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Tuesday, January 9, 2018

Hits para serigaitas: Dua Lipa e Little Mix (a ex ressabiada e a "amiga" arrependida)



Não é novidade para ninguém que a maioria das canções "pastilha elástica" actual é escrita a pensar na cultura serigaita do momento (odes a relações casuais que dão para o torto porque não podia ser de outra maneira e a histórias "de amor" que começam no Tinder e acabam com postagens lamechas no Instagram). 

A música retrata os dramas de cada geração; já era assim com as "Cantigas de Amigo" medievais. Calha apenas que esta geração podia evitar metade dos dramas usando essa coisa mágica que é ter um nadita de classe e um bocadinho de dignidade. Ou, já que os vive, relatá-los com um pouco menos de baixaria. As meninas das Cantigas de Amigo também não eram santas, mas as intenções dos seus amantes sempre passavam por mais puras e de todo o modo,os Trovadores lá sabiam disfarçar a coisa com uns versos todos catitas.

Regressemos ao século XXI, que estas idas e vindas na História deixam-me tonta:  como o tema dos amores e desamores é intemporal e universal, o desconchavo de muitas letras passa despercebido. Uma alma distraída até toma estes "sucessos serigaitos" por canções de amor xaropentas e passageiras, mas normais. Ainda assim, há algumas que dão MUITO nas vistas e que deixam quem repara nas letras em modo "oh valha-me Deus. Se uma filha minha cantarolasse tal coisa levava um açoite taludo". 

Eis duas que me têm chamado a atenção de tal forma que me apetece entrar pela rádio adentro e correr as cantoras à chinelada:

Little Mix, Shout Out to My Ex





Esta girls band, que faz um sucesso danado no Reino Unido mas tem canções a pipocar um pouco por todo o lado, não é propriamente um exemplo de elegância: basta reparar nos preparos das mocinhas. Mesmo a mais rechonchuda do grupo faz questão de se exibir em trajes de stripper que não a favorecem nadinha e a fazem ouvir comentários menos simpáticos. Os ingleses classificam-nas como "chavs" (Sheilas do bairro/mitras) e não posso tirar-lhes razão, embora nem desgoste de algumas cantigas suas (não esta-já lá vamos).
Surpreendentemente (ou não) as crianças adoram-nas porque a petizada não vê mal em nada e os pais também não se ralam. Adiante, que isto é só para contextualizar: afinal, dificilmente uma rapariga de bem  escreve uma canção rasteirita.



 Pois bem: uma das meninas deste agrupamento musical, Perrie Edwards, levou um par de patins do ex cantor dos One Direction, Zayn Malik. 

Entretanto, o rapaz fez um upgrade e começou um namoro firme com a linda modelo Gigi Hadid (já se sabe que um homem às vezes cai no erro de andar com muito mulherio descartável e até namorar umas quantas flausinas sem nunca as levar a sério, até encontrar uma rapariga de classe que queira realmente apresentar aos pais - c´est la vie). 

Mas claro que a serigaita desprezada não gostou de se ver substituída por outra mais gira, com outra pinta e um background mais decente; nem de notar que o ex namorado, que pelos vistos não a tratava lá muito bem, traz Miss Hadid nas palminhas. E em vez de se calar e de seguir com a sua vida, Perrie teve a atitude de qualquer mulher da luta que se preze, em versão musical e famosa: juntou as "migas" da banda para escrever esta bela obra em que, de forma clara e óbvia, com palavrões à mistura, desmerece as habilidades de alcova do rapaz e deseja que a sua sucessora (pobre Gigi, com tal antecessora) "não finja como ela fingiu". Classy.




Dua Lipa, New Rules


A cantora de origem kosovar, Dua Lipa, tem tomado os tops de assalto com um bonito pop melódico (estilo que voltou a estar na moda- basta reparar no sucesso de Sia, esse geniozinho) e que, diga-se de passagem, me agrada. Canções dançáveis mas melancólicas, com letras que contem uma história, terão sempre um lugar no meu coração. 

No ano passado gostei bastante de um dos primeiros sucessos da jovem artista (este aqui) que me surpreendeu na rádio.

E por isso, fiquei assaz arreliada quando a cantiga New Rules viralizou, com um videoclip muito bem coreografado, assinale-se,  em que a menina junta as "migas" para uma festa do pijama toda "empoderada". New Rules pôs milhares de serigaitas e mulheres da luta a jurar que esta é a canção da sua vida e que a letra é o mantra mágico para saírem das situações deprimentes em que são useiras e vezeiras. 



 Em boa verdade, o propósito de New Rules até não é mau: ensinar as "amigas coloridas" que se rebaixam a esse papelão na patética tentativa de que um rapaz que não quer nada de sério com elas mude de ideias a terem um bocadito de brio e uma gotinha de amor próprio. E dar-lhes os três passos, assim tipo Serigaitas Anónimas, para saírem dos assados poucos dignos em que se encontram.

 Ou seja, segundo a menina Lipa, quem foi tola a ponto de se apaixonar por um galã qualquer sem que ele se apaixonasse primeiro por ela e pior, se sujeitou a uma relação casual em que é usada em modo marmita, tem de aprender três regras: não atender o telefone (porque é óbvio que "ele" só liga por estar sozinho e com os copos) não o deixar entrar, e terceiro, não ficar amiga dele (pois, explica ela como se fosse a coisa mais natural do mundo, "já sabes que vais acordar na cama dele de manhã") . Elementar, minha cara! 




