vingar-se do ex, casar de novo, "viver a vida" com as grandes emoções que não teve na juventude ou refazer a vida lá à sua maneira, conquistar o Carlão ou o "doutor bem posto" dos seus sonhos de rapariga...transforma-se numa cougar ou numa namoradeira desesperada. 
E pimba:  faz uma tatuagem duvidosa que dá imenso nas vistas, inscreve-se num ginásio/estúdio de dança manhoso, arranja um grupo de "migas" com muito mau ar e reputação pior para sair até às tantas... e não contente com isso dá parte ao mundo desse seu "renascer". Ou seja, desata a publicar selfies de gosto questionável, a mandar "beijos de luz" às pobres pessoas que não lhe fizeram mal nenhum, a partilhar "frases de amor" e memes de fazer corar um carroceiro retirados das páginas medonhas de que já temos falado-  e o que é pior, a comentar em público nesses antros, sem fazer caso dos perigos nem do ridículo a que se expõe. Enfim, faz do Facebook um Tinder - mesmo que 
(valha-nos Deus) a senhora seja tão prá frentex que também já tenha descoberto as maravilhas do Tinder que apesar de arriscado é mais discreto, mas deixemos esse para outro dia.





2- A mãe, tia ou avó dada a crendices (ou pior, religiosa mas sem a devida orientação de um sacerdote... ou ainda, que vira orelhas moucas ao que lhe diz o sacerdote) que faz do seu mural de Facebook oratório, confessionário, centro espírita, poço dos desejos, terreiro de umbanda, centro de meditação, catequese, grupo de auto ajuda, escola dominical, aula de estudos bíblicos, veículo para as suas "caridades" virtuais, centro de reiki e consultório de tarot/astrologia - ou tudo isso junto.

 Antes das Redes Sociais, esta era uma daquelas senhoras mais ou menos inofensivas que ao Domingo ia à Missa mas nos outros dias consultava à socapa a cartomante, ia com as amigas do rancho folclórico à "mulher de virtude" para tirar o mau olhado e coleccionava todas as revistinhas brasileiras "de signos"- uma ecumenista ou universalista com grande sede espiritual, portanto, mas em versão ingénua. 

O pior é que agora - maravilhada com a abundância inesgotável de citações fofinhas do Papa Francisco (quando não é do Dalai Lama, do Paulo Coelho, do Osho ou do Chico Xavier, que de resto ela nem nunca ouviu falar mas soa tão profundo) de imagens de Nossa Senhora de Fátima com florzinhas e anjinhos a fazer pisca-pisca, de versículos Bíblicos em versão evangélica redigidos em português do Brasil com lindos fundos de pores-do-sol, de memes do tipo «quem ama Jesus, digita (sic)"AMÉM"»  e de pedidos de "Like" para meninos doentes  , etc, tudo coisas tão bonitas que ela julga serem grande novidade -  a pobre não aguenta tanta beatitude. 

Sente-se a  subir aos céus (ou cheia de luz e boas energias, vá) e acha que tem de espalhar a Boa Nova.

 E então entra em modo Testemunha de Jeová, mas em versão tudo ao molho e fé em Deus, que o que importa é ter amor no coração.

 E - sem pensar que até o Todo Tolerante Papa Francisco a excomungava logo, ferendae sententiae se visse tal rebaldaria - vai de bombardear os vizinhos, família e quem mais tenha o azar de estar entre os seus amigos facebookianos não só com actualizações constantes no mural, mas em estilo marketing directo: vulgo, espalhando via messenger aquelas orações supersticiosas em corrente "manda para 10 amigos em 10 minutos e Nossa Senhora vai realizar um milagre antes da meia noite" ou pior, "envia para 50 pessoas para S. Judas Tadeu realizar um desejo impossível- quem quebrar a corrente vai ter má sorte o ano inteiro". 

O que vale é que tanto as heresias como as ameaças e as boas energias caem em saco roto:  Nossa Senhora tem mais que fazer,  S. Judas não usa o Facebook e os amigos acham que seria cruel dizer alguma coisa a uma senhora dessa idade, limitando-se a deixar de lhe seguir o mural e a refundir-lhe as mensagens para a caixa de arquivo.



