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Tuesday, March 27, 2012

Arrependimento?


Helena Christensen

Costumo dizer que raramente me arrependo daquilo que faço: é muito mais comum arrepender-me das coisas que não disse ou não fiz. 

Isto acontece por duas razões: a primeira é o meu famigerado, impulsivo e infalível instinto, de que já falei aqui várias vezes. Ele dá sempre sinal e é raríssimo não estar certo. Eu é que opto por ignorar esses pressentimentos radicais (e a minha tendência natural para partir a louça). Vou pela via mais prudente e como a prudência é inimiga da fortuna, espalho-me ao comprido. 
 A segunda razão é que, como típica virginiana, sou extremamente racional (vejam como isto convive com o meu instinto prodigioso e calculem a confusão que se gera na minha cabeça). Num minuto, sou capaz de analisar a situação por todos os ângulos, fazer complicadíssimos cálculos, comparar cenários e elaborar uma estratégia. 
 Ou seja, dificilmente meto a pata na poça. Aquilo que faço é bem feito. Aquilo que não faço é que me causa problemas. 
Foram pouquíssimas as vezes em que tive de me desculpar por algo que disse. E são muito frequentes aquelas em que me arrepelo por ter mordido a língua, como dita a boa educação. Porque é que não deitei a casa abaixo? Porque é que não me expliquei? Porque é que não os mandei lamber sabão? Porque é que não segui o meu primeiro impulso e levei o caso até às últimas consequências? Porque é que não virei as costas e pronto? e mimimi, e nhanhanha.
 Arrependimentos todos temos. Ninguém está livre de errar, de fazer asneira da grossa, de prejudicar os outros, as pessoas queridas ou a si mesmo. Mas uma coisa é certa: ou bem que há arrependimento, ou bem que não há. 
 Quando manifestamos pesar por um erro cometido, a reacção automática é mudar de atitude. Jesus disse " vai, e não voltes a pecar" não disse " este está resolvido, vai lá e faz pior". Por infinita que seja a possibilidade de perdão ou redenção, os princípios científicos são inalteráveis: a combinação dos mesmos factores leva invariavelmente ao mesmo resultado. 
 Se alguém quer laranjada mas não deixa de espremer limões, por mais que chore, berre e bata com a mão no peito, continua a obter limonada. Pode despejar o açucareiro lá dentro, pedir mil desculpas, deitar-lhe folhas de menta, champagne do melhor, groselha e gelo: é sempre limonada. A única maneira de resolver o problema é deixar a teimosia de lado, assumir que a receita não é aquela, deitar fora os limões, lavar o jarro, limpar o espremedor e ir buscar a porcaria das laranjas. Simple as that. 

4 comments:

colibri esverdeado said...

Sou nova por cá e acabo de pousar no teu espaço. Não poderia estar mais de acordo com o que escreveste... Temos mesmo de começar a pegar em mais laranjas docinhas... ;) Beijinhos e dá uma espreitadela ao meu espaço!

Imperatriz Sissi said...

Olá Colibri, e sê muito bem vinda à blogosfera :). Passei no teu blog e gostei- parece-me bastante profissional e já o estou a seguir. Espero que nos vamos acompanhando...
Beijinhos.

menina lamparina said...

Adorei! :)*

Imperatriz Sissi said...

Thanks my dear ;*

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