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Sunday, February 22, 2009

Ah, grande Beatriz Costa!


Isto de meter o nariz em tudo o que venda livros antigos tem destas boas surpresas. Veio-me parar às mãos o segundo livro desse ícone que é Beatriz Costa, " Quando os Vascos eram Santanas". Uma verdadeira delícia, que me arrancou saudáveis gargalhadas todo o fim de semana.
Uma mulher independente, vivaça, fascinante, que correu o mundo de lés a lés e conviveu de perto com monstros sagrados como Jorge Amado. E que tal como eu, nunca teve "papas na língua". Adorei!Se as minhas amigas conseguirem deitar as mãozinhas manicuradas a uma cópia, recomendo vivamente.
Já vai sendo tempo de colocarmos no devido pedestal as nossas verdadeiras estrelas, essas que tinham classe, talento e glamour: Beatriz Costa, a linda e engraçada Laura Alves, Simone de Oliveira e tantas outras. Para quando um passeio da fama? E honorários a condizer?
Só neste país é que se idolatram jogadores de futebol acéfalos e respectivas dondocas, cantores de karaoke que nem com as Novas Oportunidades se safam, concorrentes de reality shows e toda essa tropa fandanga.
E não me venham cá chamar saudosista, afinal quando a Laura passeava o belo sorriso pelos palcos eu ainda estava longe de ser chamada pela cegonha; falo dos talentos, mais velhos ou mais novos, que são deitados à sarjeta neste sítio, porque não fazem o choradinho " ai que sou pobrezinha e o paizinho enchia-me de sovas" (só se perderam as que cairam no chão, está visto)
porque têm a dignidade de não dar brado na imprensa, porque tiveram honra e vergonha na cara e um bocadinho de pouca sorte. Quando alguns dos mais dotados artistas deste país baterem as botas é que vai ser o vê se te avias: é biografias a esgotar edições, é ruas com o nome do infeliz, estátuas, capas de tabloides a relatar os últimos suspiros e a indignação dos colegas pela fraca afluência às exéquias. Viu-se o que foi com Badaró, que tantas alegrias me deu em pequena e oferecia livros às crianças; e veja-se, agora que João Aguardela passou aos campos elíseos, o que se falou dele na imprensa. As rádios tiveram a lata de passar vezes sem conta " Vida de Marinheiro" em vez de dar a conhecer - mais vale tarde que nunca - os seus outros trabalhos. Porque agora, coitadinho, já era motivo de choradinho e digno de pena, logo uma mina.
Quem está vivo, orgulhoso e de saúde, por cá, é alvo de inveja e não de admiração. Lá dizia Oscar Wilde e muito bem: é fácil apoiar quem está em baixo; difícil é solidarizar-se com o êxito de um amigo.
Mas a culpa é da genética. O miserabilismo, o coitadinho, o pobrezinho, o drama, sempre venderam em Portugal. No tempo da minha avó ainda existiam uns descendentes de jograis, que faziam as vezes do jornal " O Crime" e andavam de terra em terra a cantar as últimas desgraças. Em verso. Era o jogador viciado que acabava por apostar a mulher e os filhos e depois, arrependido, os assassinava à facada; o soldado que voltava da guerra e encontrava a mãezinha enterrada, tratando logo de profanar o túmulo num arroubo de amor filial; a menina desonrada por um malandro que acabava num bordel....um ultra romantismo mórbido, doentio, de meter nojo. Como diria a Beatriz, p*** que os pariu!
Que não se esfregue a felicidade na cara de outros menos felizes, entendo-o como um sinal de boa educação. Mas há limites para tudo. Pela minha parte, podem esperar sentados. Se alguma vez me virem por aí a expelir detalhes sórdidos, metam-me num manicómio. É um favor que me fazem.


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