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Tuesday, March 8, 2011

Dia da Mulher...ou não?

Caterina Sforza
Todos os anos é lançada a mesma discussão. Faz sentido celebrar o Dia da Mulher? O facto de tal data constar do calendário não será, em si mesmo, passar-nos um atestado de inferioridade? Todos os anos recebo mensagens lamechas a lembrar o dia. Todos os anos somos atacados por publicidade, cartazes, presentes, flores, propostas de jantares ao estilo Sex and the City com strip tease incluido.
Eu não sou feminista, sou toda pela igualdade de direitos e orgulho na nossa diferença, logo, o Dia da Mulher não me ofende nada. É uma comemoração que se justifica enquanto a violência de género, o assédio sexual e a desigualdade profissional existirem por esse mundo fora. Até essas questões estarem resolvidas para sempre, conformem-se, minhas senhoras: somos uma espécie de minoria. Não esqueçamos também que o dia de hoje assinala as mulheres assassinadas para que hoje tivéssemos direito ao voto e que abriram o caminho para a liberdade de que gozamos actualmente.
Mas creio que acima de tudo, o Dia da Mulher é um momento de reflexão. Quando vejo os tais jantares com strippers e mulheres aos gritos, penso se essas senhoras não andarão mal enganadas - e não estarão a dar razão aos machistas de serviço, que dizem "é nisto que dá a igualdade". Sempre que assisto a certos comportamentos, que vejo as jovens correrem atrás dos rapazes, comportando-se sem dignidade, fazendo um esforço dos diabos para agradar (tanto esforço, afinal, como as suas avós faziam na sala e na cozinha, só que de mini saia, saltos altos e preservativos com sabores na carteira)coro de vergonha por elas - e pergunto-me se a mensagem da igualdade terá sido bem interpretada. Por vezes, interrogo-me se as acérrimas defensoras do feminismo, paladinas do sexo casual, da autoridade igualzinha à deles, não perpetuarão o mito da virago histérica, alvo de troça e secretamente infeliz, fazendo figas junto ao telefone para que "ele" ligue depois de uma noite memorável. Até Caterina Sfrorza, virago crudelíssima, não resistiu a Cesar Borgia - e tirada a armadura, sabia ser tão doce e voluptuosa como Lucrécia. Ardilosa. Inteligente. Eva não gritou " come essa maçã, raios!" . Sussurrou " prova esta maçã, querido". Percebem a ideia. Acredito que em 1960  fosse preciso queimar soutiens para chamar a atenção (embora imagine que fosse uma forma muito desconfortável e nada ergonómica de protestar). Hoje cabe-nos manter os direitos adquiridos, recuperando os atributos da feminilidade - persuasão, doçura, subtileza, intuição, sedução, encanto - que fazem de nós mulheres. Deixando que os homens cumpram o seu papel de conquistadores, protectores, guerreiros e se eles quiserem acreditar, porque não? De chefes. O nosso poder está em influenciar - de batôn e espada escondida, just in case. Uma mulher inteligente não precisa de governar nada, porque tem o mundo a seus pés. Sempre teve. As feministas que me perdoem. E as Samantha Jones deste mundo também, mas recuso-me a ver um show de strip tease. Afinal, os homens não sabem despir-se - essa ainda é uma arte feminina.

Sunday, March 6, 2011

...E o povo já tem cantiga!


Contra os meninos bem comportados e os velhos do Restelo, os Homens da Luta vão representar-nos na Eurovisão. A reboque das "manifs" convocadas pelo jovem povo recém acordado, é verdade, mas a permitir uma lufada de ar fresco num país que se leva - e sempre levou - demasiado a sério. Mesmo quando o resto da Europa já tinha percebido há séculos a fantochada que o festival é, nós, os bons alunos da UE, os meninos totós que são o bombo da festa do resto da turma, insistimos em participar com canções " p´ra festival" - ora escritas por grandes e mofentos autores, ora a testar receitas apimbalhadas a ver se tínhamos sorte, se o júri percebia que éramos dos poucos a respeitar tão gloriosa instituição e nos dava um votozinho misericordioso. Enquanto a maior parte dos concorrentes se entretinha a  cantar que muito bem lhe dava na gana, ou a gozar pura e simplesmente com a coisa ( em 2008, a Irlanda enviou um peru cantor a troçar abertamente do concurso) os meninos portugueses, sempre com medo do ridículo e das reguadas da europa, teimaram em enviar canções fofinhas, estrondosas e melosas, a lembrar " por amor de Deus olhem para nós, o país do Fado".
A vitória dos Homens da Luta (que berraram, e muito bem, que não há só Fado neste sítio) incomodou muito boa gente: os da esquerdite aguda e endémica chateiam-se porque isto ofende os "verdadeiros homens da luta", como Zeca Afonso - que à sua custa, estão a transformar-se em monos históricos, unilaterais e tão bolorentos como diziam que o regime era. Os defensores do Festival à moda da outra senhora melindram-se porque a canção é uma palhaçada, num festival solene onde fomos representados por tão grandes cantores, ignorando que (sem ofensa para os excelentes intérpretes de outro tempo) isso nunca nos levou a lado nenhum. Nem mesmo quando o festival era em grande.

Além de apresentarem uma canção tecnicamente razoável, a soar a Folk intervencionista, os Homens da Luta têm a virtude de satirizar tudo: o estado do festival, o estado do País, o estado da Europa e uma nação que põe o 25 de Abril num relicário mas nunca deu qualquer utilidade à "preciosa" e "inquestionável" revolução. As ideias em Portugal são tão datadas e ridículas como as fatiotas dos Homens da Luta. Folgo em ver que finalmente somos capazes de ter ironia e espírito crítico, e que não receamos minimamente mostrá-lo "lá fora". Provavelmente ficaremos mal classificados. Mas finalmente, estamo-nos nas tintas, e isso diz tudo.

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