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Thursday, January 17, 2019

A saga dos farnéis ("pega na lancheira e vai levar o almoço ao pai", lá dizia a outra).

John Montagu, 4º Conde de Sandwich


O farnel para crianças e adultos (e tudo o que envolve arranjá-lo) é quase uma instituição na cultura anglo saxónica- e especialmente acarinhada no Reino Unido, onde a tradição do pic nic continua viva e de boa saúde.


Piquenique nas corridas de Ascot


Ao contrário dos portugueses [que embora se vão aos  poucos (re) acostumando a trazer almoço de casa ou comprar qualquer coisa no supermercado em vez de ir sempre a restaurantes, ainda são demasiado peneirentos para fazer da lancheira um hábito] os britânicos não se acanham de comer as suas sandwich onde quer que seja. 

Ou não fosse esta a pátria da sanduíche, invenção atribuída a John Montagu, 4º Conde de Sandwich, nobre senhor que nasceu aqui bem perto de mim em Chiswick e que, não querendo interromper os seus jogos de cartas, mandaria pôr carnes frias dentro de um pão!



 Passem junto ao Selfridges perto da hora de almoço e verão muito executivo de fatinho italiano (ou melhor, Savile Row) descontraidamente sentado num parque ou num vão de escada, mofando a sua marmita enquanto goza o ar fresco com o maior à vontade. Se estava bom para o Senhor Conde de Sandwich está bom para eles, digo eu.
 Por aqui na velha Britannia há (felizmente, mas já lá chego) toda uma indústria paralela dedicada à  preparação da lancheira. Supermercados, bazares, tabacarias e até farmácias vendem tudo o que é necessário para facilitar a vida às mães e esposas (ou pais e maridos a quem também calha a fava na época da igualdade) que enfrentam diariamente esse trabalhinho de Hércules.


Executivos gozando a paparoca e o sol em Hyde Park

  De tupperwares descartáveis (porque ninguém quer, garanto-vos, chegar ao fim do dia e abrir uma lancheira com caixas cheias de restos de molho malcheiroso e peganhento e bananas esmagadas, blhec) e zipper bags a miniaturas de queijos ou pacotes mini de batatas fritas, nachos, barritas de proteínas, bolachas de aveia ou pipocas e outros snacks (com ou sem glúten, com ou sem sal, a escolha é infinita e envolve toda a espécie de modernices saudáveis, como vagens de ervilha secas e temperadas) passando por tacinhas invioláveis com ovos cozidos (cozê-los não custa, mas embrulhá-los de modo que não se esborrachem é um horror) ou snacks de sushi.... a variedade é infinita.




Resumindo, todas as manhãs há, por este país fora, milhares de estantes a serem reabastecidas e arrumadas meticulosamente unicamente a pensar na inevitabilidade do farnel. Tenho para mim que se quem produz miniaturas disto e daquilo e saladas ou sanduiches embaladas fizesse greve por uns dias, tínhamos uma revolução à francesa ou uma revolta dos coletes em terras de Sua Majestade.

A palavra "farnel" pode ser um bocado rústica, pitoresca e antiquada nesta era das paparocas gourmet e lancheiras bonitinhas para Pinterest ver (embora "farnel" evoque imagens apetitosas de cestas a abarrotar de queijo, broa, azeitonas e outras coisas boas depois de um passeio no campo). Porém,  não me ocorre chamar-lhe outra coisa. Primeiro, porque "almoços/lanches empacotados" é uma tradução um bocado redutora para a subtil, extenuante e rotineira (mas nunca repetitiva) arte de "packing a lunch".




 Segundo, porque embora eu seja um ás da cozinha (modéstia à parte) e fique horrorizada só de pensar nos assomos das feministas que se recusam a fazer sanduiches e até empunham cartazes a dizer isso, às vezes fico tão farta de planear, fazer e empacotar almoços e lanchinhos que lhe chamo farnel por mera delicadeza, para não insultar a coisa de "bucha" - palavra rude que a boa gente da lavoura empregava mas que até já ouvi dizer numa roda de fidalgos em festa de cerimónia para designar, com toda a ausência de dita cuja e o maior desrespeito e impaciência, os canapés gourmet emproados e finórios que teimavam em não chegar. Foi um episódio muito libertador, mas ainda não consigo chamar "bucha" ao farnel porque me lembra uma criada que conheci e que cozinhava lindamente mas tinha o vício de roubar coisas parvas, como panelas. Adiante.



Pessoalmente, ao fim de quase dois anos a embalar dois farnéis - um para o senhor meu marido e outro para mim-  cansei-me de andar com a minha comida atrás e achei mais prático passar na farmácia Boots ou coisa que o valha e comprar conforme me apeteça. Não me compensa a maçada nem o carrego. Mas ele, ai que não tem tempo para parar, e que lhe sabe mil vezes melhor o que a sua esposinha lhe arranja... e já agora se forem sanduiches, wraps ou saladas preparadas pela dita esposinha amantíssima e não compradas feitas, melhor. 

Haja paciência e amor aos magotes! 

É sabido que os cavalheiros, por norma, evitam a maçada de comprar comida se puderem: quando o meu irmão viveu em Trás-os -Montes preferia carregar o carro com mercearia (da despensa lá de casa)  e tupperwares com comidinha da mamã para congelar todos os fins de semana, só para não se deslocar ao supermercado nem à padaria (que ficavam a dois passos). Go figure. Porém, sejamos justos: não me admira que os homens arranjem desculpas e que as feminazis, essas preguiçosas, protestem que não lhes apetece fazer sanduiches nem embrulhar farnéis. É que realmente fazê-lo deixa de ser divertido quando se torna uma obrigação diária.



Para cada imagem bonitinha de packed lunches gourmet no Pinterest,  há todo um manancial de textos, por essa internet fora, cunhados pela pena de donas de casa desesperadas com as malvadas das buchas, farnéis, lancheiras e marmitas!