 E conclui o sermão com um estribilho bem explícito que prefiro não traduzir: and if you´re under him, you ain´t getting over him. Bonita linguagem para uma moça de 22 anos...

Volto a dizer, a  intenção da letra podia ser pior: uma rapariga com um mínimo de auto estima dificilmente se acha em tal papel para começo de conversa, mas mais vale arrepiar caminho tarde do que nunca.

 O que é triste é ver que estas relações sem compromisso (e mulheres que as aceitam à espera de outra coisa) se tornaram tão mainstream que há canções pop inspiradas nisso dirigidas a um público tão jovem. Ou então não tornaram e canções como esta procuram normalizar esta chaga social, disfarçando-se de "cantigas de amor não correspondido",o que é péssimo - e com um palavreado que valham-me todos os santinhos do calendário.

Moral da história: Reunião Mundial de Serigaitas Anónimas. Olá, sou a Dua Lipa e sou uma serigaita. Boa sorte com o "tratamento"...

Monday, January 8, 2018

O que comprar em/de Portugal? (7 luxos portugueses que o mundo precisa de consumir)

Biocos do Algarve, imagem via


Recentemente li um livro das famosas stylists britânicas Trinny e Susannah que tinha um capítulo dedicado a "o que comprar quando se viaja". Para cada capital davam um punhado se sugestões mas quando chegavam a Lisboa...só recomendavam comprar azulejos!


 Ora, nada contra o belíssimo azulejo, que eu adoro; mas não só é uma coisa pouco prática para levar em quantidade na bagagem, como isto só prova o que eu já disse em tempos: Portugal está longe de ter uma identidade de estilo, um chic português. O português quando é elegante é elegantíssimo, mas o seu chic é tão discreto, ou tão mal aproveitado, que surpreende as pessoas quando notam que ele existe. 



Cesta Toino Abel

Quanto mais uma pessoa está longe, mais crítica se torna em relação ao país em que nasceu - mas também, melhor vê o que nele há de espectacular (tenho mesmo rascunhados uns quantos posts sobre Portugal x Reino Unido, mas isso fica para mais tarde).

  No meu caso, como estou sempre em contacto com marcas/artigos de moda e de luxo, penso muitas vezes nas estupendaças oportunidades de internacionalização que Portugal anda a perder: é que muitos produtos que em Londres, em Nova Iorque ou no Dubai são considerados exclusivos, em Portugal são corriqueiros; simplesmente, têm a qualidade a que os portugueses se habituaram ...e por isso, não se dá por eles. Aqui ficam alguns que me saltam mais à vista:


Boa marroquinaria



Imagem via

O português tem tentado por força impor o seu calçado, que é inegavelmente de qualidade tanto no fabrico como nos materiais (não é por acaso que várias marcas de renome mandam fazer aí os sapatos). Porém, (já o tenho dito) quando é desenhado em Portugal e não feito de acordo com as directrizes italianas, o calçado ainda fica, quase sempre, um pouco aquém em termos de conforto e daquele "quê" de sofisticação intemporal para competir, em pé de igualdade, com os Rossis ou (esqueçamos Itália por um instante) os Jimmy Choos e Manolos Blahniks deste mundo. 

 Certo é que designers como Louboutin ( que aliás, tem casa em Portugal) são mais conhecidos pela beleza do que pelo conforto das suas criações, mas ainda espero calçar um sapato português que me deixe mais leve e feliz do que usando uns Gucci. Tenho fé- as Josefinas já andam aí nos pés do mundo e mais virão com certeza.

 No entanto, quando falamos de marroquinaria (carteiras, bolsas e pequenos acessórios em cabedal) nem é preciso fazer esforço algum: basta dar uma volta pela Baixa de Lisboa ou melhor ainda, de Coimbra ou do Porto, e passear pelas velhas lojas para encontrar uma perfeição, um detalhe e uma engenharia de deixar num chinelo muitas carteiras Chloé, Burberry ou Prada. Não me entendam mal: tenho várias carteiras de griffe que adoro e a marca importa quando queremos um look ou peça em particular. No entanto, se a ideia é comprar só pela qualidade, beleza e durabilidade... estou certa que muitas das minhas clientes americanas, russas ou árabes perderiam a cabeça com um pulinho a Portugal. 

Vejo-as muitas vezes encantadas com certos pormenores (alças que se podem usar de maneiras diferentes, bolsos interiores, tons de couro variados, etc) que para nós são absolutamente banais. Só na minha colecção de carteiras vintage (já aqui falei de algumas) há amiude igual ou melhor. E cá fico eu numa indiferença portuguesa: na minha terra temos muito disto! Ou seja, o que "lá fora" é luxo, em Portugal é a qualidade standard. Não somos únicos nisto (se passearmos em Espanha ou Itália veremos lojinhas anónimas com peças lindas) mas apesar dos esforços de algumas marcas e designers nacionais, este é sem dúvida um ponto forte muito mal aproveitado. Se têm amigos estrangeiros e de bom gosto que queiram impressionar, comprem-lhes marroquinaria portuguesa!



Casacos de pele (s)





aqui comentei que as britânicas não se acanham de usar lindos e fofos casacos, boás, capas, estolas e chapéus de peles (tanto verdadeiras como falsas) - mas talvez a popularidade crescente tenha alguma coisa a ver com as milionárias russas e árabes que cada vez mais, fixam residência nos  bairros exclusivos no Oeste de Londres.


