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Thursday, March 17, 2011

Blhac!


(Uma cantiga de maldizer ao som de " My Favourite Things")

Natas no leite,

Gente descarada

Pratos de lampreia

Malta malcriada

São daquelas coisas que eu não gosto nada!

As claras do ovo

Mulheres aos gritos

Com vozes estridentes a soar como apitos

E hábitos do povo

Tão malcriadão

Que manda piropos e cospe no chão

São coisas sem graça

Coisas desgraçadas

São daquelas coisas que eu não gosto nada!

Gente que maltrata os cães e os gatos

E que tem mau gosto a escolher sapatos

Fibras sintéticas, tecidos baratos

Fêmeas serigaitas e homens adoidados

Novos ricos com gel e relógios dourados

Tropa interesseira, boçal e vulgar

Cantigas brejeiras, torresmos a fritar

Burros que ao falar dão cabo da gramática

O reles, a torpeza e a matemática

E a boçalidade em todo o seu esplendor

São todas coisas as coisas que eu não gosto nada

São coisas infelizes que ganham bolor

Sem as quais estaríamos muito melhor!



Mas as crianças, Senhor?

Pipoca mais Doce dixit "Ainda está para nascer um pai com capacidade de discernimento que diga "a minha filha saiu-me cá um trambolho".
Esse não é um dos meus medos. Parece-me que não haverá instinto maternal que me prive da lucidez. O meu receio é outro, e atinge-me de  cada vez que os bem intencionados do costume vêm falar-me nas maravilhas de pôr filhos no mundo. Ok, uma pessoa encomenda um piqueno, carrega-o nove meses sabe Deus como, é uma canseira para ele ver a luz do dia e uma trabalheira maior ainda para tomar conta do rebento.  E depois? Uma criança, sangue do nosso sangue, desenhada com amor (senão é fracasso na certa - crença minha) um ser precioso...é um perfeito estranho, que não conhecemos de lado nenhum.
 A minha dúvida é se essa coisa famigerada e com reputação infalível, o instinto maternal, será seguro contra todos os riscos, ou se há simpatias humanas, não louváveis mas compreensíveis que nos levem a achar piada -ou não - a um filho.
 Dúvida cruel: e se depois de tanto esforço eu não gostar deles? Mesmo que os ame porque não tenho outro remédio, pode dar-se o desastre de não os admirar lá muito. Sei lá, podem sair-me uns camafeus. Modéstia à parte, fui uma criança fofinha, daquelas que recebem festas na cabeça a torto e a direito quando passam na rua, e o meu irmão era mais giro ainda, um anjo. Andar de cavalo para burro era uma maçada, até porque comprar roupinhas e botinhas amorosas para uma carantonha sem graça estraga a festa a qualquer um - com a agravante de a responsabilidade ser 50% minha. E as aparências (relativas, afinal) não são tudo. Podem ter uma personalidade intolerável, parecerem-se com os colegas mais irritantes que tive na primária. Ou cultivar vícios: passar o dia pasmados a fazer palavras cruzadas ou qualquer hobbie chato, pequeno burguês e pouco criativo; podem sair-me piegas e choramingas, estilo Eusebiozinho, independentemente da educação que lhes der. E ter uma filha galdéria, imune a todos os ensinamentos das nossas antepassadas, que me faça passar vergonhas? Ou pior ainda, uma marmanja que faça questão de comer como um lobo, usar cabelo à porco espinho e calças com as banhas de fora só para me amargar a existência? Acho que não aguentava isso. O Diabo seja cego, surdo e mudo, mas ninguém está livre, nem programando a criaturinha por computador. Conheço pais bem parecidos, educados, uns amores, com filhos que mais pareciam nascidos de um ovo à beira da estrada. Como é que uma mãe, mesmo a melhor do mundo, lida com tal roleta russa?
 Claro que há pais com filhos feios que insistem em dizer que eles são bonitos, obrigando-nos a resmorder um "pois" contrafeito e a pensar cá connosco que a afirmação não deixaria ser verdade se tivessem o bom senso de lhes mudar o visual.  Ainda assim, a natureza é caprichosa e ninguém é santo - o que me leva a ir considerarando os panfletos de colégios internos pelo sim, pelo não, antes que o relógio biológico comece a dar sinal.