E convenhamos: depois de um dia cansativo (em que provavelmente já se passou várias vezes pelo trabalho mental de ensaiar o que comprar e arranjar para pôr na lancheira) ou de manhã, ainda estremunhada, a última coisa que apetece é estar de pé na cozinha a empacotar pasta carbonara, salada de frango com mel e mostarda, tostas à Elvis (bacon, manteiga de amendoim e geleia) sandochas de perdiz com queijo roulè e molho agridoce picante ou sushi feito em casa, fruta lavadinha e pronta a comer num zipper bag (se não comer fruta noutras horas, ao almoço e ao lanche não falha) e outros petiscos, mais os sumos, os snacks, os talheres descartáveis, guardanapos e por aí fora, tudo devidamente selado com papel de alumínio, película aderente, elásticos, etc.




Isto se tudo correr pelo melhor e se não acontecerem incidentes deprimentes como o presunto (o raio do presunto que aqui só vem cortado fininho, fininho, separado por delicadas lâminas de plástico)  colar-se inevitavelmente aos dedos. Depois uma pessoa vai a sacudir a mão e zás, lá entorna um frasco de pickles pela banca fora. Ou, ao tirar do frigorífico uma caixa de queijinhos fundidos daqueles da Vaca que Ri, a caixa dar um piparote inexplicável pelo ar e estatelar-se, acabando uma pessoa, cheia de pressa, a fazer puzzle de queijinhos para a conseguir fechar outra vez, com o desenho do bicho virado para nós a fazer troça. É caso para chamar nomes, rogar pragas e desatar aos pontapés aos tachos. Parece coisa pouca, mas valha-nos Santo Ambrósio na forma do paciente mordomo Ambrósio do Ferrero Rocher.


Lancheira da lendária casa de mercearias finas Fortnum & Mason, fornecedora da Coroa


 Complicado também é encontrar lancheiras de lona do tamanho certo: quando as acho, encomendo várias porque duram pouco e as que se vendem por aí costumam ser bastante acanhadas para caber todo o pic nic, bebidas incluídas. As da Fortnum & Mason (acima) têm o tamanho quase perfeito, embora as latas e garrafinhas fiquem um bocadinho apertadas.

Em suma, este é um óptimo treino de pachorra e destreza para quem ainda não tem filhos (e convém mesmo que se treine, porque com criancinhas mais complicado se torna o processo: toda a vida recordei com carinho e nostalgia os lautos almoços que a  senhora mãe me preparava, apenas para descobrir - precisamente quando há meses me queixei do bruxedo que é tratar disso - que ela se descabelava com as marmitas e que nem sabe onde arranjo tanta paciência. Lá se foi a minha infância idílica).

Por fim, nem comecemos com as sugestões "deles", ou a ausência das ditas:



Passa uma mulher a vida a fugir de pretendentes indecisos como o diabo da Cruz, apenas para casar com um todo decidido e sem meias tintas... que depois de dado o nó responde invariavelmente "tanto me faz...eu gosto de tudo" ou "o que a minha adorada decidir está bem" (com galanteios é que nos enganam) quando lhe perguntamos o que quer levar para o almoço!


Nada disto me faz descrer das alegrias do lar, reparem; mas que se pense "hurra, nada de arranjar lancheiras" assim que entramos de férias, diz muito de quão divertido é isto. Se tiver filhos que reclamem do que lhes arranjo, estão bem arranjados, passe o pleonasmo- passam a embrulhar o próprio almoço que é um mimo. Palavra de honra. Amanhem-se.

Thursday, January 10, 2019

Sobre as polémicas televisivas da semana...




... só tenho uma coisa a dizer: os portugueses dão demasiada importância à televisão.


Podem armar-se em muito progressivos, muito avant garde, na proa das novas tecnologias e super anti fascitoides (a modinha de ver fascistas até debaixo da cama nunca esteve de tão boa saúde) mas mantêm pela TV um fascínio tão bacoco como tinham no tempo do nacional - canconetismo, com dois canais a preto e branco e quase nenhuma informação alternativa.

Só isso explica a relevância dada a Cristina Ferreira, ao ordenado "escandaloso" e vida privada da criatura (assunto para outro post, mas nenhuma apresentadora valeria tanto se o investimento não compensasse largamente; e que uma Tininha da Malveira tenha público a esse ponto diz muito das prioridades lusas). Ou o ultraje por Manuel Luís Goucha, também ele apresentador de entretenimento e não jornalista, por muito bem preparado que digam que é, ter tido o mau gosto de convidar um vulgar criminoso para representar ideias conservadoras (quanto a mim, um favorzinho feito à Esquerda, de propósito ou não) num programa da manhã. 

Ou ainda a indignação por o Presidente da República, esquecendo por momentos que não está no papel de celebridade (atitude que anda infelizmente na moda entre Chefes e Estado e representantes de Casas Reais) ligar em directo à mesma Cristina Ferreira a 
dar-lhe os parabéns pelo seu novo formato (que diabo, gosto do Professor Marcelo em muitas coisas, mas podia passar sem esta: mandava-lhe uma mensagem no Whatsapp e poupava-se o chilique nacional!). 


Minha gente, tudo isto pode até não ser muito edificante, mas não passa de televisão generalista; e eu julgava que a TV generalista, e os disparates que nela se possam dizer, não tinha o poder de ressuscitar Salazares nem D. Sebastiões. E que não valia grande coisa numa época em que temos acesso a dúzias de canais, a engenhocas na tv cabo para seleccionar programas, ao Youtube, a jornais online de todo o mundo e de todas as cores políticas e correntes de pensamento, mais a tantas outras formas de escolher conteúdos on demand para nos mantermos entretidos e informados. 

