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Wednesday, October 5, 2011

A minha amiga Charlotte


Éramos miúdas, pequenas mesmo. Quase a entrar na idade do armário. Onde eu era chic blasé, ela era BCBG. Perto da minha amiga, eu, Sissi, a serena, perfeccionista e bem comportada (se deixarmos de lado o meu amor pelas artes marciais e criatividade em excesso) era uma rebelde. Quando as nossas colegas discutiam namoricos, nós falávamos de antiguidades, lifestyle, canapés, refresco de menta, roupa vintage e doce de amora. Fazíamos instalações artísticas com as Barbies. Foi a minha Charlotte que acabou de polir o meu alarme anti vulgar - e eu que achava que a avó me tinha ensinado tudo o que havia para saber! Para ela quase tudo era vulgar - até coisas francamente requintadas, desde que fossem chamativas. Odiava o nouveau riche ainda mais do que eu, se possível. A minha  Charlotte não teria o estilo mais criativo do mundo, mas sabia o valor da subtileza. Eu tinha alguma flexibilidade, ironia e tolerância ao kitsch - cabedal envelhecido, ouro velho, Jane Birkin, BB, Marylin Monroe fabulosa de camisa branca, Kate Moss, Grace Kelly, Jackie - ela ficava-se pela Grace. E o Provençal. E Aundrey Hepburn. 100% correcta. 100% elegante. Menos é mais, sempre. Antes chata do que...vulgar. Era um bocadinho snobe: certa vez melindrou-se imenso porque um empregado de mesa a tratou com excessivo à vontade, e não se calou com o assunto a tarde inteira. Era deliciosamente frontal, politicamente incorrecta ao máximo, com um sentido de humor cáustico tal como o meu. Eu adorava isso. Não tinha pejo em dizer eu não me dou com gente daquela. Porque não. E ninguém tinha nada a ver. Se fosse preciso, ralhava às amigas por serem trapalhonas ou não terem a postura certa ou isto ou aquilo; era como brincar com o grilo falante. Mas funcionava: eu apresentei-lhe as maravilhas do preto e do bâton encarnado-transparente a fingir que não existe. Ela mostrou-me onde estava a beleza do pastel. Vem daí o meu vício pelo rosa velho. E um barómetro interior com mil nuances. Muito gostaria de a encontrar hoje para discutir os horrores de calções que por aí andam. Mas isso é outro assunto.

Desculpem, mas não tenho de aturar isto.

Gwyneth Paltrow
Eu resisti muito à ideia de ter Facebook. Afinal, não havia necessidade de mais redes sociais, de mais gente, de mais confusão. Depois alguns amigos lá me convenceram das vantagens: porque se partilham ideias e conteúdos rapidamente...porque não se perdem os contactos...porque é giro...porque é útil para quem tem blogue...e porque, e porque, e porque. Tudo isso é verdade. O pior é que apesar do apregoado zelo pela privacidade por parte da empresa, o Facebook torna-se cada vez mais intrusivo. Quero ler um PDF no Scribd? Pimba, está conectado ao FB e se não tenho cuidado, toda a gente fica a saber o que fui buscar ao scribd e a que horas foi e que outros livros me despertaram a curiosidade, como se tivessem muito a ver com isso - sem ofensa.
E isto é só a ponta do icebergue - são incontáveis os sites ligados ao bisbilhoteiro do Facebook, mortinhos por contar ao mundo "a Sissi gosta disto" ou pior, "a Sissi esteve aqui". Sobre aquela opção esquisita que permite localizar-nos prefiro nem falar. Medo, muito medo. Pior do que isso, só o Google Earth a mostrar casas privadas em detalhe.
E não me venham com o argumento " podes desactivar essa opção". Algumas são difíceis de desactivar. Outras não percebemos para que servem e quando percebemos já é tarde.
Mas a parte mais chata é que o FB parece ter sido criado por ingénuos que não conhecem o mal que vai por este mundo. A facilidade - superior a de outras redes sociais -  com que amigos de amigos de amigos (nem todos amigáveis) têm acesso a informações pessoais é assustadora. Mesmo com cuidados redobrados. A possibilidade de comentar tudo faz com que conhecimentos de circunstância, muitos deles dispensáveis, se desenvolvam numa velocidade vertiginosa. Permitem-se familiaridades que de outro modo seriam inconcebíveis. Geram-se equívocos. O Facebook exige muita cautela para não deixar de ser o que realmente é - uma ferramenta. Num rápido giro pela minha página - entre amigos a sério, contactos de trabalho, família, colegas, antigos colegas e conhecidos -  cheguei à conclusão que não conhecia um bom número das pessoas que ali estavam.  Algumas talvez passem por mim na rua sem me reconhecer, nunca comentamos o mural uns dos outros, até pensam que sou uma parvalhona, mas acham giro ter mais um cromo para parecerem muito requisitados. Salvei os que me pareceram razoáveis (conhecem-me do tempo das cantigas, ou por causa do blog, ou dos livros, etc) e os restantes que me desculpem. Principalmente aqueles que querem uma página no FB, mas têm um urso no lugar da fotografia. Há que prezar a privacidade, mas isso já é exagero.

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