3 - O tio tarado que só "posta" brejeirices




 Há um assim em quase todas as famílias, em várias versões (o aldeão que tem a mania que está possuído pelo espírito do Quim Barreiros, o suburbano com a mania que é bad boy, o  cavalheiro degenerado que até veio de uma linhagem respeitável mas sempre foi a ovelha ranhosa do clã, o rapaz que era normal mas voltou do Ultramar com um parafuso solto, o artista incompreendido que fumou demasiadas ganzas nos anos 70, fez pior nos anos 80 e nunca teve conserto, etc) e com várias desculpas: ou porque sempre foi o espalha brasas, o ganda maluco a quem toda a gente dá desconto, ou porque é mesmo um grosseirão e ninguém se atreve a pô-lo no lugar, ou porque bebe, ou porque bebia, ou porque não percebeu que certas graçolas não caem bem nem aos novos, quanto mais em quem tem mais que idade para ter juízo. 

E pronto, com piores ou menos más intenções a criatura não tem mesmo noção e nem sequer procura disfarçar; dir-se-ia que faz gosto em desrespeitar e chocar os outros.  Esquecendo que há piadas de caserna que se dizem pelos cantos, numa roda de homens,  mas não se trazem para casa, esta alminha segue tudo quanto é página de anedotas ordinárias (partilhando sempre as piores) acompanha tudo quanto é página de frases badalhocas e/ou de mulheres seminuas, comentando em sórdido detalhe as "abundâncias" de serigaitas com idade para serem suas filhas (quando não passa adiante as imagens para o seu próprio mural, esquecendo que as netas, filhas e sobrinhas estão a ver aquela pouca vergonha). Isto quando não comenta de forma inconveniente ou malcriada as publicações dos próprios parentes e amigos, com direito a palavrões e tudo. É aquele que toda a gente evita convidar para reuniões de família ou, se não consegue mesmo banir de todo, tenta mandar embora antes que os ânimos - e os vapores do álcool- subam muito. Porém, no Facebook é mais complicado dar a volta a isso... e das duas uma: ou se bloqueia o malcriado, ou alguém perde as estribeiras, diz-lhe das boas e é uma barraca pegada. Com todo o mundo a ler, a rir e a abanar a cabeça. Vergognazza.


4- O tio Felisberto desgraçado




Este é uma mistura entre o Xoné da Bia, a Pequena Feiticeira (pois não acerta uma) o Alan Harper de Two and a Half Men, o  Calimero e a Gossip Girl.

 É um azarado que nunca tomou responsabilidade pelos seus problemas e faz muito pouco para os encarar de frente: na verdade, acha de certa maneira que o mundo lhe deve alguma coisa. E com isso, anda constantemente metido em assados financeiros, profissionais e conjugais - assados que, sem dignidade nenhuma e em grande detalhe,  debita no Facebook a toda a hora. Em tempo real. O seu mural mais parece o reality show do Triste Palhaço Pobre. Foi despedido? Ainda não esvaziou a secretária e já postou uma selfie lamentável a fazer carinha de choro, protestando contra a injustiça e falando mal dos ex colegas (não lhe ocorre que passar muito tempo no Facebook, em horário de trabalho, às tantas contribuiu para o dispensarem). Se bateu com o carro e o mandou para a sucata, ou se a mulher fugiu com o padeiro, o mundo tem de saber ainda antes de o reboque chegar e de o pão ter arrefecido. E assim por diante.

 Que enfim, os desaires podem nem ser todos, ou inteiramente, culpa sua...como ele é um xoné inofensivo que faz sobretudo mal a si próprio, as pessoas vão tendo pena, deixando-o na categoria de xoninhas, "pobre diabo" ou "alma de Deus"... e vão remoendo a vergonha alheia por falta de coragem para o pôr no sítio com uma resposta bem torta!

Mas eventualmente a solidariedade (e pachorra) da parentela acaba por dar lugar à irritação, porque ele não se fica pela má notícia inicial e continua a esmiuçar: seja para tentar obter algum tipo de ajuda (ou para se "encostar" em modo sanguessuga, o que certos espécimes deste género fazem sem grande escrúpulo) seja por necessidade de atenção ou porque prefere gastar tempo no Facebook em vez de ir à luta como os outros mortais, ou ainda para criar sentimentos de culpa em familiares e amigos por não irem em seu socorro (ou antes, consertar as suas asneiras) pela enésima vez, cada actualização é um choradinho pior que um Fado daqueles trágico-cómicos.

 E é claro que não há santo que aguente: primeiro, porque o que é demais é moléstia; más fases todos temos e de aflições ninguém está livre, mas constantemente? Segundo, porque cada um tem os seus problemas e pessoas adultas e equilibradas não vão a público , uma e outra vez, esperar que lhos resolvam; e terceiro porque ninguém gosta de fazer figura de ter parentes miseráveis (ou pior, de ser injustamente acusado de não ajudar parentes em dificuldades).
 Nota: o Felisberto Desgraçado também existe na versão feminina, mas os espécimes masculinos costumam dar mais nas vistas - talvez porque é estranho e raro ver um homem sem o mínimo de orgulho másculo e nível zero de testosterona.