 Porém, posso dizer-vos que uma visita às encantadoras lojas de peles na Serra da Estrela não perde, em beleza nem qualidade, para as colecções felpudas do Harrods: o que aos olhos de muitas portuguesas pode parecer um pouco clássico, antiquado, extravagante, estilo "casaco da avozinha" é o máximo tanto para as Londrinas como para as turistas abastadas que cá vêm no firme propósito de comprar até cansar. Aliás, há tempos ofereci um lindo casaco de pêlo branco made in Portugal a uma amiga dos Emirados e ela delirou (era pele de coelho, já agora -  não compro peles de animais que não sirvam para alimentação salvo no caso de peças antigas, pois aí o mal já está feito). E um sobretudo de pêlo longo, vintage, a  3/4 que mandei vir de casa para usar quando casei, e que tenho luzido por aí desde então, faz as pessoas parar-me na rua para perguntar de onde veio. Temos óptimas casas especializadas que vendem peças lindas, volumosas e espampanantes a preços super atractivos, mas alguém ouve falar em portuguese fur coats? Olhem para Moscovo, para o Bahrain, o Kwait ou os Emirados e clientela não faltará, de certeza.


Jóias





A filigrana tem sido muito publicitada (e é linda) mas não é a única forma de "joalharia portuguesa". Uma visita aos nossos museus (ou uma "googladela" à soberba colecção da Senhora D. Maria Pia) basta para nos convencermos de que temos uma longa e magnífica tradição, e que os nossos criadores nada deviam aos Fabergés e Laliques deste mundo. E nem é preciso ir para peças muito exclusivas e dispendiosas: uma mera voltinha pelas velhas ourivesarias da Baixa é suficiente para nos encantarmos com as tradicionais peças cheias de arabescos em ouro ou prata com pedras coloridas, com os ricos cordões de ouro ou com os anéis, pulseiras ou alfinetes de prata envelhecida com marcassitas - que apesar de serem usadas pelas avós, têm um ar bastante "noir", understated e facilmente transportável para looks muito actuais.



Os nossos produtos de beleza vintage






Os charmosos sabonetes Ach Brito fizeram sucesso em Hollywood, mas ainda os vejo pouco nas lojas de luxo londrinas- e no entanto, nada perdem ao pé das Jo Malones e Molton Browns que por aí andam. E os meus queridos cremes Benamôr, de que estão à espera para ressuscitarem os seus produtos de maquilhagem antigos (e com embalagens giríssimas) para mostrarem às Benefits deste mundo com quantos paus se faz uma canoa e revelarem às fashionistas internacionais o melhor creme/primer do mundo, o verdadeiro photoshop em tubo? Consigo imaginar as clientes chinesas a encherem cestos e cestos para levarem para casa estas maravilhas.



Vinho, azeite, queijo, doces e mercearias finas







Do vinho já se sabe: o nosso é belíssimo  mas há muita competição e o mercado é difícil, etc. No entanto, atrevo-me a sugerir baseada no que vejo: pode ser complicado competir no segmento de luxo mas Portugal tem, em abundância, algo que falta noutros países. Ou seja, bom vinho a preços simpáticos. 


Encontrar vinho aceitável para o quotidiano a um preço convidativo é uma aventura em Londres (e suponho que noutros lugares suceda o mesmo). Então porque carga de diabos há-de ser o vinho australiano ou sul africano a preencher essa lacuna? 


O mesmo se passa com o azeite: cá em casa não se vive sem isso (acho que só a Sophia Loren usará mais azeite do que eu) e o meu marido só parou de resmungar que o azeite não prestava quando passei a comprá-lo da Sicília e da Apúlia. As marcas portuguesas exportam pouca variedade e as qualidades à venda não dizem, de todo, o fantástico azeite "de lavrador" que se faz na lusitânia. Também já me vieram perguntar pelos enlatados portugueses (aliás, o aeroporto de Lisboa tem uma loja LINDA de conservas, capaz de competir com a Fortnum& Mason).


 Depois, pensem nos ovos moles de Aveiro, no doce de abóbora da Beira Alta, no pudim de castanha da Serra da Lousã, nos pastéis de Tentúgal e nos docinhos de amêndoa algarvios. Já há lugares em Londres que servem pastéis de nata, mas o que faz falta é uma bela pastelaria portuguesa que tenha uma boa amostra das nossas receitas mais requintadas - e que venda as suas especialidades nas lojas de departamento e supermercados exclusivos, aeroportos, etc. Com embalagens old school encantadoras como as dos pasteis de Belém. Ia ser uma febre no Instagram. Uma cadeia italiana, a Carluccio, fez isso por cá e está por toda a parte. (A cadeia de restaurantes Nando´s, aqui no Reino Unido, tem um êxito tremendo com uma espécie de churrascaria portuguesa a que mistura o frango de churrasco e as migas a umas especialidades brasileiras e bebidas refill - um conceito semelhante podia ser adaptado a muitas mais coisas). E os queijos? Nem falemos nos queijos! Urge erguer, numa zona bem turística de Lisboa, uma monumental loja de queijos e enchidos da Serra da Estrela. E exportá-los (com embalagens de luxo mas todas pitorescas).



Tricots, capas, pantufas e bolsinhas da Serra da Estrela





Ainda eu não morava em Londres e já não largava as minhas Ugg por nada, mas uma das razões que me fizeram apaixonar-me por elas (na sua versão de sola maleável, pelo menos) é que me lembravam as pantufas da Serra da Estrela. 