Tuesday, March 15, 2011

Gato malandro


O meu fofucho, o miolos de peluche do Farinelli continua a monte lá pela freguesia. Há dias quase lhe deitámos a mão, mas assustou-se com a Bolacha e fugiu a correr. Durante a noite, aparece para comer os biscoitos que deixamos à porta - sabemos que é ele porque tem uma forma curiosa de deixar o prato - e desaparece. Que julga ele que isto é, um Hotel? Não se desaparece assim sem dar cavaco a ninguém, deixando uma dona extremosa a chorar até lhe doerem os olhos. Para cúmulo do azar, onde moro há outro gato igualzinho, sem tirar nem pôr, um gato vadio, do povo, que tem o cognome de Mata Gatos porque não pertence nem quer pertencer a ninguém e bate em todos os coleguinhas que passem por ele. Dois gatos brancos, de pêlo comprido - quais são as probabilidades? -  complicam à brava a nossa operação de resgate. O vizinho que alimenta o Mata Gatos só acreditou quando os encontrou juntos (e em santa paz, sabe-se lá como) a partilhar o almoço. Julgou que estava a ver a dobrar, e até eu já fiz figuras tristes atrás do Mata Gatos, que claro, não me dá troco nenhum. Lá dizia um amigo nosso que os gatos são estúpidos e não sabem o que é bom para eles. Quanto a mim, vou continuar a "Caça ao Fofinho" mas aprendi que adoptar bichanos em época do cio é asneira da grossa.

Monday, March 14, 2011

A Moda cá do burgo

Eu sou, como tenho demonstrado aqui, uma grande defensora dos produtos portugueses, nomeadamente no que toca a alguns artigos especializados e de luxo. No entanto, há algo nos nossos designers  - salvo honrosas excepções, como os Storytailors - que não me encanta. Temos criadores razoáveis para vestidos de noiva ou de cerimónia e marcas portuguesas de roupa casual que nada ficam a dever às Gants e Tommys deste mundo. Mas no que toca à interpretação das tendências internacionais, não compreendo o que se passa. A Vogue bem se esforça, encafifando várias páginas das passerelles portuguesas nos suplementos sazonais. Mas a coisa soa postiça, porque por mais que olhe, não consigo ver ali nada de expressivo, nada de característico ou marcante, nada que apeteça usar. Por vezes penso se os designers cá do burgo não se marimbam totalmente para as tendências e fazem uns sacos de batatas cinzentões conforme lhes dá na real gana. Podem dizer que eu é que não presto atenção, que não me esforço por conhecer o seu trabalho. É mentira, até faço por isso. Mas não devia: enquanto consumidora, não necessito de me obrigar a reparar nas colecções só porque são portuguesas; elas deviam ser apelativas, levar-me a prestar-lhes atenção. É isso que as casas internacionais fazem, porque está demasiado em jogo. Se a Chanel lançar uma colecção da treta, é certo que vai sofrer um duro revés - as expectativas são demasiado altas para que se permitam erros. Como por cá, assim como assim, esta é uma indústria emergente, ninguém dá pelas falhas. A única coisa que me salta à vista nas colecções apresentadas, salvo um coordenado ou vestido por outro, é a falta de estrutura, de um conceito subjacente e de atenção ao detalhe - precisamente os três aspectos que me influenciam a comprar. Depois, temos o ambiente deprimente dos desfiles - parvenus, arrivistas, falsos jet-setters falidos, em suma, pessoas que vão para ser vistas, dificilmente para comprar roupa. Aplaude-se a boa vontade, mas para eventos de moda em grande, é necessário que haja colecções em grande. Eça de Queiroz dizia " a verdade é que não há corridas". Eu atrevo-me a dizer " a verdade é que não há desfiles". Mas como o Carlos da Maia, ressalvo o lado positivo:  temos a vista do rio, que é bonita.

Sunday, March 13, 2011

Chegou a Primavera, ou as maleitas da Princesa da Ervilha

Carolyn Bessete

Oficialmente ainda faltam uns dias. Mas a marota já aí está, bonita como sempre; já mandou preparar o seu camarim e quarto de hotel para a grande estreia. É florzinhas, passarinhos, folhinhas e outras coisas fofinhas; é o amor que anda no ar, a dar volta à cabeça das pessoas com menos juízo; é uma temperatura parva de todo que uma pessoa não sabe o que há-de vestir; e é aqui a Sissi aflita da sua vidinha por causa do pólen.

 Este blog podia chamar-se Princesa da Ervilha, já que as urticárias me aborrecem por tudo e mais alguma coisa: em vez de me preocupar em organizar o closet para o calor ando a calcular a quantidade de Zyrtec que posso tomar sem cair para o lado. Podíamos saltar directamente para o Verão. Ou levar a corte para a Irlanda, que é linda de morrer nesta altura do ano e tem chuva a rodos para lavar o ar. Aproximam-se três meses de olhos a picar, comichões e atchins. Lindo. Só me faltava a Primavera.

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