5- A tia Bridget Jones




É uma versão do tio Felisberto desgraçado, mas o seu foco são os problemas amorosos. Também pode ser considerada uma variante um pouco mais jovem (mas mais batida no carrocel dos relacionamentos fugazes seguidos de par de patins) da mãe que vira cougar (ver nº1). Esta tia entradota, mas com a mania que nenhum homem lhe resiste (que também pode ser uma prima dos pais, ou outro parentesco qualquer)  já está na meia idade há algum tempo e toda a vida fez disparates sem aprender com os erros.

 Passou os seus vinte e os seus trinta a coleccionar amores não correspondidos, affairs em que invariavelmente foi usada e deitada fora, dramas e pontapés no traseiro. E a ser avisada  pelas primas e amigas, again and again, que a ser tão serigaita, tão desesperada e tão oferecida nunca arranjaria marido.

No entanto,  é óbvio que ela não ligou nenhuma aos conselhos - ou foi dizendo que sim senhora, mas continuando exactamente na mesma atrás de cavalheiros muito fora do seu alcance que nunca a poderiam levar a sério, ou de homens casados/comprometidos, ou de mariolas que simplesmente não prestavam...isto quando não estragava as poucas relações de jeito que lhe apareceram por ser tão carente, tão doida ou por simplesmente só achar piada a quem a tratava mal. Como diriam os brasileiros, só Jesus na causa!

Já era assim antes das redes sociais serem inventadas e quando finalmente surgiram Facebook, Instagram e Tinder, ela (em vez de tentar ser um bocado mais discreta) arranjou maneira de espalhar a sua má reputação à escala global, achando que desta vez, com acesso a conhecer mais gente, é que ia achar o Príncipe Encantado. 

Claro que dá sempre asneira e as suas actualizações seguem invariavelmente o mesmo padrão:

1- frases de amor (quando anda iludida) 2 - actualização de estado civil com juras de amor eterno tipo "o que Deus uniu o homem não separa" (nas raras vezes que algum incauto assume uma curta relação com ela) 3- Memes de rompimento trágicos ou sarcásticos, estilo "what goes around come around"  e "os homens são todos uns meninos e uns cobardes!" (logo que dá para o torto e descobre que o seu último caso foi só de uma noite ou que o "namorado" casado nunca se vai divorciar para ficar com ela) 4- recadinhos passivo-agressivos do género "solteira, leve e soltinha como o arroz" ou "solteira sim, sozinha nunca" (quando se conforma com a sua sorte ou está disponível para tentar de novo). É a vergonha da família e um exemplo péssimo para as suas primas ou sobrinhas mais novas.


6- A tia raivosa





Esta tia zangada com o mundo pode vir em várias embalagens: a beata da aldeia, a mulher de carreira e/ou intelectual bem sucedida mas com sérias questões emocionais, a revolucionária feminazi que ainda julga que estamos nos anos 70 e não perde uma festa do Avante mas vai sempre com cara de tacho (sem festejar, a mandar vir contra tudo e a estragar a revolução aos camaradas) a dona de casa mandona cujo entretém é fazer a vida dos parentes num inferno, e por aí fora. 

O que nunca lhe faltam são cinco ingredientes: feitio de generala, tempo livre de sobra, mania que sabe tudo, nervos desarranjados, falta de filtro para saber quando deve estar calada e que a roupa suja não se lava na rua e finalmente,  ausência de marido que lhe refreie os destemperos (ou porque é solteirona/separada/viúva, ou porque o único que se prontificou a casar com ela é um pau mandado tão banana, tão emasculado e tão xoninhas que é como se não existisse). Conforme o tipo de tia raivosa, as suas raivas e ódios de estimação têm alvos diferentes: adversários políticos, colegas ou rivais na sua área de especialidade que lhe façam sombra, qualquer coisa que ela entenda como injustiça profissional ou social... ou familiares com quem tenha alguma querela de heranças ou coisa do género. É o tipo de pessoa que vai para as redes sociais publicitar que ela é que cuida da avó entrevada enquanto os primos não querem saber (a ver se os primos lhe respondem e acaba tudo numa grande peixeirada) ou que na Quermesse da Paróquia só ela é que trabalha, mas a Ermelinda da mercearia é que fica com os louros porque forneceu os enchidos para as rifas. Nem água benta lhe vale e o melhor é
 ignorar-lhe as postagens sem ai nem ui, não vá ela inventar uma encrenca qualquer.