Há lá coisa mais macia, mais gira e mais resistente? Aquelas coisas duram anos!  E as almofadas, mantas, capas e mantos em peles ou em lã? E as pequeninas carteiras de camurça a tiracolo com pêlo de várias cores, que eu adorava em pequena (agora fiquei com vontade de ir à Beira Alta de propósito comprar umas quantas)? E os porta chaves felpudos? Fazem ideia do quanto as compradoras da Hermès, Chanel ou Louis Vuitton, capazes de dar milhares por uma pequenina carteira com alça, ou centenas por uma borla em couro colorido, lhes iam achar graça? Quanto aos tricots de pastor, querem coisa mais intemporal? É um dos meus básicos de estilo- herdei um camisolão da mãe, branco com estrelinhas azuis, e marcou a minha adolescência. Usei-o até cair de velho e não descansei até arranjar mais. Intemporal, suave e bem quentinho. Imaginem-nos com umas moon boots Louis Vuitton ou Jimmy Choo para uma estada em Aspen. Chique a valer!


Lenços, xailes, tecidos bordados, capas e "ceiras" (cestas)



É verdade que já há duas marcas a vender os lindos biocos (capas encapuçadas) do Algarve e as amorosas "ceirinhas" (cestas) da minha infância com assinalável sucesso, até a nível internacional. Mas isso precisa de ser trazido, divulgado, mostrado às grandes casas. Por vezes uma marca só tem dificuldade em internacionalizar-se e é mais fácil ir pelos canais de distribuição multimarcas, como as grandes department stores. Ignoro se já puseram estas capas e cestinhas à venda no El Corte Inglès ou na Avenida da Liberdade (se não estão, deviam) ou se os seus criadores continuam a usar o próprio site como único ponto de venda.


No entanto, alguém já se terá lembrado de contactar os buyers do Barneys, Bloomingdales, Harrods, Selfridges, só para citar alguns, e convencê-los a testar esses produtos junto do público? Ou de fazer parcerias com os grandes influencers globais dos social media? Fazem ideia de como uma carteira específica, numa cor específica, desta ou daquela marca, esgota em poucos dias só porque uma qualquer instagirl do momento decidiu aparecer com ela? E quem diz biocos e cestas diz os lindos lenços bordados e xailes de seda com franjas, tão românticos,  os vestidos, corpetes, blusas e saias do Minho, etc.


Em suma, portugueses: parem de se esforçar tanto por inventar e passem a comunicar melhor para os "turistas de compras", que o mais difícil já está feito.

Wednesday, December 13, 2017

O mundo é uma grande passerelle (ideia de styling inesperada da semana).



Há dias vi uma passageira no aeroporto que me fez recordar uma frase de Victoria Beckham: "costumo inspirar-me nas pessoas que vejo na rua. Há sempre alguém que se lembra de usar coisas que nunca me passariam pela cabeça, mas que funcionam".

A rapariga usava um fato de treino de algodão cinzento (com a tendência do athleisure os fatos de treino, mesmo os de veludo Juicy Couture que toda a gente julgava terem ficado sepultados lá no início dos anos 2000, ressuscitaram para andar na rua e sobretudo, nos aeroportos, de há algum tempo a esta parte) ténis brancos minimalistas e, surpresa das surpresas, um casaco de peles clássico, estilo avó, bem fofo, nos mesmos tons, casualmente atirado por cima de tudo.

E não é que estava interessante?

 A mim nunca me ocorreria (e creio que nunca ocorrerá) andar de fato de treino na rua. Fato de treino verdadeiro, vá- nada contra as track pants inspiradas neles, mas roupa de ginásio em público acho um bocado too much.

 E embora faça trinta por uma linha com os meus casacos de peles vintage e costume vesti-los sobre roupa casual (sempre o fiz, mas em Londres isso é mesmo um hábito de todo o mundo) não me lembraria de o usar sobre alguma coisa TÃO CASUAL como um track suit.

No entanto, na passageira resultava. E esta? Lá fiz uma nota mental. Não vestiria a mesma coisa, tal e qual, mas não se me dá de tentar uma silhueta semelhante com peças um pouco menos óbvias (calças com o mesmo formato mas de outro tecido, por exemplo).

 Por mais que se esteja por dentro das revistas, portais, social media  e blogs de moda, por muito que acompanhemos as tendências e os desfiles e por mais próxima que uma pessoa, profissionalmente falando, esteja das novidades em primeira mão (contactando com stylists, designers, criativos, buyers e retalhistas) a forma como o consumidor final usa as peças tem sempre alguma coisa de pessoal e inovador.
Mesmo na era da globalização, em que basta uma carteira em veludo azul da Gucci viralizar no Instagram para esgotar nas lojas (verídico) cada pessoa tem as suas influências e referências, as suas fontes, os seus pontos de consumo e é condicionada por factores diferentes: geográficos, económicos, sociais, religiosos, físicos...

Ou seja, cada vez mais as peças e as griffes são transversais no que respeita ao perfil do consumidor, mas a forma como são interpretadas e utilizadas varia imenso: não é por acaso que  as marcas põem "caçadores de tendências" a observar o que se passa em termos sociais e o que as pessoas usam na rua para inspirar os seus produtos, em vez de simplesmente inventar coisas novas e rezar para que o público as adopte. A jogada inverteu-se e há que ter em conta um público alvo cada vez mais difícil de categorizar, que compra nos mesmos sítios mas emprega as peças à sua maneira.

