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Friday, April 29, 2011

Short Stories - Falar para o boneco



Era uma vez uma amiga minha, que como a Rapunzel, tinha logos cabelos louros e vivia fechada numa espécie de torre, guardada por uma mãe bicho do mato. A menina tinha poucas visitas, saídas muitas menos. O próprio carteiro era recebido de vassoura em punho, não fosse um abelhudo a fazer-se passar por inofensivo funcionário dos correios. Neste cenário, restava à minha amiga - além das precárias em liberdade condicional, arrancadas a ferros pelo grupo - brincar na propriedade atrás da casa e usar a imaginação. Ela pintou de encarnado, com mercúrio, o pelo do cão e as penas dos pombos de leque. Ela domesticava ouriços cacheiros. Fazia vestidos encantadores para as bonecas. Criou um código para passar por determinados pontos do terreno, fronteiras imaginárias que deviam ser ultrapassadas com respeito e uma palavra passe, não fossem os espíritos zangar-se e a desgraça desabar sobre as cabeças dos incautos.
 Mas tudo tem limites. Certo dia, a mãe ouviu-a falar com alguém; uma conversa animada, divertida, como se a pessoa presente fosse a personagem mais fascinante deste mundo. Aproximou-se - quem teria entrado sem bater?
Afastou os ramos e para seu espanto, viu a filha sentada, tendo à sua frente, em lugar de honra, um tufo de ervas espetado num pau.
- Que fazes? - perguntou, julgando que a pequena tinha enlouquecido de vez (o que seria naturalíssimo).
- Nada, mãe - respondeu ela, com a maior tranquilidade. - Estou só aqui a conversar com o ´Cabelos Compridos´.

Falando-se de Rapunzel...

Tuesday, April 26, 2011

Short stories - Sorry Ever After




Estavam enlaçados, após quase terem descido à terra. Tinham as mãos dadas, a mesma pele suavemente bronzeada e as madeixas, louro branco e louro fulvo, batendo na velha colcha de brocado amarela - gasta e puída, mas favorita por isso mesmo, com uma maciez de regresso a casa e de coisa secreta - entraçavam-se em mil tons de ouro. Entre eles e as pessoas vulgares não havia nada em comum; o próprio sol de Outono parecia ter tomado matizes de ouro velho e entrado pela janela para formar um grupo escultórico, um quadro perfeito - demasiado perfeito.
Nunca mais voltariam a ser tão jovens, nem tão belos, nenhum instante teria aquela beleza luminosa. Chamas douradas deram lugar a labaredas violeta, queimando numa velocidade vertiginosa, consumindo-os por dentro, por fora, até a luz os cegar e não restar nada. As palavras ficaram por dizer, não houve, nem poderia haver, uma verdade absoluta, porque a arte não resiste a factos. Belo demais para durar, intenso demais para permanecer inteiro. É melhor arder de vez que fenecer aos poucos, pensou ela, como se a realidade lhe tivesse batido em cheio no rosto - mas Sorry Ever After é a pior sensação do mundo.

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