Afinal, parece que não: os ordenadões de fulana ou beltrana são uma ameaça à justiça social; uma entrevista (por mais mal enquadrada que seja) a um skinhead caído de pára quedas é uma ameaça à democracia e um telefonema escusado e pateta, sim, mas sem consequência, de um ex-comentador televisivo e figura popular que se fez Presidente levanta mais indignação que o caso do colar de Maria Antonieta.

Pois é, parece que me enganei e que para a generalidade dos portugueses minimamente cultos, instruídos, politicamente conscientes e supostamente dotados de espírito crítico, a "caixinha mágica" continua a ser tão poderosa como no tempo da outra senhora.
 Ou que tem o mesmo glamour e influência para pessoas "estudadas" que tem para as velhotas que discutem a vida da Cristina Ferreira na fila do Centro de Saúde, para quem tudo o que "vai à televisão" é "lindo e tem muito valor".

A única diferença é que agora podem ir para as redes sociais desabafar uns com os outros sobre o assunto. Se vissem tanta televisão como eu, que só lhe mexo para escolher o que realmente quero que ocupe o meu tempo e a minha cabecinha, andariam menos nervosos. Ainda bem que o meu paizinho me incutiu um snobismo e um cepticismo danado em relação ao pequeno écrã, safa...

Saturday, December 29, 2018

Leitora detecta serigaitice a metro #1: Oh Margarida Rebelo Pinto, assim também é abuso.


Volta não volta, os seguidores cá do Imperatrix têma  gentileza de me enviar pérolas que vão encontrando (como eu digo sempre, para ter um blog não é preciso imaginação: basta andar atento) e desta feita, a nossa amiga Eva mandou-me esta divertida publicidade ao novo livrinho da menina Margarida Rebelo Pinto.

Ora, eu confesso que não conheço a obra da autora salvo por uma ou outra crónica sua publicada em revistas ou via social media

Folheei um ou dois dos seus livros em casa de uma amiga-de-uma-amiga a tender para o pindérico que tinha a colecção toda (sabem o estilo: suburbana,boa rapariga mas pretensiosita e basicazita,  primeira universitária da família e que adorava dizer que era muito "cosmopolita"- o convívio durou pouco tempo, claro). E foi tudo. 





Fiquei com a ideia que era um Sex and the City à portuguesa, levezinho e forçadito, escrito por uma senhora benzoca em fase de modernice, para as amigas (e para as que, como a minha conhecida, não sendo benzocas gostariam de o ser) e mais nada. Apenas achei piada à parte em que uma senhora de sociedade, tendo perdido tudo, se fazia à vida criando um estupendaço serviço de catering com as receitas da família. You go, mulher independente e batalhadora, que isto de fidalguia sem comedoria é como gaita que não assobia, toda a vida ouvi; e se há uma desculpa menos desprezível para se armar de um arsenal de tupperwares, é essa.

Porém- eu que espanco a cada oportunidade os Chagas Freitas e os Noites Luares da vida que dão combustível aos delírios sórdidos da mulherada carente e desesperada - nunca tive assim coragem de pôr Margarida Rebelo Pinto exactamente no mesmo saco. Sem ter lido quase nada dela, sempre me pareceu que, sem ser uma ingénua Barbara Cartland, era um bocadinho mais comedida, mais bem criada e que escrevia para um público alvo ligeiramente mais sofisticado (ou com pretensões a tal) que não se atrevia a ser, descaradamente, serigaito. 





É claro que a fronteira é muito ténue: às vezes pouca diferença há entre a serigaita assumida e genuína (manicura da esquina que dança kizombas calientes no clube "Fuego Sensual" lá do bairro com o Carlão) e a outra que foi um bocadinho à faculdade e até se formou na área da saúde ou do direito (as advogadas, enfermeiras e psicólogas sérias que me desculpem, mas por algum motivo vejo muita serigaitice nessas áreas) só que também se rebola seminua ao som do Despacito, faz tatuagens quase tão más e cita igualmente a pobre Clarice Lispector quando o último "amigo colorido" lhe dá com os pés. Uma talvez seja mais asneirenta do que a outra, menos culta e menos ambiciosa, talvez se vista (ou dispa) um nadinha de nada pior; mas por vezes  a coisa não varia muito: nem no berço, nem nos memes badalhocos que partilha nos facebooks e instagrams, nem nos dramas.

Ainda assim (que isto uma coisa é o público a que se chega e outra é o público a que se faz, de propósito, por chegar) não via Margarida Rebelo Pinto a descer, de livre vontade, ao patamar das "guerreiras" e das "migas"

O universo de M.R.P. era, parecia-me, mais o da Teresa que ligava à Clarinha, em lágrimas, porque o marido anda com uma pindérica e ai minha querida agora o que é que eu faço, e não tanto o da Sheila Priscila que no intervalo da Casa dos Segredos tecla furiosamente à Xana Marisa, quase partindo as garras de gel no processo, "ai miga, minha vaca, o cabr*o do Carlão engravidou a outra, logo agora que estava quase a assumir-me". ´Tão a ver a nuance, sei lá?




Eis que me enganei - ou que a editora, querendo aumentar as vendas a todo o custo, enfiou um "guerreira" na promoção do livruxo, assim como quem não quer a coisa, como se usar a palavra "guerreira" não fosse uma morte social nem nada. E já agora, porque não acrescentar "há uma guerreira em cada mulher LINDONA", jurar que o livro é "Top" e despedir-se das leitoras com "beijos de luz"? Hein? Perdida por um, perdida por mil!

Ora, cada uma sabe as linhas com que se cose; já se sabe que vender livros em Portugal, light ou não light,  é um bruxedo....e viver da escrita pior ainda. Tiro o meu chapéu à senhora pelo sucesso e pela pachorra olímpica de se dedicar a tal. 

