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Saturday, February 25, 2012

Vendetta, honra e omertà

O conceito de vendetta está associado ao sistema feudal, quando a autoridade pública tinha pouca intervenção em questões (e ofensas) do foro privado.
   Guerras pessoais (que podiam estender-se por longos anos) contendas de sangue e atentados à honra eram resolvidos entre famílias ou clãs, em territórios/ épocas de alguma instabilidade política e legal nos quais os laços familiares e de honra norteavam os padrões de comportamento. Em suma, culturas em que era esperado - e bem vindo - que cada um tomasse conta de si e dos seus, e resolvesse os próprios problemas. 

Até ao final da Idade Média, a vendetta era considerada um instrumento de certo modo legítimo, com regras mais ou menos definidas. Com o passar dos séculos e uma maior centralização e regulamentação da sociedade foi-se tornando uma prática clandestina, mas ainda assim tolerada em várias zonas da Europa. Mesmo em Portugal, até ao século XIX (e talvez um pouco mais além, aqui e ali) os crimes cometidos "para lavar a  honra"  eram olhados com certa complacência.

    Sicília, Córsega, Montenegro (onde lhe chamam krvna osveta - vingança de sangue)  província de Mani, na Grécia (cujos invictos habitantes afirmam orgulhosamente ser descendentes directos dos espartanos) Escócia e Irlanda são locais onde se continuou a praticar a lei de talião - olho por olho, dente por dente - mesmo até aos nossos dias, tendo o costume sido transportado até aos lugares para onde emigraram descendentes, como os EUA. Hoje sobrevive muito em segredo, claro, e de forma quase sempre relacionada com o crime organizado. 

A ideia de vendetta anda de mãos dadas com a Omertà (de ombridade) o código de silêncio ainda hoje honrado por organizações como a Cosa Nostra, mas muito anterior à sua fundação. Entregar um inimigo à Lei é desonroso, não retaliar é pior. Quem foi ferido, ofendido ou aviltado acha-se na obrigação de se vingar, ou recorrer a quem o faça por si (o clã, a família ou os aliados). Bem caladinho e sem levantar poeirada. 

   Ora, a minha família veio precisamente de alguns desses sítios e muitos destes princípios mantinham-se, pelo menos em teoria. De ambos os lados pessoas honestas e de boa índole, incapazes de prejudicar alguém. Mas quando ofendidos nos brios, eram, como dizia Miguel Torga " capazes de lavar sangue com as lágrimas de Cristo". Perdi a conta às vezes em que ouvi, desde muito nova, falar em honra, bom nome, cabeça erguida, pundonor e brio. As questões, se as havia, eram tratadas em privado. "Dar escândalo" ou "ser falado" era o pior que podia acontecer. Por isso, em caso de ofensa não se chamavam as autoridades: uma conversinha ou em caso extremo, uma bengala que se brandia como uma Shillelagh um seixo (que era mais um pedregulho) religiosamente guardado junto à janela para uma eventualidade ou a ameaça de armas mais impressionantes punham fim à contenda em dois tempos. Ainda mantemos a bengala e o seixo, como recordação... 

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