Uma advogada de 40 anos do Porto e uma barmaid de 20 que mora em Barcelona podem gostar das mesmas calças pretas skinny da Zara e até vestir o mesmo tamanho,
porém vão provavelmente usá-las de forma diversa.

Uma estudante chinesa de 19 anos filha de funcionários do governo e uma empresária texana de 50  poderão comprar a mesma carteira Fendi, mas dificilmente a combinarão do mesmo modo.

Pela mesma ordem de ideias uma blogger portuguesa, uma condessa italiana e uma modelo nova iorquina poderão comprar tanto o mesmo saco a tiracolo Louis Vuitton como o mesmo vestido na ASOS: há uma maior homogeneização (e disseminação) nos artigos em si, mas também uma grande diversificação no que se faz com eles.

 Basta passar por Oxford Street para ver grupos de mulheres árabes a devassar a Primark com o mesmo entusiasmo com que, momentos antes, atacaram os balcões de luxo do Selfridges (invariavelmente acompanhadas de um marido, pai ou irmão cioso, mas dotado de uma pachorra quase inimaginável num homem ocidental). Provavelmente estas senhoras do Golfo compram muitas das mesmas coisas que fazem as delícias das clientes portuguesas ou inglesas - mas só é preciso olhar para elas e ver que o uso que lhes darão será adaptado ao seu look pessoal e estilo de vida.

Tudo isto faz com que andar numa grande cidade seja como assistir a um desfile cheio de pormenores - e rico em inspiração. Shakespeare disse que todo o mundo é um palco, mas quer-me parecer que também é uma grande passerelle. E quem andar de olhos abertos, facilmente tira ideias engraçadas para brincar com o que houver no closet. Desconfio que os meus casacos de peles andarão bem mais ocupados neste Inverno...


Monday, December 11, 2017

Raríssimas: mais tuga é impossível


Uma IPSS que cai em actos de corrupção e roubalheira para benefício de X ou Y não é, infelizmente, raridade nenhuma - muito menos um exclusivo lusitano (aqui no Reino Unido fala-se imenso em estórias desse jaez, até porque as organizações de caridade têm um protagonismo enorme). 

Porém, a vergonhaça da Raríssimas é emblemática, pitoresca mesmo, pela caricatura que traça do parvenu português, da cupidez aldeã, do pato bravo deslumbrado, papalvo e mesquinho, que mal dá um passinho em frente, não só abusa como ainda gosta de se exibir julgando que o tomam por pavão...

Os nossos irmãos brasileiros ( também eles martirizados por vilanias e comportamentos ridículos deste estilo)  têm um ditado rude que podemos aplicar lindamente ao arrivista português: quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.




A crer no que vem nas gazetas a senhora presidenta em causa, para além de desonesta, passou a si própria o pior atestado de pelintrice e pinderiquice que se pode, ao querer dar-se ares de grande dama. 

O caso é reles de alto a baixo (até os próprios gastos, como se não bastasse a crueldade de serem feitos à custa das contribuições para os pobres doentinhos, são pindéricos todos os dias: típicos de quem nunca viu meia dúzia de tostões à frente e só come camarão quando o rei faz anos. 200 euros em marisco no cartão da instituição? 200 euros num vestido...ai, o português e o seu amor às marcas de segmento médio...)? É que até para surripiar há que ter um nadinha de brio e ser um bocadinho menos unhas-de-fome. Roubar para poupar 400 euros num ordenado mais que suficiente para fazer face a tais gastos não é só gatunagem: é ser miserável. 



Não me entendam mal; não é que desviar fundos alguma vez seja desculpável, trate-se de uma mega operação à Sócrates ou de uma velhacaria em menor escala como esta. 

Só que aí é que está: há quem roube muito mais, mas pouca gente roubará com tanta deselegância.  Ser ladrão de casaca não é para qualquer um, está visto.

 Depois, é todo o quadro pantomineiro e barato da coisa: o marido e o filho envolvidos na "parada", já com ideias de criar uma dinastia e tudo (nem era folhetim português sem a cunha, essa instituição nacional. Português açambarcador que se preze tem de meter a família toda ao barulho a aproveitar o filão, assim tudo ao molho tipo cortiço, senão não tem piada).



 E de resto a "dótora", ponha-se a devida ênfase no dótora que repito, isto é um "causo" português, lá por ter roçado ombros com Doña Letizia de Espanha e com a  Primeira Dama um par de vezes, já se armava em Rainha do Sabá (ou será do Samoco?) já se achava com direito a fazer-se representar com a dignidade que a sua pessoa exigia (sim, porque todos sabemos que Santa Teresa de Calcutá, para levar a cabo as suas caridades, precisava de torrar o dinheiro dos leprosos no El Corte Inglès). 

Nada me diverte tanto como uma senhora que não sabe o que é uma Senhora verdadeira a tentar fazer-se passar por "Senhora que se dedica a causas". Tenho conhecido bastantes dessas Senhoras verdadeiras, do mais bem nascido e instruído que pode haver; e na sua maioria, pouco lhes bastava para freiras: caridosas até à extravagância, abnegadas como faquires, algumas eram capazes de não comprar uns sapatos decentes para si, para darem o que tinham e não tinham aos seus protegidos. Caridade e vaidade (vaidade extrema, pelo menos)  não costumam caminhar juntas. 