Porém, como dizia um merceeiro muito sábio lá da minha terra e o povo tem sempre carradas de razão, certos fregueses mais vale perdê-los do que tê-los. Honra e proveito não cabem no mesmo saco e quando se trata de marcas, não convém deixar que se desvirtuem. Mal ou bem, se Margarida Rebelo Pinto não quer que a confundam com uma Gabi Pinto qualquer, convém que se sente com quem tem a cargo o marketing das suas obras e lhes lembre que nenhuma senhora que se preze, por mais escandalosa que possa ser a sua vida privada, consente em ser tratada em público por "guerreira"

É que é um atestado de baixaria imediato, uma daquelas coisinhas que fazem parte do dicionário oficial para classificar flausinas baratas, um carimbo de galdéria quase pior que um "tramp stamp" tatuado ao fundo das costas, está a ver?

 Ou se calhar eu estou equivocada e o palavrão não foi usado à socapa nas costas da autora, nem deixado passar por ingenuidade; às tantas Margarida Rebelo Pinto, seja por necessidade de chegar a mais gente, seja num assomo caridoso de fazer das serigaitas assumidas serigaitas ligeiramente mais polidas, decidiu falar numa linguagem que elas apreciem. Risky move, mas sei lá eu...


Tuesday, December 11, 2018

Quatro truques naturais que a vossa pele vai adorar





Embora eu sempre me tenha interessado por cuidados de pele naturais, a verdade é que recorro a muito poucos- às vezes por preguiça, outras porque para ser franca, os benefícios não compensam a sujeira e já há no mercado substitutos mais práticos e com resultados tão bons ou melhores. 
 No que respeita às rotinas de beleza, tenho apenas uma regra: cingir-me ao que é insubstituível, seja barato ou caro, natural ou industrial. Se um cosmético tem um efeito que mais nenhum consegue dar, vale a  pena investir nele. E como sabem, apenas partilho o que acho mesmo revolucionário, por isso deixo aqui quatro que fazem parte do meu "arsenal":


1- Usar soro fisiológico - antes, ou como substituto do tónico




Este descobri no Verão passado e nunca mais quis outra coisa,  até porque sou picuinhas com os tónicos: uso-o depois de limpar ou lavar o rosto. Ajuda a conseguir uma limpeza mais profunda e deixa a pele fresca e mimosa. Fecha os poros, matifica, ajuda a desinchar olheiras, acalma a pele reactiva, revigora e permite fixar a maquilhagem por mais tempo. Gosto de salpicar o rosto com ele, deixar agir por uns segundos e tirar o excesso com um lencinho, antes de aplicar o tónico (opcional) e o sérum (vamos falar dos séruns um dia destes).

2- Fazer do Leite de Magnésia primer




Outro truque cósmico e fenomenal que andava a ser muito badalado na internet e que funcionou às mil maravilhas comigo. É estupendo no Verão, para dar aquele "bom ar" fresco e lavadinho de quem não transpira nem tem a maquilhagem derretida! Aplica-se um bocadinho na Zona T depois do creme hidratante. Deixa a pele esbranquiçada, mas desaparece lindamente quando se aplica a maquilhagem, além de impedir que os poros fiquem entupidos. Também há quem o aplique antes do desodorizante, para prolongar o efeito acabado de sair do banho.

3- Máscara de clara de ovo e mel: efeito botox e photoshop



Esta é um bocadinho aborrecida de fazer e escorre imenso, por isso aconselho que a apliquem antes de lavarem o cabelo no duche - e que a evitem se acabaram de arranjar o dito cujo, para não andarem por aí a cheirar a massa de bolo estragada (blhec). Basta misturar uma clara de ovo, mais duas colheres de sopa de mel e aplicar sobre a pele limpa (depois de um peeling ou exfoliação, então é óptimo!) deixando estar até sentirem que começa a repuxar. Tira-se com água morna (e depois, um bom banho de água e sabão, pelas alminhas!).  Já experimentei imensas máscaras profissionais, algumas das marcas mais sofisticadas, e juro que nenhuma dá um resultado parecido. Hidrata em profundidade, nutre, fecha os poros, deixa a pele fresca, preenchida e "esticadinha", ilumina... enfim, parece que andou ali um airbrush valente. Recomendo quese faça duas vezes por mês, mas quem se puder dar à maçada semanalmente verá resultados melhores ainda.


4- Exfoliante/peeling de limão e açúcar




Um truque da minha avozinha, para quem uma pele branca, fina, luminosa e sem imperfeições era meio caminho andado para o sucesso. Apesar de por motivos práticos recorrer muitas vezes aos exfoliantes de drogaria e aos peelings de ácido suave para uso caseiro de perfumaria ou de farmácia , esta receita tem o melhor dos dois mundos: uma exfoliação à séria (sem grãozinhos só para inglês ver que não fazem efeito nenhum) e a luminosidade de um peeling ácido carregadinho de Vitamina C. Também é muito bom para as manchas e acne ou pele cansada, além de ter um sabor delicioso!
 Faz-se uma papa espessa com sumo e açúcar e aplica-se na pele húmida, acabada de limpar. Massaja-se com movimentos circulares, insistindo nas zonas em que o grão da pele precisa de ser afinado, e deixa-se secar até ficar sólido. Retira-se com água morna, seguindo-se um hidratante neutro e um bom protector solar. A pele fica renovada e parece que nos saiu o mundo de cima!


Happy pampering!


Sunday, November 25, 2018

Um Playboy + Duas Raparigas espectaculares, mas tontas =asneira de proporções Reais








Hoje trago-vos mais um post da série "Estas Raparigas não sei para que querem a Esperteza".

