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Wednesday, February 22, 2012

A intoxicante multidão

 
"(...)Dizendo que era um parasita, ainda não temos dito tudo. (...). Era um homem bem apessoado, espirituoso serviçal, cheio de cortesia e amabilidade, condições indispensáveis a um bom parasita. (...)Servia-lhe de companheiro não só à mesa, como ao jogo e à caça: entretinha-o a contar-lhe anedotas divertidas e escandalosas, aplaudia-lhe os desvarios e extravagâncias, e lisonjeava-lhe as ruins paixões, enquanto Leôncio, que o acreditava realmente um amigo, fazia dele o seu confidente, e comunicava-lhe os seus mais íntimos pensamentos, os seus planos de perversidade, e os mais secretos negócios de família".

Bernardo Guimarães, A Escrava Isaura
 
Ao longo da vida tem-me sido dado privar com muita gente a quem a natureza e/ou a fortuna favoreceu de diferentes maneiras. Pessoas que - pela sorte, meio,beleza, carisma, riqueza, talento ou pelo sucesso alcançado - se encontram (ou parecem) numa posição relativamente mais agradável do que a maioria.
Esses seres aparentemente felizes são como a luz- atraem o bom, mas também as traças.
Conheci pessoas que lidavam com isso de forma sensata; outras que se aproveitavam mais ou menos cinicamente da sabujice alheia, usando e abusando de quem pretendia fazer-lhes o mesmo, para os mandar à fava em dois tempos com a maior frieza. Para maroto, maroto e meio. Ou como dizia Maquiavel, finge que gostas dos bajuladores, mas conserva meia dúzia de amigos autorizados a dizer -te a verdade nua e crua.
Há outras porém, que sofrem de uma tremenda insegurança. Precisam de ter o ego conservado em algodão em rama, constantemente afagado, de provar a si mesmos que são admirados, que mandam e podem. Esses não só mantêm quantos amigos há por perto, como acolhem as traças e parasitas (da vulgar brigada do croquete ou papa ceias a seres mais perigosos, que não se contentam em enfardar rissois). Abrem as suas portas, a sua vida, os seus sentimentos, relacionamentos e decisões a meio mundo. Todos os seus passos são discutidos por A, por B, por C, por tutti quanti.
Todos os seus "amigos" dizem que sim a tudo. Partilham um só cérebro e um só sistema digestivo, como uma centopeia humana. A única iniciativa que tomam é a de dar palpites sobre aquilo que a "cabeça" faz ou deixa de fazer. E a "cabeça" julga que põe e dispõe, quando na verdade não manda nada. É manipulada, desmandada e dissecada por quem não tem as suas próprias batalhas para travar, por quem vive das migalhas dos outros. Está à mercê das comadres.
Estas pessoas vivem como o Rei Sol - que era senhor de tudo, mas não tinha o direito de ir à retrete sozinho (nem sequer de usar o papel higiénico em paz).
Sempre fugi destas multidões sufocantes. A mera sugestão de fulano e beltrano discutirem assuntos privados meus provoca-me claustrofobia. Que se interessem pela minha pessoa só para ver o que podem tirar dali, apavora-me. Não há vénias, elogios nem massagens ao ego que paguem a independência mental, a liberdade de fazer e dizer o que me dá na real gana.
É uma questão de gosto, creio. Prefiro não reinar, mas ser dona do meu traseiro...o que já é um luxo nos dias que correm.

1 comment:

Lady Lamp said...

Este post lembrou-me TANTO desta letra...: http://www.youtube.com/watch?v=QQupiQ7nfzQ

Beijinho*

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