Porém a pérola, a cereja portuguesinha em cima do bolo, o melhor do melhorzinho, é mesmo o relato abaixo, ao melhor estilo "nunca sirvas quem serviu, nem peças a quem pediu" ou "se queres ver o vilão, põe-lhe o chicote na mão". Delicioso:

«Alguns ex-funcionários da Raríssimas dão ainda conta de um ambiente dentro da associação em que todos eram obrigados a demonstrar o seu respeito pela sua presidente. “Sempre que saía ou entrava para o seu gabinete, todos os elementos que estavam na recepção obrigatoriamente e independentemente das vezes que senhora presidente entrasse e saísse, tinham de se levantar das suas cadeiras à sua passagem"».

Nunca conheci uma beata manda chuva da paróquia, nem um Fidel Castro de bairro, que não adorasse o seu cultozinho da personalidade e não o exigisse aos seus subordinados...em cada arrivista há sempre um pouco de mitómano.

De mais a mais, sem conhecer os envolvidos mas armando-me em profiler do FBI, a julgar pelos retratos, os modos da senhora presidenta (grandes gestos, grandes sorrisos e gargalhadas) além de não serem lá muito senhoris não combinam, nem um bocadinho, com a seriedade que uma instituição deste género pede. Olhando para ela, ninguém diria que não estava a divertir-se à grande e à francesa. E não é que estaria?

Friday, December 8, 2017

Dica para bem viver: a táctica da "Música no Coração"



Há uns anos passei um período mais conturbado e (eu que costumo levar tudo com bom humor e nunca gosto de dar parte de fraca) sentia, verdadeiramente, os meus nervos esfrangalhados e os meus pobres neurónios à beira do chilique. Enfim, coisas que sucedem quando damos atenção a pessoas/situações malucas. 

Na altura tive de arranjar remédio... e isso incluiu inventar uns mecanismos de defesa, ou estratégias mentais, para lidar com aqueles momentos de ansiedade. Um deles pode parecer óbvio (e bastante tonto)  mas ajudou-me tanto que ainda hoje emprego essa técnica quando me sinto nervosa, negativa, receosa ou coisa que o valha.

Era assim: sempre que os meus pensamentos iam numa direcção desagradável, que qualquer memória involuntária me assaltava e me deixava maldisposta, eu tentava concentrar-me imediatamente numa das minhas coisas favoritas- tal e qual como a Maria do filme "Sound of Music".




O conteúdo da mentalização não era muito importante per se, desde que me ocorresse instantaneamente e fosse algo de concreto: uma imagem tão fofinha, divertida ou entusiasmante que conseguisse inverter automaticamente as vibrações negativas em crescendo. Podia ser uma recordação (geralmente, alguma daquelas peripécias de infância que nos fazem rir, mesmo sem querer, quando as contamos) algo do dia a dia (as gracinhas dos meus gatos, por exemplo) ou um objectivo (uns sapatos de designer que tencionava comprar, um vestido bonito que tinha de ir buscar à costureira, qualquer coisa).




Posso dizer que isto me salvou de me afogar em sentimentos deprimentes. Por isso, ganhei o hábito de ter alguns álbuns no Pinterest (e no meu telefone) cheios de imagens que me fazem feliz: seja de gatinhos, bebés giros,  corujinhas fofas, raposinhas com caudas felpudas e poneizinhos, seja de penteados e maquilhagens que tenciono experimentar ou de carteiras Chanel, vestidos Dolce & Gabbana ou viagens que estão na minha lista. 





Quando não tenho nada que fazer (ou se sinto que tenho algumas tarefas stressantes pela frente e que estou a entrar em modo "atrofiadinha" e "cara de tacho") detenho-me por uns momentos a olhar para essas figuras, só porque sim, e sinto o meu espírito a levantar-se de imediato, interrompendo o ciclo de aflição e desligando o complicómetro.

É como fazer um reset aos pensamentos, tendo uma tela neutra para nos organizarmos melhor.

Se andam à beira do colapso, experimentem, que funciona. Afinal, a Maria é que sabia.

Tuesday, December 5, 2017

Três anúncios que eu devia adorar (só que não).

Passar muito tempo todos os dias num shopfloor todo luxuoso não é só glamour: também tem os seus inconvenientes, e um deles é sofrer com anúncios à última colecção/jóia/perfume a passar em loop nas telas ad nauseam. Ora, se isso acaba por enjoar quando são spots de que se gosta, imaginem quando acontece com reclames que nos merecem embirração...é uma arrelia!

Vejamos então três que me andam a  tirar do sério: 


Chanel, Gabrielle





Entenda-se: eu adoro all things Chanel (bom, quase tudo), incluindo boa parte dos seus perfumes, e acho Karl Lagerfeld um génio. Depois, apesar de eu ser muito esquisita quando se trata de fragrâncias novas, Gabrielle é uma pura maravilha. Acho mesmo que se vai tornar um clássico.  Deixa-nos envoltas numa nuvem deliciosamente aromática e luxuosa- sabem quando um aroma dura o dia todo e tem o efeito "mas o que cheira tão bem? Oh! Sou eu!"- um dom raro numa época de perfumes produzidos a martelo sem grande inspiração, ou cada vez mais "baptizados". É um perfume verdadeiramente fabuloso, juro. 
 Porém, confesso que tive preguiça de o experimentar graças ao anúncio. 




Não tanto por eu embirrar com a menina enjoadinha de serviço, Kristen Stewart (que até está bastante bem em alguns dos ads de maquilhagem da marca, honra lhe seja feita) mas porque o conceito é mostrá-la endurecida, arrapazada, trapalhona, agressiva, desalinhada, meio tontinha e cheia de chiliques (estará triggered, meu floquinho de neve?), sem o mínimo de feminilidade nem graciosidade. 