Ora cá vai: as filhas do Príncipe André, Beatrice e Eugenie, têm andado nas bocas da imprensa este ano muito por causa do casamento da mais nova (quanto a mim, "o" casório Real digno desse nome em 2018 se não contarmos com o do neto da Duquesa de Alba, que não tendo o título "Real" foi muito mais aristocrático e como manda o figurino do que qualquer outro). 







Em geral os britânicos gostam das duas Princesas, apesar da má publicidade criada pelos disparates passados dos seus paizinhos (que embora divorciados, continuam muito amigos e a viver como família).

 Para isso contribui tanto a personalidade estouvada, mas divertida e de bom coração da mãe delas, a formidável Duquesa de York, com quem as pessoas não conseguem ficar zangadas muito tempo ( é um daqueles casos "não faz por mal, não é defeito, é feitio") como a boa natureza das duas pequenas- que transparece mesmo tendo passado maus bocados com a imprensa e sendo alvo de troças cruéis e muitas vezes injustas (ambas terão chorado quando foram ridicularizadas pelos seus chapéus no casamento do primo William há uns anos atrás). 




As irmãs têm conseguido estar à altura da sua condição de netas da Rainha Isabel II, envolvendo-se com as obras de caridade da sua afeição e abstendo-se de escândalos dignos de nota (as vezes que se têm metido em algum sarilho foi por ingenuidade, mas já lá voltamos). 

A sua forma de estar simples e afável acabou por conquistar o público, que ao início não engraçava com as Princesas por aí além...fosse por arrasto, fosse por não possuirem o espírito nem a carreira brilhante da sua carismática prima (e "Princesa" sem título) Zara Phillips, (uma moça admirável, ou não fosse filha da Princesa Real, Ana- urge escrever dois posts sobre mãe e filha)- ou por, apesar de serem bonitas à sua maneira, não terem a beleza de cortar a respiração de outras parentes suas como Kitty Spencer ou Lady Amelia Windsor, que fazem sucesso como modelos da Dolce & Gabbana e Burberry.




Amigos meus que privaram com Beatrice e Eugenie elogiam-lhes a candura e a simpatia (são capazes de andar descalças em público como se nada fosse e coisas desse género) e ninguém pode dizer que não sabem estar com elegância e modéstia, ainda que tenham errado algumas vezes na fatiota (quem nunca?). Repito o que já tenho dito por aqui: falta de elegância nas toilettes tem remédio; sem elegância de espírito é que nada feito!

No entanto, se Eugenie, apesar mais nova, passa por ser uma jovem com a auto estima no lugar e bastante segura de si (casou ao fim de sete anos de namoro estável com um rapaz encantador e de uma boa família com raízes aristocráticas, embora não titular)  o mesmo não parece acontecer com Beatrice, que tem sido muito azarada nos afectos.



 Rosnam as alcoviteiras que a menina não tem grande confiança nos seus encantos e atrai o tipo errado de homens, indignos de lhe encerar as galochas, com quem espera desesperadamente assentar... só para se desiludir com arrivistas. 

Em vez de se pôr nas suas reais tamancas (ou sapatinhos de cristal, se preferirem) e mostrar ao mundo que o partidão aqui é ela, de se focar na sua nobre linhagem, no seu lindo cabelo ruivo e na sua figura curvilínea de ninfa renascentista, ei-la a fazer disparates, como praticamente dar um ultimato ao ex namorado a ver se ele se decidia de uma vez a casar com ela e levar um par de patins como resposta (a ser verdade, ui). 


O que faz falta a Sua Alteza é ser minha amiga, que eu havia de lhe puxar as Reais orelhinhas e dar-lhe um sermão tal que ficava como nova, porque detesto ver boas raparigas a desperdiçarem-se com idiotas. Adiante.



 Enfim, tendo chegado aos trinta (bastante jovem para os padrões actuais, mas sabe-se como são as más línguas) e vendo a irmã mais nova casar primeiro, parece que a Princesa decidiu despachar-se a bem ou a mal e zás, vai de arranjar namoro relâmpago com um convidado da boda da mana. O eleito é Edoardo Mapelli Mozzi, um bem parecido (e milionário) filho de Conde Italiano que a conhece desde que os dois eram piquenos.





Até aí, tudo perfeito: as duas famílias sempre foram amigas, o rapaz pertence ao seu círculo social e não é nada de se deitar fora. O problema é que primeiro, da fama de Playboy e "pintas" ninguém o livra; e segundo ( e bem mais grave) o malandro estava noivo há três anos (três anos de noivado tem horrores que se lhe diga, já lá vamos); vivia com a tal noiva (e alegadamente, continuou de casa e pucarinho com a coitada depois de começar a namorar com Beatrice); e o pior do piorio, os dois têm um filho e tudo. 


Dara Huang, a ex -noiva

Ou seja, uma embrulhada da qual uma neta da Rainha Isabel II não tinha a mínima necessidade: o que não falta para aí são bons rapazes de famílias adequadas capazes de a fazer feliz.

 Mas a história torna-se ainda mais disparatada se olharmos para o perfil da noiva abandonada, a arquitecta americana de origem chinesa Dara Huang: bonita, com óptima figura, de origens humildes mas filha de pais brilhantes que subiram a pulso e enriqueceram (o pai trabalha para a NASA) super bem sucedida, diplomada em Harvard e além de herdeira, rica por mérito próprio, com um currículo impressionante.



 Claro que Ms.Huang não tem culpa de ser enganada e trocada por outra (disso ninguém está livre). No entanto, Dara deixou-se claramente enrolar. Como é que uma rapariga tão esperta, que lidera projectos tão complicados, não vê que nenhum homem sério, com intenções sérias, deixa arrastar um "noivado" durante três anos, principalmente se não há constrangimentos financeiros? E vendo que o maroto não se decide a honrar a sua palavra, vai viver com ele a ver se o faz mudar de ideias, e ainda tem uma criancinha fora do casamento, idem idem, aspas aspas? Isto é ou não é colocar-se a jeito para ter um desgosto?

