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Friday, May 6, 2011

Ad astra per asperum....

Saint Michael the Archangel

Sancte Michael Archangele, defende nos in prælio; contra nequitiam et insidias diaboli esto præsidium.Imperet illi Deus, supplices deprecamur: tuque, Princeps militiæ cælestis, Satanam aliosque spiritus malignos, qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo, divina virtute in infernum detrude. Amen.

Thursday, May 5, 2011

Da Ira, do Orgulho, e da falta de juízo



Esta rapariga peca muitas vezes. Está sempre a cair em dois pecados mortais, o Orgulho e a Ira, que por sua vez a fazem ir contra a Virtude. Porque segundo Maquiavel, um dos pensadores mais amados por esta rapariga, um aspecto da Virtude é saber aproveitar a oportunidade no momento certo. Mas ora a Ira (impulsividade, orelhas a escaldar, sangue a ferver, cabeça a andar à roda e obediência cega à máxima do mesmo senhor, que dita "é melhor ser ousado do que prudente") ora o Orgulho (que a faz ser prudente demais) se apresentam para estragar tudo. É um padrão. Muitas vezes, no momento em que  tem nas mãos aquilo que mais deseja, ela pensa " não vale a pena", " não vou rebaixar-me a isto", "estou farta", "quero que tudo se dane", " e se corre mal?", " o outro que fale primeiro", "não vou pedir batatinhas", "não posso revelar o que vai cá dentro" espera um bocadinho, que eu também esperei nove meses", "não preciso de ti para nada" "não quero pedir favores" "odeio mostrar que preciso disto ou daquilo" e por aí fora. E rejeita as coisas que lhe andaram a tirar o sono. Como se não fossem nada. Não lembra a ninguém, lançar a sorte pela janela em vez de ficar toda contente por ela ter aparecido. E depois esta rapariga pensa onde tinha a cabeça, para deixar coisas por dizer. Coisas por esclarecer. Pazes por fazer. Beijos por dar. Portas por abrir. Declarações que podiam ter resolvido tudo, trazido alívio, felicidade, luz, perspectivas diferentes, se o raio da rapariga não se tivesse deixado levar pela raiva, ou pela impulsividade, ou pelo silêncio, ou pelo diabo do orgulho. Se não fosse temperamental. Se soubesse que a dignidade tem limites. Se não fosse de extremos. Sim, por vezes esta rapariga arrepende-se. Mas um dia aprende - se não fechar a porta na cara à oportunidade de aprender.

Da injustiça




Certo dia, no infantário, as freiras levaram-nos a dar um passeio pelo bosque. Estava eu a brincar sossegada, quando um grupo de miúdos perto de mim fez não sei o quê, e eis que uma das Irmãs se vira para nós e diz " o menino, o menino e a menina Sissi, todos de castigo para o colégio!". De nada me valeram os protestos: eu bem insisti que não tinha feito nada, que não sabia sequer de que falta me acusavam, mas lá marchei para dentro. Chegados, sem mais explicações, a Irmã ralhou: "e agora, ficam aqui sentados a pensar no que fizeram!". Estou para saber o que foi até hoje. Se me castigassem por ser habitualmente uma peste, eu compreendia e aceitava (até porque a punição não era grande). Mas nem isso: puseram-me de castigo por um acto concreto, por algo que não tinha feito, que não tinha ideia do que era, e sem hipótese de defesa. É o mal das pequenas faltas, que não chegam à barra dos tribunais: não há advogados que nos valham. Graças aos céus, poucas vezes o caso se repetiu ao longo da minha vida; sempre evitei confusões e o que faço - com poucos danos, apenas amolgadelas que são mercê do meu temperamento-  assumo, com as respectivas consequências, a bem ou a mal. Tenho intolerância a mal entendidos, a acusações infundadas. Quando presencio uma cena dessas, vem-me logo à cabeça a cena do infantário. Ou o caso de Anne Boleyn, acusada de bruxaria, incesto, adultério e alta traição pelo homem que até aí a tinha amado como um doido. "Ai não toleras que eu me enrole com as damas de companhia? Rainha morta, rainha posta, e venha a Jane Seymour que está por tudo". Abandonada pelos amigos, o amor convertido em ódio, vítima de intrigas invejosas, sem esperança de defesa, tendo por única culpa o facto de possuir uma personalidade forte e uma língua afiada. Sem outro remédio senão oferecer o pescoço gracioso à espada do carrasco e proferir um discurso ambíguo, para evitar males maiores aos seus. Morreu com a dignidade de uma rainha, mas a cabeça já ninguém lha devolveu. "Onde há vontade de condenar, as provas aparecem" lá dizem os chineses. Graças aos céus, já não se cortam cabeças, mas os bancos do colégio, esses andam aí.

Monday, May 2, 2011

It´s beyond my control

Keira Knightley


Tenho uma tendência para o psicossomático. A minha alma e o meu organismo andam sempre juntinhos - o que sinto cá por dentro manifesta-se com uma rapidez vertiginosa em sintomas palpáveis. Isto acaba por se converter numa ferramenta útil - um instinto que raramente me engana e que quando ignorado, tende a traduzir-se em asneira e arrependimento. Por muito preta que a situação esteja, por mais que as aparências me digam que fui precipitada, que agi com excessiva veemência, se eu consigo respirar facilmente, então está tudo bem. Geneticamente, herdei do lado paterno um coração de leão, um irish temper que me faz virar o barco, queimar as pontes, enfrentar gigantes, dar o peito às balas por aquilo que amo, sem me importar com as consequências. Do lado materno, ficou-me uma certa altivez, orgulho e reserva, o autodomínio, a prática da bofetada de luva branca, de engolir o maior sapo com um sorriso no rosto desde que sirva o propósito. Anos de disciplina, de " Sissi, domina-te" acabaram por me ajudar a prender os demónios cá dentro, só os soltando quando o saco está completamente cheio. Até aí, como a minha avó, tenho uma calma excessiva, impressionante, uma ausência total de sentimentos. Doi, mas é como se não doesse. Todas as emoções estão sob o meu controlo. Se me vissem, não notariam nada além de uma ligeira palidez. Um estado que, regra geral, é perigoso, porque antecede o momento em que o meu Mr. Hyde, o meu passageiro sombrio, vem à tona. Quando isso acontece, há duas hipóteses: vejo tudo vermelho e perco o raciocínio, o autocontrolo e mando tudo pelos ares; ou então, ainda sob calma de morte, desisto (o que é outra forma de mandar tudo pelos ares). Fico para além, muito para além, de me importar com o assunto. Fujo, afasto-me, escondo-me, mesmo que em causa esteja a questão, coisa ou pessoa que me é mais cara. E às vezes, quanto mais importante a razão, quanto mais próxima do meu coração, mais depressa desapareço. Isto não acontece para lamber as feridas, para voltar mais forte, ou alguma treta do género - embora esse seja um resultado natural. É algo de mais profundo, interno, inevitável, um reflexo pavlovniano que me transporta - para cima do adversário ou para longe dali. Não há nada de calculismo nisto, a não ser que eu seja abençoada com um pensamento estratégico e maquiavélico de velocidade sobre humana. Está simplesmente em mim, não é culpa minha, e como dizia o Valmont, it´s beyond my control.

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