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Thursday, March 22, 2012

Short story - A fórmula

Sean Bean e Joely Richardson 

 
Começou muito devagar - primeiro veio a alma, a viciar o resto. Ela apercebeu-se que ele a fazia desejar ser uma pessoa melhor, aperfeiçoar-se, triunfar. Até ali, todas as realizações eram para si mesma, cada vitória, cada elevação. Nunca lhe passara pela cabeça ter vontade de brilhar aos olhos de outrém, fazer um homem orgulhoso, nunca a existência de um ser amado pesara nas suas decisões. Os seus apaixonados eram entes externos - o objecto da sua afeição, a companhia, alguém que lhe fazia borboletas no estômago ou em dias maus, dores de cabeça. Os seus feitos e conquistas, o seu êxito, o orgulho que os outros sentiam nela eram dados adquiridos, um dom natural. Faziam-na feliz ou inquieta, conforme o investimento/esforço que representavam. Só isso.  E eis que de repente se via capaz de sacrifícios, capaz de heroismos, desejando - ela, a prudente, a pragmática, a cínica, a descrente nos prodígios do coração - devotar-se a alguém, porque sentia que ele faria outro tanto. 
 

E era verdade. 

 
Quando sentia os passos dela, quando ela o olhava de soslaio, os cabelos soltos sobre as costas, a mão presa na dele, a cabeça contra o seu peito, um meio sorriso...sentia-se como um miúdo que quer impressionar o novo amigo com os seus brinquedos. Não sabia o que mais lhe mostrar, o que mais oferecer- tinha as mãos e os braços abertos de par em par, o coração exposto. Até ali, as mulheres tinham sido como copiosas arcas do tesouro ou árvores do Éden - bastava-lhe colher o que lhe apetecesse, uma e outra vez, sem um segundo pensamento, sem um cuidado, sem um susto. Sabia que voltavam sempre, que nunca se ausentavam por muito tempo; e que uma vez gasto o número dos seus encantos, outras haveria, prontas a tomar o posto da rival derrotada, a tentar a sorte sem perguntas. Eram encantadoras na sua ingenuidade, como flores de estufa - e igualmente sem perfume. Nenhuma lhe levantara dúvidas, questões, angústias. Os rostos mudavam, mas as palavras e os postos eram os mesmos, tão certo como o sol todas as manhãs, o vinho ao jantar, a água na torneira. Quando havia cenas, súplicas, lágrimas, nunca meditava sobre elas: pareciam-lhe tão superficiais como os "amo-te" que ouvia a torto e a direito. Desconfiava vivamente que uma mulher era incapaz de ter um desgosto que não viesse da vaidade ferida, curável em dois dias quando devidamente compensado; de não mudar de amores, de valores ou de opiniões consoante as conveniências.
 "Amava" com ironia, tal como tinha sido amado até ali. 

A única diferença é que ao contrário delas, estava consciente do drama e não procurava sequer representá-lo. 

Oh, a alma! Como a sua cotação é baixa neste século! 
 Porque no fundo - pensava para si, nos momentos em que a sobriedade o atingia como um raio de clareza, a dar passos furiosos no quarto - o que é que se procura hoje, numa mulher? A vista, a sensualidade, um pouco de inteligência que funcione, habilitações para o mundo prático, meiguice, hábitos em comum...e por dentro...que seja "boa pessoa", vá. Não se busca além disso - nem a beleza elevada das amantes ideais de outras épocas, capazes de levar um homem à poesia, ao resgate ou ao suicídio; nem o sonho, nem o requinte de sentimentos, muito menos a profundidade do espírito. Não há tempo para gozar esse lento fascínio, para cultivar essas delicadezas, esses luxos interiores que transformam as alegrias terrenas numa amostra do paraíso. 
 Cuidado com o que pedes, sempre ouvira dizer - eis que a fada, a ninfa, o anjo (com tudo o que essas figuras comportam de puro, de tentador e de perigoso) que verbalizara nesses instantes de patético idealismo o abraçava agora. Ali estava ele, sem que  ela alguma vez o tivesse tentado: nem um gesto de carência ou reprovação, a porta sempre aberta. Livres, ambos, mas unidos por algo de misterioso, magnético, sem artifícios, instintivo.
 Não faziam por agradar, mas desejavam ser agradáveis um ao outro. Ela moderava a sua impetuosidade. Já não sentia o peso de conduzir o seu próprio destino, mas desejava ser perfeita, porque se sabia adorada como um ídolo e ambicionava corresponder à expectativa. Ele tranquilizava-se sob a sua suave influência. Sem que ela precisasse de o censurar, tomara uma pureza de costumes, uma disciplina que nunca antes tivera. Desejava recolher-se a uma existência mais íntima e mais familiar; a estúrdia, as pândegas e as noitadas intermináveis provocavam-lhe a erosão e o vazio. Era um desafio mudo, espontâneo:  a fórmula alquímica que  trazia à superfície as mais belas qualidades de cada um.
E no meio desse idílio perfeito, faltavam as palavras que nenhum pronunciara, por medo de quebrar o encanto. Por isso havia ciúmes loucos e inconfessados, delírios exagerados, angústias insones - como um ganancioso que descobre a gruta dos tesouros e não se atreve a sair para os transportar para casa, com medo de não reencontrar a entrada. Ambos receavam colocar à luz aquele amor - e chamá-lo pelo nome - com receio do que viria a seguir. Faltava tão pouco, mas o pouco era vital. As delicadas rendas que os prendiam rasgavam-se aos poucos na ventania - mas nenhum ( mãos e coração abertos, lábios fechados) queria mostrar-se primeiro. A catástrofe aproximava-se, e estavam paralisados para a impedir. Todas as noites, partilhavam sem saber a mesma oração: que pudéssemos trocar de corpo, de mente e de coração por um dia só. Saber o que tu sentes, saber como o sentes. Como pareço aos teus olhos, como é que a tua pele reage à minha, como soa  a minha voz aos teus ouvidos. Um dia só, estar no teu lugar. Assim seria tão fácil. Por favor, Meu Deus. As almas já as trocámos, só falta o resto - eu prometo que devolvo tudo, inteirinho, intacto, ao fim das 24 horas.

4 comments:

menina lamparina said...

Acho que este foi dos textos mais perfeitos que li aqui, Imperatriz. Nem tenho mais palavras. :*

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, querida. Fazes-me corar...fico honrada com o teu comentário. Beijinhos.

Nuno Raphael Relvão said...

Magistral!

Por alguma razão, relativa não só ao conteúdo mas também à forma, faz-me lembrar o conto que escrevi em género epistolário do cavaleiro a escrever à sua donzela e que foi tão elogiado por ti.

Retribuo por inteiro os mesmos elogios.

è uma pena que continues a sucumbir à tua eterna inimiga, a formatação de texto :P

Mas sem dúvida um potencial de perfeição com alguns pequenos ajustes (já sabes que analiso ao pormenor, sorry).

Imperatriz Sissi said...

Por onde anda esse texto? Tens de o ressuscitar quando regressares à blogosfera. Quanto à formatação, a culpa é do blogger que quando quer é uma besta. Não se faz nada dele.

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