Ou seja, em vez de pôr nos seus Jimmy Choos e pensar "sou uma mulher gira, rica, sofisticada e independente: pretendentes deste género não me faltam nem aqui nem na China", pôs-se a tratar o mancebo como se fosse a última Coca cola do deserto. 



O que faz falta a Dara é ser também minha amiga para eu lhe puxar, por sua vez, as orelhas e dar-lhe um sermão daqui até à América, porque não posso ver raparigas inteligentes a fazerem o papel de burrinha-parvinha. ´





Que o rapaz é um partido aceitável e bonitinho - mas há mais de onde veio esse e até mais bonitos, mais nobres e mais ricos, olhem que coisa!

Das duas uma: ou Edoardo, Edo para os amigos, sabe algumas técnicas de sedução sobre-humanas capazes de deixar rendida a femme fatale mais inalcançável, ou possui um dom extraordinário para detectar mulheres que são inseguras sob uma aparência de poder. Aposto na segunda hipótese.

Beatrice de York nunca teve grande confiança na própria beleza; apesar de os seus dotes naturais serem mais que suficientes para uma jovem da sua categoria, claramente isso não lhe basta; e a insegurança, aliada a uma personalidade demasiado gentil e inocente, teima em estragar-lhe os planos. É fácil para qualquer mariola bem apessoado e vivido deixá-la nas núvens, disposta às piores decisões. Nunca é boa ideia uma mulher 
envolver-se com um homem que faça (ou que ela sinta que faz) mais sucesso com o sexo oposto do que ela própria. É o tipo de vantagem que, à cautela, não se deve dar a um homem, mas não elaboremos por hoje.




Por sua vez, Dara terá inseguranças quanto ao seu estatuto social: por várias vezes mencionou as suas origens modestas, e como se orgulha de ter sucesso tendo começado como "imigrante, de uma minoria e nascida em berço humilde". Claramente há ali um valente complexo de inferioridade por trás do sonho americano. É simples de entender como a presença de um moço galante de dinheiro velho, com vetustos pergaminhos, a impressionaria sem grande esforço, deitando por terra a sua persona de mulher poderosa e fazendo dela uma mulher-tapete. Deslumbrada e sem grande "mundo" apesar do seu êxito e estilo de vida luxuoso, Dara não terá tido capacidade para ver que não basta ser fidalgo- é preciso saber agir como um! De novo, se uma mulher se sente inferior a um homem por qualquer motivo, melhor fará em ficar longe dele.




É claro que isto ainda pode tudo acabar em modo and they all lived happy ever after:  Edoardo pode bem surpreender toda a gente, mostrar ser bom rapaz, fazer Beatrice feliz e ser um pai extremoso para o filho do anterior relacionamento, enquanto Dara, por sua vez, se arruma com um homem de sucesso e mais ajuizado. No entanto, esta história é uma "modernice" escusada e arriscada para uma Princesa, e uma peripécia que não teria lugar se as duas envolvidas (Princesa tradicional e empresária moderna) tivessem mais fé em si mesmas e mais atenção aos sinais de alarme.



 A forma como uma relação começa diz praticamente TUDO sobre a  forma como se vai desenrolar e sobre o fim, bom ou mau, que terá. Um homem que começa uma relação de modo pouco sério, dificilmente casará com a mulher em questão... ou se casa (quase sempre "arrastado") nunca será um marido dedicadíssimo; e um homem que começa uma relação tendo enganado/trocado a parceira anterior pela actual, não se ensaiará de repetir a proeza. Há excepções, claro, mas nenhuma mulher sensata se rege pelas excepções à regra porque essas esperanças desejosas quase sempre dão péssimo resultado.

O pior é que vejo por aí muitas Daras e muitas Beatrices: mulheres impecáveis e bem sucedidas a fazer esses papéis de burrinha-parvinha, a quem eu puxaria as orelhas de bom grado. A essas, convém lembrar as palavras de uma mulher que não tinha grande beleza, mas que em compensação possuía bom senso às carradas e foi por isso muito feliz: Eleanor Roosevelt. 




Dizia ela "ninguém pode fazer-te sentir inferior sem o teu consentimento". Este havia de ser o mantra de muita mulher, rica ou pobre, linda ou menos linda, com berço de ouro ou de palha, por esse mundo de Deus...

Monday, November 19, 2018

Amor em tempos de...paz, amor e rock n´roll




Ando há bastante tempo para criar um post sobre o Woodstock - ou antes, sobre o street styling do Woodstock, porque houve realmente looks incríveis no festival mais ou menos improvisado que correria extraordinariamente bem e viria a ser um dos eventos mais emblemáticos de todos os tempos, símbolo incontornável do movimento Flower Power e dos protestos contra a Guerra do Vietname e a favor dos Direitos Civis. 

O que se pensava ser apenas "um festão numa quinta" acabaria por se tornar o retrato de uma geração e de um tempo em que os idealistas eram ingénuos mas realmente bem intencionados e sabiam vestir de forma controversa para as normas da época mas continuar giros - ao contrário dos snowflakes de hoje que só dizem disparates, falam de barriga cheia e se põem feios de propósito. 

Deve ter sido uma época interessante para se ser jovem, por muito que eu ache que certas "novidades" que sairam daquelas cabeças mais valia nunca terem existido, porque abriram portas a muita coisa que me desgosta hoje em dia. Enfim, a História nunca se faz sem solavancos e sem que algumas coisas mudem para melhor e outras tantas para pior...


 De qualquer modo, creio que se inventassem uma máquina do tempo eu daria um pulinho ao Woodstock, apesar de Festivais não serem o meu cup of tea e de o pivete a marijuana me dar volta ao estômago a uma distância de 100 metros. Isto se a máquina do tempo incluísse uma casa de banho com duches, ou nada feito. Até posso gostar de brincar aos hippies uma vez por outra, mas sempre em versão limpinha. 