Salva-se a luz, a fotografia e a imagem parte Grécia antiga (uma das inspirações na mais recente colecção Cruise da marca) parte anos 1920. Ok, eu entendo que o look, silhueta e atitude "à la garçonne" fazem parte do imaginário central da Chanel, mas não é preciso levar a ideia à caricatura. Mademoiselle Chanel era avant garde,  sim senhor, e moderna e fumava em boquilha e usava calças, mas procurava sempre a beleza, a harmonia estética.  Then again, com todas as ideias feministas e de abolição de "estereótipos de género" que estiveram na moda em 2017, este é capaz de ser, simplesmente, um anúncio do seu tempo. Se isso apela ao público-alvo que compra Chanel, já é outra história. Ainda bem que o produto fala por si...


Jo Malone, Crazy Colourful




Gosto muito desta popular marca de perfumes (recomendo o de flor de laranjeira e o de rosa encarnada, ambos uma maravilha) e costumo achar muita graça tanto ao seu conceito minimalista, quase de botica, como ao facto de ser uma marca very british. Jo Malone  honra o seu DNA inglês e faz um sucesso estrondoso com os consumidores orientais, especialmente chineses (que a compram quase por atacado, se lhes derem asas). Isso pode explicar a imagem meio excentricidade asiática, meio Mod Londrino dos anos 1960 do seu anúncio de Natal (que de natalício só tem mesmo os Christmas crackers- aqueles pacotinhos dourados com surpresas e confetti.




 Mas também não era preciso ir tão longe! Entre os gestos esquisitos e meio infantis dos protagonistas, de quem tomou uns pirolitos valentes ou não joga com o baralho todo, mais a maquilhagem, as caretas, a coreografia peculiar/ enervante (aquele gesto circular com os braços faz-me choques nos neurónios) e a música psicadélica, não sei se acho o anúncio apenas muito curioso ou verdadeiramente perturbador. 

Parece ter sido inventado por alguém que só aguenta as reuniões familiares de Natal com uma valente dose de copos e cigarros que fazem rir e criou isto só para desconstruir a quadra. Depois, o rapazinho, com aquele cabelinho de boneco e aquelas sobrancelhas, lembra-me não sei que persona non grata e só me apetece dar-lhe um safanão. Aliás, tenho vontade de entrar por ali dentro, desatar aos pontapés às caixas e correr tudo à bofetada, a ver se se comportam como gente. Tarados. Ufa, que me soube bem tirar esta do sistema.


Dolce & Gabbana - The One


É paradoxal eu não gostar destes spots, porque como sabem Dolce & Gabbana é provavelmente a minha griffe preferida. Ainda por cima, a-do-ro quando voltam às raízes inspirando-se na cultura do Sul da Itália e nos anos 1950, com todo um imaginário que fala aos meus genes e aos meus gostos, por muito estereotipado que seja. 

Desta feita, a marca decidiu continuar a apostar no universo pitoresco a que nos tem habituado, pondo os protagonistas da campanha a interagir com os populares numa festa folclórica de Nápoles ao som de Tu vuo' fa' l'americano, com muita cor, muita pasta e muito gesto de mãos. E decidiu juntar a isso um bocadinho de mediatismo imediato, passe a onomatopeia, convidando para "caras" do perfume The One duas das maiores estrelas de Game of Thrones, série que parece ter o condão de agradar a gregos e troianos.

 Até aí, nada contra. E diga-se em abono da verdade que a versão fotográfica da campanha resultou - quase toda ela - lindamente. O pior é que em vídeo, a ideia tinha tudo para funcionar...mas por alguma razão que me escapa, não funciona




 Primeiro, Emilia Clarke: a menina é encantadora e muito simpática, mas escusavam de lhe disfarçar a beleza com uma peruca acachapada (fui investigar, é mesmo uma peruca) e  uma maquilhagem que lhe dá cara de quem dormiu pesada sesta (estranhíssimo, já que a D&G costuma ser infalível quando o assunto é maquilhagem). 




Mas o que constrange no spot nem é isso: é que, tanto na versão masculina como na feminina, o John Snow e a Daenerys parecem totalmente forçados, acanhaditos e pouco à vontade, o que a modelos ainda se desculpava mas é esquisitíssimo em quem faz de representar o seu ganha-pão. Até fui googlar para perceber se era só impressão minha ou se mais gente achava o mesmo, mas parece que basta dar uma volta pelo Youtube para perceber não sou a única a ter tal opinião. Será má direcção de actores? Ou a premissa da coisa é fingir que as personagens de Game of Thrones saltaram directamente do universo da série para Nápoles e se sentem completamente taralhocas  no meio daquela festa toda? Em todo o caso, o resultado soa amador, algo que não se espera da dupla D& G- culpa sua, porque nos habituou à perfeição.  Vergognazza.




Thursday, November 30, 2017

Força, Athina Onassis: a paciência tem limites.



Há dias fiquei contente pela mega-milionária Athina Onassis, que finalmente acordou para a vida, chamou a si a esperteza/ mau feitiozinho do seu avô Aristóteles e correu com o marido alpinista social e traidor.

 A menina, que ao que dizem tem tanto de simples e "boa serás" como de rica, pagou bem caro a ingenuidade juvenil de se ter envolvido com o seu treinador de equitação: um homem comprometido, muito mais velho, superficial, ambicioso e já com uma filha de um anterior relacionamento. Disparates de uma rapariga de 18 anos: Doda Miranda, o seu marido brasileiro, terá arranjado uma ou mais amantes assim que se apanhou de papel passado e sentado nos milhões.