7- Os primos e tios... sem filtro



Nesta categoria cabem vários flagelos facebookiano-familiares, que têm em comum achar que o Facebook é um tamagochi: ou seja, julgam que se não partilharem alguma coisa todos os dias, nem que seja a maior tonteria ou algo de embaraçoso, a sua conta de Facebook expira. 

Da mãe babada e sem noção que, à falta de algo para dizer, escreve um daqueles posts com fundo colorido " O que mais peço é que Deus proteja os meus filhos" (o que leva a família a ficar preocupada e a perguntar-lhe que raio aconteceu de grave) ou publica um retrato desfavorecedor/humilhante dos pobres coitados em pequenos só porque sim, ao padrinho desocupado que decide avisar o mundo de que está a chover a potes- quando todos os seus amigos virtuais moram na mesma zona e estão carecas de saber -  passando pela prima afastada que decide testar o telemóvel novo retratando os sobrinhos a causar um chavascal na mesa do lanche posta à pressa, devorando arroz doce sem modos nenhuns (ou qualquer outro retrato de família pouco lisonjeiro na praia, em festas de anos, etc) à boa e velha lavagem de roupa suja, passando por memes de futebol com palavrões.

 Há ainda os que decidem ser mais radicais e, se vão parar ao hospital - ou por tédio, ou para atrair visitas, ou no firme propósito de deixar os outros maldispostos - se entretêm a contar com detalhe que tiveram um sangramento num local que não convém dizer, ou que estão internados num serviço que é embaraçoso mencionar, ou ainda a mostrar selfies das suturas (blhec!!!). Não esqueçamos ainda os misteriosos que de tempos a tempos, anunciam, com ar compungido e pomposo, que não podem receber mensagens privadas ou que vão deixar de ter Facebook, só a ver a reacção que recebem...mas apagar a conta que é bom, nada, e dali a dias lá estão eles de novo!




É claro que- como em tudo na vida - a presença digital destes pais (ou figuras parentais) depende de várias condicionantes: do seu nível cultural (ressalvando que conheço não poucas pessoas com formação superior que partilham os piores despautérios e outras pouco instruídas que são discretas) do meio social em que cresceram e/ou se movem (ou seja, companhias) dos gostos individuais, passatempos, interesses, envolvimento político/desportivo (ou não) etc, da personalidade (uma pessoa espalha brasas tende a ser mais expansiva também no mundo virtual, uma que seja tímida nem tanto)...e por aí fora. 

No entanto, há dois factores que são determinantes: 

- Primeiro, o bom senso, em que podemos incluir o sentido do apropriado e o respeito pelos outros (que transcendem outros traços de carácter, ultrapassam a demografia e andam invariavelmente de mãos dadas com a discrição); 

-  Segundo, o conhecimento dos objectivos, modo de uso e utilidade de cada rede social,  dos seus perigos e vantagens. Para que serve ao certo o Facebook?  E como funciona? Que actualizações são favoráveis? Quanto, o quê e quando é sensato partilhar?




E se calhar é aí que a culpa não morre solteira, que muitos filhos ( e quem diz filhos, diz netos, afilhados ou sobrinhos)   falham por negligência: toda a vida ouvi que primeiro os pais ensinam as crianças; mas que cabe aos filhos, depois de crescidos, ensinar algumas coisas aos autores dos seus dias. Ou actualizá-los quanto às novidades que vão aparecendo. 

Se há razões legítimas para achar que os posts/partilhas/ interacções de familiares mais velhos e menos habituados estas andanças causam embaraços de qualquer ordem, há que sentar-se com o "publicador compulsivo" e conversar francamente sobre o assunto - pessoalmente, cara a cara, com delicadeza mas firmeza. Para evitar "barracos" maiores, resista-se (salvo em caso de vida ou de morte após muitos avisos baldados) à tentação de dar o sermão comentando as publicações barraqueiras em causa. A pessoa até pode estar a fazer figura de ursa em público alegremente, mas morrerá de vergonha se lhe apontarem o facto em público.




 Convém então falar com calma e franqueza: primeiro, elucidando sobre o propósito do Facebook. Nomeadamente, explicando que ele não serve para publicar conteúdo porque sim. 

Antes pelo contrário, já que até foi mais inventado para receber conteúdo: para estar em contacto com os amigos (principalmente com os que vivem longe)  e comentar as coisas deles, para acompanhar páginas dedicadas a temas do nosso interesse, para ler e guardar notícias, artigos, imagens ou vídeos engraçados e se quisermos, enviar essas coisas a quem possa gostar delas via mensagem privada, ou marcando a pessoa em causa nos comentários. 