E curiosamente, foi um casal "não hippie" que passou a ser a cara do Woodstock: em Agosto de 1969 Nick e a sua então namorada, Bobbi (ele empregado num banco, ela ainda na faculdade) ouviram na rádio o aviso das autoridades para que as pessoas se mantivessem afastadas do pandemónio nas imediações do festival. 



Como os jovens têm por hábito ser do contra, agarraram em alguns amigos, pegaram na carrinha da mãe de um deles e foram ver o que se passava. Acabaram por gostar do ambiente de espontânea alegria e música que se tinha criado e ficaram, embrulhados numa colcha que encontraram abandonada a um canto.

De madrugada o fotógrafo Burk Uzzle, trabalhava para uma agência noticiosa mas decidira ir registar o evento por sua conta, viu o casal abraçado de pé contra o nascer do sol, achou a imagem bonita - e sem que os visados se apercebessem, registou o momento.



O festival acabou, a multidão dispersou e Nick e Bobbi voltaram às suas vidas normais de quem não é hippie, com responsabilidades e contas para pagar - viriam a casar dois anos e pouco depois. Só quando o álbum com a música do Woodstock veio a público souberam que tinham sido fotografados...e que estavam famosos! (Quanto a mim foi uma sorte a relação ter resultado- imaginam-se a aparecer ad aeternum ao lado de um ex em tudo quanto é merchandising de nostalgia? Cruz Credo!).




Quase 50 anos volvidos, o casalinho continua apaixonado, a receber correio dos fãs e a dar ocasionalmente entrevistas sobre as suas memórias. Numa delas, os eternos namorados partilharam mesmo a receita para um amor sem prazo de validade e um matrimónio bem sucedido:

"O casamento é difícil. Há bons e maus momentos. É preciso escolher as batalhas: às vezes é muito mais fácil ser feliz do que ter razão. É preciso perguntar a nós mesmos- estou melhor com ou sem esta pessoa? E se estamos melhor com ela, então fazemos com que resulte".

Quanto a mim, esta é a fórmula mais sensata de todas. Devia vir escrita em papel selado quando se avançam com os documentos na conservatória....




Sunday, November 18, 2018

A soldier´s daughter never cries

Runnymede Air Forces Memorial, 25 de Julho de 2018

Eu não sei introduzir textos tristes, tocantes, solenes e bonitos. Eu não tenho jeito para despedidas porque me partem o coração e me deixam, simultaneamente, totalmente atrapalhada e com medo de soar desrespeitosa ou ridícula. Tenho menos aptidão para lidar com sentimentos em público do que a Rainha de Inglaterra (falei-vos disso, em tempos). Admiro-me sempre de ser capaz de trabalhar num sítio onde há constantemente gente a chegar e a partir e a despedir-se de parentes e amigos, nem sempre com alegria. Não sei ser desta época em que é suposto partilharem-se fraquezas, ser-se vulnerável e  toda a gente saber com que palavras, com que cara e com que postura se divulgam notícias pessoais desagradáveis (sejam mais ou menos sérias) no cenário dos social media

  Como vos comuniquei há pouco por Facebook, perdi  o senhor meu pai - como me referia sempre a ele quando uma das suas tiradas me inspirava aqui um post - de forma totalmente inesperada. 


Reveillon em Londres, 2016-17


 E tal como expliquei, a comoção e as medidas que foi preciso tomar impediram-me de escrever. Mas eu não saberia o que escrever...e hesitei até agora. Escrever o quê? Um epitáfio? Escrever o quê, justos Céus? Passar adiante, guardar a notícia para os muitos familiares e amigos que nos acompanharam, debruçar-me sobre outros temas como se nada tivesse acontecido? Embora eu nunca fosse de partilhar aqui a minha vida privada, passar uma borracha também não faria sentido já que fui não só contando algumas anedotas familiares, muitas em que o pai era o protagonista, como vos dei parte de algumas ocasiões realmente importantes embora não chegasse a elaborar ora por falta de ocasião, ora porque não é mesmo o meu estilo.




 E no entanto, se calhar, o papá foi o grande responsável por eu não conseguir lidar com estas coisas de forma compungida e dramática: é que não só fui educada por ele, mas sou muitíssimo parecida com ele, para o bem e para o mal. 

 O pai não era de sentimentalismos, fora de casa pelo menos. Apesar do coração de ouro, de se derreter pela família e do seu irish/sicilian temper, era muito anglo saxónico por educação e quando se tratava de coisas sérias, entrava em fleuma britânica. No fundo era um soldado, um espartano no sangue e nos modos, e filha de soldado nunca chora. Perante uma emergência, uma tragédia, um transe da vida, depois dos primeiros prantos é suposto fazer como o Marquês de Pombal depois do Terramoto e atender ao mais urgente, em modo marcial e robótico, com nervos de aço e o coração sabe-se lá em que estado.





 O que é que o pai diria? Oh, eu sei o que ele diria: pull yourself together! Put on a brave face! Ou: sai uma palmada que é para chorar com razão! ou ainda, "oh Sissi, vamos lá a «Tarantar» por amor de Deus!!!" («tarantar» foi um verbo que inventámos a partir de um antigo nome da nossa família, Taranto, que perdendo-se oficialmente continuou  connosco como alcunha, e como era tudo gente brava e desempenada passou a designar ser corajoso e recompor-se).

 Mas - oh ironia-  no meio do desgosto esmagador, da surpresa que me deixou sem reacção, (a vida tem destes sarcasmos crueis, ou será que nos são enviados os desafios que mais tememos?)  a primeira provação foi ver-me precisamente - eu que sou um horror nestas coisas, eu que me encontro fora do país e que estava ainda sem chão -  a braços com a tarefa de esclarecer parentes, amigos, militares que comandou, alunos e tantas outras pessoas que o admiravam que, incrédulas, estarrecidas,  me contactavam de Portugal, de Londres, dos Emirados Árabes e de outros países ainda, aflitas a querer saber se era verdade, se não era algum engano ou partida de mau gosto.