Honra lhe seja feita, o rapaz não foi uma completa má influência. 
Apesar do seu perfil de Casanova das cavalariças e de ser ganancioso todos os dias (na altura em que deixou a mãe da sua filha por Athina, a ex foi categórica em afirmar que era tudo por dinheiro e que Doda dissera várias vezes que a sua aluna era "feia" e "gorda como um elefante"), depois de casar, incentivou-a a ter orgulho na sua ascendência grega e a bater o pé ao pai, que tentava pôr e dispor de tudo contra a vontade dos conselheiros da Fundação Onassis...




A história é longa e rocambolesca (pelo meio a ex namorada de Doda e mãe da sua filha suicidou-se, acrescentando mais uma página à "maldição" Onassis e deixando à rival, por herança, a educação da enteada e de outro filho de um anterior relacionamento- uma confusão).

De todo o modo, a herdeira demonstra ter amadurecido e revela uma sagacidade, auto estima e presença de espírito que sempre faltaram à sua destrambelhada e pobre (apesar de riquíssima) mãe, Christina.

 E deixem-me dizer-vos que isso me parece um verdadeiro milagre. Aliás,  com os antecedentes que tem seria um milagre a rapariga ter ficado minimamente sã e escorreita das ideias, quanto mais.

Athina é da minha idade, mais coisa menos coisa; lembro-me de ver nas revistas do social das minhas tias as idas e vindas dos seus pais e de ter imensa pena da pobrezita. Ser criada pela amante do pai depois de o divórcio dos progenitores ter contribuído para a mãe se finar antes do tempo devia ser dose - fazia-me uma impressão tremenda!


Os pais de Athina: o playboy Thierry Roussel e a herdeira Christina Onassis

Porém, Athina terá boa natureza e uma cabeça muito assente nos ombros: parece que superou isso tudo e que está feita uma rapariga elegante e esperta como a raposa do seu avozinho: antes de pedir o divórcio, reuniu pacientemente todas as provas da traição do respectivo. E antes disso já tinha passado as palhetas ao papá ganancioso, recuperando o controlo da sua fortuna.


 Não brinquem com Athina, que ela é cá das minhas: caladinha e discreta, mas ainda a procissão vai no Adro, já ela topou todas as maroscas e tem um plano em andamento. Respect.

 Com os anos e algumas intervenções estéticas (apesar de ser mais dada a cavalos do que a vaidades) ficou até bonita:  herdou os grandes olhos da mãe, mas a compleição mais clara, a estrutura mais elegante e os traços finos do pai e da avó materna (que era uma grande beldade). Bom para ela. Espero que agora abra a pestana e faça um casamento decente.


A mãe e a avó de Athina Onassis: Christina Onassis e Athina Livanos


Palavra que não percebo estas herdeiras: com uma fortuna tão descomunal, ligações privilegiadas e uma figura aceitável, Athina Onassis podia encontrar marido numa Casa aristocrática ou real, ou entre famílias respeitáveis da alta burguesia ou sei lá, se estivesse virada para algo mais criativo, com alguma estrela de Hollywood ou do desporto. 

Mas não- estas meninas ingénuas ouvem toda a vida "tenha cuidado, que há muito mariola que só a vai querer pelo seu dinheiro" e em vez de procurarem o amor em quem já tem dinheiro de sobra, embeiçam-se pelo primeiro pelintra que aparece ( que por cálculo de probabilidades, é muito mais certo que esteja interessado no vil metal, não?).





É de esperar que a menina Onassis tenha aprendido com este tropeço e não siga o exemplo da mãe, que vivia num constante casa-separa com caçadores de fortunas. Tenho para mim que não será o caso: Athina é, para começo de conversa, mais bem parecida, menos vulgar, mais delicada... e mal ou bem, teve uma infância minimamente estável.

 A sua mãe, Christina Onassis, foi um verdadeiro case study sobre TUDO aquilo que uma mulher NÃO deve fazer com a sua vida. Pensei em incluir a história dela aqui, mas depois achei que Christina vai dar outro post, em tópicos




Multimilionária, estragada com mimos e carente de afecto, Christina teve o azar de não ser uma beleza (mas podia ter-se tornado numa mulher com bastante encanto e cheia de estilo, se tivesse cabecinha e ouvisse os conselhos da madrasta, Jackie Kennedy) e de a família, além de não a tratar da melhor maneira, ter morrido toda de repente, no momento em que ela mais precisava de apoio. 



Nunca soube lidar com os homens, mas não sabia estar sozinha. Era um verdadeiro retrato-robot da mulher desesperada. Esmagada entre as tragédias que não estava na sua mão evitar e as que podia ter evitado, acabou por morrer tristemente aos 37 anos, quando começava a encontrar alguma alegria e sentido para a vida nos negócios e na educação da filha.

Athina Onassis é filha da sua mãe mas (sorte sua) aparenta ser muito mais neta do seu avô. Estimo sinceramente que venha a encontrar a felicidade porque, ao que se sabe dela, é de facto boa pessoa. Até ver, já demonstrou um valentíssimo assomo de esperteza e dignidade feminina, e isso não há dinheiro que pague. Ou não tivesse ela o nome de Atena, a deusa da Sabedoria e da Guerra que - só por acaso - era solteira. Antes só que mal acompanhada, e só quem sabe estar bem só pode andar bem acompanhada no futuro.

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