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Tuesday, January 3, 2012

Que é feito do Pai Tirano?

Beatriz Costa e António Silva


Eu ainda me recordo do pai tradicional português, esse guardião dos velhos costumes. Não por experiência própria (lá em casa havia disciplina, com indução de bom senso e mecanismos de auto regulação nas crias ) mas porque conhecia raparigas que os tinham.
Embora a maioria dos meus colegas viesse de famílias muito instruídas e razoavelmente cosmopolitas, havia alguns com um background diferente. Pais que tinham subido a pulso, emigrado ou criado um negócio com a quarta classe debaixo do cinto e que agora estavam em condições de fazer dos filhos doutores. Essa ambição tão portuguesa reflectia-se, para esses honestos progenitores, numa atitude clara como água: estudas, sim senhora, mas nada de vadiagem.
Ti Joaquim não se importava de precindir dos outros sonhos da sua vida (mais braços para ajudar no negócio da família e ter netos cedíssimo) pela vaidade de poder dizer " a minha filha não é menos que ninguém, já é dôtora e tudo" .
Claro que tal cedência tinha o seu preço. As coitadas das filhas do ti Joaquim não podiam namorar, nem sair como as demais, era casa-escola-escola-casa, e rédea curta. Se à força de tanto controlo parental se rebelavam e faziam exactamente o oposto, lá estava o cinturão, e tapona, e gritaria, à porta do liceu se preciso fosse, que filha de ti Joaquim estudava sim, mas com virtude exemplar. O pobre ti Joaquim era um tirano, não percebia que o fruto proibido era o mais apetecido e que ao mudar de ambições, se muda de hábitos.
Quinze anos volvidos, passou-se de um extremo ao outro. Há dias, na fila do supermercado, tive a infelicidade de abrir uma revista de TV. E quem é que lá estava? O meu amigo ti Joaquim! Ou antes, vários ti Joaquins. O mesmo ar, os mesmos bigodes, o mesmo visual, o mesmo palavreado de pai babado e extremoso. Nem faltava o cinto sempre pronto a saltar! Mas estes não faziam questão de ter filhas doutoras. Estavam a torcer pela sua vitória na Casa dos Segredos, a acudir pela filhota que se meteu na cama de um gabiru qualquer em horário nobre, a inveja da aldeia, aquela que não é menos que ninguém, para esfregar na cara dos peneirentos lá da terra que a cachopa é famosa e sai nas revistas e ganha muito dinheiro. A virtude aldeã foi substituída pela cupidez aldeã (que é das coisas mais feias que existem). Nem faltou ao ti Joaquim a oportunidade de dizer mal de todos os vizinhos e dos pelintras dos compadres, porque agora que "dão muito valor" à rapariga os jornalistas publicam todos os disparates que a família atire. O cinto, esse, não zurze a filha, porque a vadiagem já lhe dá jeito - é para partir as trombas ao primeiro que lhe diga "a sua filha é uma maluca". (E há tantos assim, mesmo fora da TV, a empurrar as próprias filhas desavergonhadamente para o primeiro que lhes possa "dar a mão" para subir na vida"...)! Povo triste, o nosso. Tacanho e triste!

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