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Tuesday, April 5, 2011

Eu embirro com...piropos

foto de Ruth Orkin, 1954 (blog Instante Fatal)

Não morro de amores pelo piropo, essa instituição nacional. Ainda há instantes, passa por trás de mim um grupo de trolhas numa camioneta e faz uma travagem brusca (quase saltei fora da pele com o barulho!) só para grunhir "boooa!". Há piropos criativos, educados, que não nos fazem corar nem pensar " será que deixei parte da roupa em casa?" mas esses, os bons, são raros. Principalmente em Portugal, onde a arte de galantear foi substituída pelo atrevimento, grosseria e habilidade de despir com os olhos, quando não é "ver com as mãos" como os espanhóis. Li algures que já existe um enquadramento legal que pune actos incomodativos, como olhar fixamente para o decote de uma senhora. É um bom começo, mas como é que uma mulher prova isso? "Ó senhor guarda, ó senhor guarda faz favor...aquele cavalheiro estava a mirar-me indecentemente"? Tenho para mim que o atrevido diz que não, a senhora diz que sim e não saem disto. Para piropos de qualidade, ide visitar os meus primos italianos e irlandeses, esses sim, grandes massajadores do ego. Uma mulher bonita ou vistosa em Itália recebe sorrisos, piscadelas de olho, "ciao bella" e "que lindos olhos", volta para casa vaidosa e contente. Pela minha experiência, os holandeses também são perfeitos cavalheiros. Sorriem, dizem olá, entabulam conversa, de uma maneira tão delicada que dá gosto. O mesmo para croatas e franceses (oh lala, os franceses). Os homens portugueses precisam de reaprender a arte do piropo - mesmo quando dirigem um cumprimento às suas conhecidas. Online ou via SMS, então, há coisas de meter medo. Do género: um amigo de uma amiga que nos viu uma vez e atira logo " sempre foste bonita" ou " então linda? cada vez mais bonita" (Jesus!)assim do nada. Um elogio perde a piada quando cheira a engate barato. O pior do pior são os caramelos que mal nos conhecem e que assim que (por razões profissionais ou semelhantes) apanham o nosso contacto nos atiram com um " és tão sensual" à mínima oportunidade. Fico verde, amarela, roxa.
 Ditos melífluos e manhosos são piores que o velho " és muita boa!".
Quando um senhor mais velho, seja de família ou pessoa amiga, um amigo chegado, um namorado (ou candidato a) diz " estás um espanto" "estás linda" ou coisa assim, é uma alegria. Não me importo que me gritem "olá boneca" ou "Alá é grande" na rua. Isso tem graça.  Insultos não. A modéstia convida ao cavalheirismo. Mas pelo andar da carruagem temos de vestir burka para não nos faltarem ao respeito. Ou isso ou fazer como uma menina que vi uma vez, a espancar furiosamente um homem rua abaixo com um guarda chuva e a gritar " seu porco, repita lá isso".

2 comments:

José Francisco said...

"Não se pode ser bom em tudo. "
Seria no mínimo, uma desilusão.
Seres boa a tudo, quero dizer.
Uma mulher assim, perfeita, seria, paradoxalmente, imperfeita.
O sonho precisa ser tangível, e as ´pequenas imperfeições', inabilidades, se quiseres, permitir-te-iam ouvir piropos de um candidato a namorado, como o que pedi emprestado ao Shane MacGowan, para atirar ( atiram-se piropos como de flores se tratasse, não?) à desejada: 'You are the measure of my dream! que soa muito bem em Português! não?
;)

José Francisco said...

"Não se pode ser bom em tudo. "
Seria no mínimo, uma desilusão.
Seres boa a tudo, quero dizer.
Uma mulher assim, perfeita, seria, paradoxalmente, imperfeita.
O sonho precisa ser tangível, e as ´pequenas imperfeições', inabilidades, se quiseres, permitir-te-iam ouvir piropos de um candidato a namorado, como o que pedi emprestado ao Shane MacGowan, para atirar ( atiram-se piropos como de flores se tratassem, não?) à desejada: 'You are the measure of my dream!' que soa muito bem em Português! não?
;)

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