Igualmente, será boa ideia frisar que a conta no Facebook não expira por falta de actualizações constantes: é possível estar activo diariamente no Facebook e no entanto, passar dias a fio sem acrescentar nada de seu. Aos social media também se aplica aquela máxima sensata da vida real: quem não tem nada de jeito a acrescentar, ganha mais se ficar calado.

Pode mesmo realçar-se que as publicações demasiado frequentes, ou repetitivas (além de perderem impacto e cansarem os amigos, gerando menos interacção ou seja, menos likes e comentários) arriscam ser confundidas com SPAM e "censuradas" pelo próprio Facebook.




 Segundo, explicando que a engenhoca tem uma coisa útil chamada definições de privacidade. Afinal,  há coisas que convém não publicar nem comentar em caso algum, mas há outras que não trazem mal ao mundo se forem partilhadas só com certos amigos - seja deixando as coisas mais rocambolescas para mensagens privadas, criando um álbum secreto acessível apenas aos visados, escolhendo a audiência de cada postagem, associando-se a grupos dedicados a determinados temas ou mesmo ocultando as páginas públicas que se seguem, etc.

 Outra opção (muito útil para quem passa adiante tudo o que lhe parece giro, mesmo que não tenha grande interesse para mais ninguém) é mostrar o Pinterest ao (a) acumulador de imagens/memes/frases. 



O amigo Pinterest uma aplicação bem mais discreta, igualmente fácil de usar...e que não só entretém tanto ou mais que o FB como permite guardar essas coisinhas todas em pastas separadas por temas à escolha. Seja para publicar as melhores na hora certa via Facebook ou noutras redes, seja para as utilizar noutro contexto qualquer ou simplesmente, para não as perder (caso das receitas, por exemplo)- e o que é melhor, dá para interagir com utilizadores que gostam das mesmas coisas e para guardarem os conteúdos uns dos outros. É uma farturinha e ao menos não aborrece ninguém.

 Haveria outras dicas, como por exemplo  (se a pessoa é cada frase, cada asneira)
recomendar um corrector ortográfico, ou pelo menos dizer ao trapalhão ou trapalhona para prestar atenção aos avisos de erro - rasurados a encarnado - que até o próprio FB detecta. Nem toda a gente tem culpa de não escrever correctamente, mas estar online é uma excelente oportunidade para se corrigir e aprender, em vez de ganhar hábitos piores ainda!



Por fim, e mais importante: bem se diz que "a boca fala (ou os dedos teclam) daquilo que o coração está cheio". Quando um comportamento parece atípico, constrangedor, estranho, preocupante, repentino, desequilibrado ou inusitado nas redes sociais, muito provavelmente alguma coisa se passa na vida real. Tanta vontade de dar nas vistas (ou pelo menos, tanto tempo livre para desperdiçar no Facebook) podem indicar que esse familiar precisa de ajuda, de orientação ou simplesmente, de companhia. 

 Se a avó Católica anda a partilhar frases espíritas sem o saber, se calhar é melhor passar  tempo com ela, telefonar-lhe mais vezes (e pedir ajuda ao Padre da freguesia para a esclarecer, se calhar envolvendo-a nas actividades da Paróquia para que se sinta menos sozinha e possa empregar a sua veia solidária com proveito dos mais necessitados). 

Se a mãe ou a tia deram em serigaitas de meia idade, convém desviá-las para outros ambientes onde possam conhecer alguém decente -e na dúvida, sugerir que falem com uma terapeuta simpática que as ajude a lidar com o divórcio de maneira equilibrada.
 O tio conta as amarguras, lava a roupa suja da família em público ou lamenta-se das suas finanças para quem o quer ouvir? Pode ser um sinal de depressão, ou um pedido de socorro. O primo só partilha alarvidades, coisas chocantes ou embaraçosas? É melhor um dos homens da família ter uma conversa séria com ele, não só para o avisar quanto ao inapropriado da coisa como para perceber se algo de mais grave está por trás disso (alcoolismo, dívidas, crise profissional ou matrimonial, etc).

As redes sociais não devem - nem podem - substituir o bom e velho contacto humano. Muito menos quando se trata de família.

No entanto, há aqueles que não têm mesmo remédio e com quem - principalmente se são família bastante afastada - mais vale uma pessoa não se associar de todo  (pelo menos virtualmente e em público) seja para não se irritar, seja para não ficar na fama de ter tais ligações de nome ou de sangue. Como diria a sábia Nelly Dean, a governanta de O Monte dos Vendavais: "as pessoas podem ter muitos parentes, e de todos os feitios; se forem grosseiros ou mal educados, é só não nos darmos com eles e pronto". 

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...