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Tuesday, January 4, 2011

Modernices que não têm piada nenhuma

O arrivismo, novo riquismo e seus derivados, tão presentes na "pequena burguesia emergente" do nosso país, chateiam-me a valer. Em particular, enfadam-me alguns casais jovens, doutores de primeira geração, que querem parecer muito bem, muito sofisticados. É vê-los na primeira oportunidade a estalar o verniz e a revelar que lhes faltou muito chá em pequeninos. Como diria a Mammy de E tudo o Vento Levou, não passam de mulas com arreios de cavalo. Melhor fariam se a par com a "enstrução" que os seus paizinhos, muitos deles gente humilde mas honrada, se mataram para lhes dar, tivessem adquirido um par de livritos e mantido a fidelidade às raízes que não envergonham ninguém. A mim não me enganam nem um bocadinho - tenho um pouco de tudo nos meus quatro costados, e se há coisa que farejo a quilómetros (por força do berço, da experiência e de observar os bons e maus exemplos) é um cavalheiro ou uma senhora. Coisa rara nos tempos que correm, de parvenus, modernice e "liberdade a martelo"!
Logo que apanham um emprego minimamente estável, vai de casar. Não importa muito com quem - a não ser em casos de conveniência, o que conta é ficar arrumado cedinho. Tenho sempre a ideia que nestes casais a paixão, a empatia e a comunhão de almas não conta para grande coisa. O colega de faculdade com quem se costumava dar umas voltas, ou o namoro de toda a vida lá da terra (com inúmeros rompimentos e chifres pelo meio) e está o arranjinho feito. De seguida, com o beneplácito dos pais, vai de fazer dívidas para comprar um apartamento, nem que seja na aldeia ou numa zona industrial. Meus caros, um apartamento na aldeia é o quadro da dor com a moldura da desgraça, é fazer foi gras de sardinhas. Simplesmente não dá. No campo o que se quer é uma casinha, que até pode ser simples, honesta, bonitinha, com couves deprimentes (nas traseiras, pelos santinhos!) mas saborosas, e ar puro a rodos. Os que têm pais abonados pelam-se para construir casas de "arquitectura moderna" (leia-se, sem telhado) nas antigas hortas da família, versões actualizadas dos horrores de azulejos que poluiram as nossas paisagens. Com vários plasmas lá dentro e móveis "minimalistas", tirados a papel químico de qualquer catálogo da moda. Se estes pormenores não forem suficientes, a arquita que veio com o enxoval da casa da mãe, os panos de cozinha e os azulejos de mau gosto, com flores e panelinhas, costumam denunciar a dona da casa.
Um acessório indispensável desta  bourgeoisie suburbana é o cartão de crédito. Esmifradinho, apertadinho, mas tem de existir (em número triplo, pelo menos)  para pagar "malas" de marca e trapinhos da Ana Sousa, da Desigual, da Salsa e da Gant com logos bem vistosos. E que seria destes pombinhos sem o turismo a crédito? As viagens são a delícia, o supra sumo, a coroa da glória. Ninguém é ninguém no seu círculo de casalinhos chatos sem ter "feito Tailândia".
A pretensão, um vocabulário escolhido para afectar uma certa mundanidade ( mas que trai pelo acento, pelo "vistes" "prontos" "o comer" "deve de ser" e outras pérolas aqui e ali) e uma certa forma de olhar de lado ou de cima, de comentar preços, são outros indicadores fáceis. Desenganem-se os leitores se pensam que o maior objecto de desejo destas pestes é o carro (leasing!). Ná. Como boas pessoas do campo, querem descendência, e para ontem, pirralhos para mandar para um colégio (subsidiado pelo estado) e vestir com nada menos que as melhores marcas, estragar com brinquedos e atabafar com inúmeras actividades extra curriculares. As avós aplaudem e fazem coro. Ter filhos cedo é a obsessão destas meninas e meninos, e o resultado é que muitos se queixam de supostos problemas de infertilidade quando estão na flor dos anos e sem qualquer problema de saúde...complexos. Aqui há tempos, ouvi no shopping a seguinte conversa, mantida por dois exemplares desta espécie: "só estão casados
 há um ano e ela quer tanto ter filhos que o massacra dia e noite com isso; é uma obsessão, não se cala, só chora e dá cabo da paciência ao pobre rapaz". Olhem que clima para fabricar crianças, não restem dúvidas! Como se antigamente houvesse tantos jovens casais com dificuldade em encomendar bebés...era só pensar em tudo menos nisso, que eles tratavam de aparecer. A fixação é de tal ordem que já vemos " clínicas de fertilidade" (com isto escrito em letras gordas, cor de rosa fashion, na entrada) a abrir que nem cogumelos. Como se uma senhora que se preze entrasse num sítio desses à vista de toda a gente, para o mundo ficar a saber que não é exactamente uma boa parideira...
Quando finalmente nasce a tão desejada cria ( tratada carinhosamente pela família por "o menino" ou " a menina", mas com nomes que de súbito ficaram na moda, do tipo Salvador, Constança ou Martim, mesmo que nunca houvesse nenhum Salvador, Constança ou Martim de sua graça na família) geralmente a criança sai pepineira. Pepineiro, no dizer do sábio povo, é uma cria nascida fora de tempo ou mal acabada. Um ser meio apoucado, nem sempre muito giro, a modos que
(contra)feito com pouca vontade. Sempre tive a impressão que as crianças encomendadas com amor ( e algum senso comum) saem mais bonitas, e a sabedoria popular, que nunca se engana, confirma-o. A educação - babosa e piegas no que toca aos avós, peneirenta e postiça da parte dos pais - encarregar-se-á de polir estes pobres rebentos, para aflição das gerações futuras.

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