 E lá tive, enquanto arranjava tudo à pressa para seguir para Lisboa, de explicar vezes sem conta (sabe Deus com que vontade de repetir aquilo que ainda me custava a perceber): caiu fulminado durante um dos seus treinos de bicicleta, o que teria sido o tipo de viagem para o outro mundo que o pai tinha pedido a Deus... se fosse só daqui a 20 anos. Rápido e indolor para ele, e de pé como um bravo até ao fim, a fazer algo que adorava. Não numa cama ou numa poltrona, que ele não suportava gente mandriona...seria o fim perfeito - se tal coisa existe - mas foi cedo demais.


Num evento na Brigada Ligeira de Intervenção de Coimbra, 2005 (?)


Não é de estranhar esta reacção de quem privara com ele: o Senhor Tenente Coronel era uma figura tão larger then life, forte e invencível, alpha male por excelência como já se vão fazendo poucos, oficial majestoso que apavorava os tímidos (até começar a contar piadas, entenda-se) fanático do fitness, tão divertido, carismático e sociável, com um aspecto tão jovem, 60 anos recém feitos mas a  rivalizar nas proezas atléticas (apesar dos nossos avisos) com os rapazinhos de 20, que parecia realmente impossível. 

Toda a gente espera que os adoentados, os azarados da vida, os sofredores, os que levam uma vida de excessos, os velhos e os emocionalmente frágeis vão primeiro. Mas homens de aço como o pai, capazes de olhar a morte nos olhos e dar-lhe um piparote sem tir-te nem guar-te, não. Esses são, supostamente, como aquela personagem de The Walking Dead: "only Merle can kill Merle". Ou como o General Patton:  "though I walk through the Valley of the shadow of Death, I shall fear no evil...because I am the meanest motherf*** in the Valley.'

 Esses é suposto terem sete ou nove vidas como os gatos, e se não as gastaram todas, nobre e espectacularmente, em cenário de guerra ou numa aventura qualquer tipo Rambo ou Indiana Jones, cá ficarem ad aeternum a mandar em toda a gente, a suportar o peso do mundo nos ombros, a comandar as tropas até serem velhos rezingões mas sempre rijos, que enchem a paciência à família e espantam toda a gente com os seus chistes, partindo quando já não há mais a tirar da vida. 




 É o tipo de certeza que dá alguma segurança às pessoas e que, quando se vê que não é bem assim, as deixa cheias de medo além da tristeza. Se um homem assim é vulnerável, nada é seguro neste mundo. 


Eu própria tinha uma secreta esperança de que o pai saísse ao avô dele, que com duas tromboses em cima ainda arriava na Guarda Republicana tareias de criar bicho. Infelizmente, saiu à outra metade dos homens da família, que na minha não há meio termo: ou duram para sempre ou vão cedo e de repente.

Em Julho tínhamos passado uma semana juntos aqui no Sudoeste de Londres, em alegres patuscadas, a gozar a piscina do nosso jardim, os passeios a Windsor e a margem do rio em Twickenham (onde o nosso Rei Senhor D. Manuel II se exilou e de onde Sua Majestade apoiava as nossas tropas que lutaram ao lado dos Britânicos na I Guerra- até há um lindo memorial ao Rei e soldados portugueses  na paróquia que frequentava). 




 O autor dos meus dias adorava o Reino Unido, onde vinha regularmente em trabalho,  e os E.U.A, onde estudou em miúdo. Sempre preferiu que eu vivesse em Londres, tendo-me educado com essa ideia fixa. Até me deu o nome de uma colega de carteira do liceu (coisa que nunca lhe desculpei, se bem que o petit nom Sissi também foi ideia dele) e por sua parte, trabalhou numa organização britânica até ao fim, logo que se reformou do Exército.


Ao serviço do British Council em Abu Dhabi, com alunos e amigos


 Creio que lá no fundo amava igualmente do seu país, que serviu fielmente; mas era um amor ferozmente crítico, à maneira Queirosiana como o Afonso da Maia: nunca se exilou de vez, porém tinha um enorme desgosto pela rebaldaria em que Portugal se transformou, nomeadamente em termos de ética de trabalho e no desrespeito pelas Forças Armadas, algo que o magoava mais do que gostava de admitir. Acho que apesar das suas costelas estrangeiras, da influência britânica que norteava a sua forma de estar, de ser muito pouco português em muita coisa menos no respeito à bandeira (preferia a azul e branca, mas honrou a que temos e que o cobriu nas últimas cerimónias)  e à língua, tinha um lado vivamente lusitano, Moura enrustido e medievo capaz de brandir a espada de D. Afonso Henriques. Português da velha guarda, da raça dizimada em Alcácer Quibir, inconformado com a falta de patriotismo e de brio. Em suma, perdido e achado ferrava-se na velha Albion e só o facto de saber que lhe fiz a vontade não me encheu de remorsos por estarmos longe um do outro. 

No Verão fez-se uma onda de calor impossível, mas ainda conseguimos ir ver juntos o Museu Imperial da Guerra (onde está exposto um uniforme igual ao que membros do Corpo Expedicionário Português, como o meu bisavô, usaram) e o Memorial da Força Aérea em Surrey, onde o papá prestou homenagem aos gloriosos  caídos na II Guerra Mundial. Sem ele ver tirei-lhe o retrato que podem ver no topo da página, não sonhando que passaria a ser icónico para mim, meses mais tarde. "Que nunca por vencidos se conheçam". Godspeed, daddy.

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