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Tuesday, April 24, 2012

Ambição: a Rainha dos 9 Dias


A execução de Lady Jane Grey (Paul Delaroche, 1833)

"A ambição é a riqueza dos pobres".
Marcel Pagnol 
                                                         
  "A ambição é o último refúgio do fracasso".
Oscar Wilde


Don´t bite off more than you can chew ,
dizem os ingleses. Em português, a melhor tradução será "não queiras dar um passo maior do que a perna". 
Quando penso em pessoas que procuram ascender vorazmente lembro-me de Lady Jane Grey, a trágica Rainha dos 9 dias.

     Ela uma das mulheres mais cultas do seu tempo, e sobrinha-neta de Henrique VIII: neta da sua irmã bem amada, Mary, e do seu melhor amigo, o Duque de Suffolk. Em testamento, o velho rei determinara a posição de Lady Jane na linha de sucessão: apenas herdaria o trono caso os seus três filhos ( os futuros Edward VI, "Bloody" Mary I e Elizabeth I) morressem sem deixar descendentes. Edward, protestante devoto, reinou perto de sete anos. A sua saúde delicada resultou numa morte prematura - e tornava-o um peão dócil nas mãos dos seus conselheiros. O jovem monarca não pretendia deixar Inglaterra cair novamente em mãos católicas e, influenciado por John Dudley, deserdou a sua irmã mais velha, Mary (por sua vez, neta dos Reis Católicos e filha de Catherine de Aragão). Para o fazer, apoiou-se num dos actos de sucessão assinados pelo seu pai entre os seus sucessivos casamentos e divórcios, que declarava tanto Mary como Elizabeth (filha de Anne Boleyn e protestante convicta) ilegítimas.
 Jane fora entretanto convenientemente casada com Guildford, o filho do conselheiro Dudley, que por sua vez conseguira a proeza inaudita de ser elevado a Duque de Northumberland.
Embora consciente do seu estatuto real e defensora da fé que escolhera, Jane não era ambiciosa - chegou a criticar abertamente a família pelos seus hábitos gastadores e alpinismo social. No entanto, a ganância dos pais e sogros era implacável. Jane casou contrafeita e morto o jovem rei Eduardo, foi pressionada para se assumir como rainha. Terá mesmo dito " quando me apresentaram o trono, eu via por trás dele o cadafalso" e recusado experimentar a coroa. Como Tudor orgulhosa, não quis  tornar o seu marido rei - frustrando os desejos da família presunçosa e arrogante.  Mas as guerras domésticas eram o menor dos seus males. O "reinado" de Lady Jane duraria 9 míseros dias.
 Pouco depois Mary Tudor reclamava o trono e entrava em Londres triunfante. A filha mais velha de Henry VIII detinha a simpatia popular devido aos maus tratos que tanto ela como a mãe tinham sofrido às mãos do Rei. No coração do povo, Catarina de Aragão permanecera sempre como a verdadeira Rainha - e não poderia haver outra sucessora que não a sua filha de sangue.  Após duas tentativas de rebelião por parte dos familiares da "jovem usurpadora"  Mary I foi forçada, por necessidade política, a mandar executar a sua infeliz prima . Lady Jane Grey foi decapitada em privado na Torre de Londres na manhã de 12 de Fevereiro de 1554. Tinha apenas dezasseis ou dezassete anos.

 O marido e o sogro tiveram o mesmo destino.

 Se tivessem ficado quietinhos no seu canto, levariam uma vida feliz e privilegiada. Mas insistiram em tentar um movimento perigoso, numa corte onde tão depressa de ganhava a coroa como se perdia a cabeça. Há jogos e lugares para os quais nem toda a gente é feita. Recebê-los legitimamente é um fardo - usurpá-los é uma sentença de morte.

  
As águias deixam que os passarinhos cantem, sem nenhuma preocupação com o seu trinado alegre, certas de que com a sombra das suas asas poderão
 reduzi-los ao silêncio.

William Shakespeare

Acredito que sem projectos, nem sonhos, nada se faz. Para chegar ao meio da montanha é preciso apontar ao topo, e todas essas belas máximas. Ter imaginação, sentido de missão, de propósito, lutar por aquilo que se acredita, esforçar-se para obter o estilo de vida desejado, aplicar dons e aptidões em algo que valha a pena são as mais salutares aspirações humanas. Porém- e já se estava mesmo a ver que havia um "mas" aqui - é preciso ter humildade e bom senso. Podemos ser grandes sonhadores mas a sensatez tem de ser incutida desde o berço, às colheradas. É legítimo ter ambições, desde que acompanhadas de noção do lugar de onde se partiu, dos próprios direitos, fraquezas, talentos e pontos fortes, dos conceitos básicos de educação e bom comportamento.

Por grande e digno que seja o ideal a que se aspira, se aquele que pretende alcançá-lo se vale de meios miseráveis, é sempre um miserável.  
Henri Lacordaire

O perigo está nas pessoas que se acham com direito a tudo e mais alguma coisa, ambiciosas por passatempo, preguiçosas, descaradas e sem noção dos limites. Aquelas que querem fama, prestígio social e "boa vida" sem terem nascido com as condições necessárias, nem vontade de se esforçar. Um exemplo são os jovens que querem ser "actores" mas não são abençoados pelas musas, nem têm consciência do trabalho, estudo e sacrifício que espera um actor que honre a profissão. Cesare Pavese classificou a ambição de "sentimento de inferioridade que origina todos os pecados". Por vezes, quanto mais de baixo se parte, maior a cupidez. A desvantagem inicial é proporcional à avidez e sofreguidão de subir a todo o custo, doa a quem doer.
Talvez a cultura pop actual seja responsável por muitos desastres: coloca-se ênfase no "quem não arrisca, não petisca" na "fama" no "glamour" na ostentação de bens materiais ou notoriedade sem valores (ou valor) subjacentes. Tudo acontece a uma velocidade tão alucinante que obter fortuna através de um golpe baixo, de um crime ,estratagema, burla ou escândalo - mesmo que toda a gente saiba - já não representa o mesmo estigma social. Afinal, amanhã já ninguém se lembra como é que aquele indivíduo ficou rico ou famoso. Nota-se mesmo uma admiração incontida pelos malandros espertalhões. Há apenas 100 anos, era socialmente mais desculpável matar (desde que por um forte motivo) do que roubar. Era preferível viver em genteel poverty, mas com um bom nome, do que sujá-lo em associações indignas. Um cavalheiro ou uma senhora sê-lo-iam sempre, mesmo que a tragédia os atingisse. Um malandro seria sempre um malandro, por mais que a fortuna o bafejasse. Hoje em dia, um figurão que lá tenha chegado através do crime, da prostituição velada ou da sabujice mais reles pode ousar- ou exigir -  ser  respeitado. Vivemos tempos de grande elasticidade moral, ou assim parece.

A exigência de um lugar ao sol é conhecida. O que é menos conhecido é que este se põe mal foi conquistado.
Karl Kraus

   Os malandros não são uma novidade do século XXI. Adulação, ganância, arrivismo, baixos instintos e falta de talento a par com ambição desmedida sempre existiram, embora dessem mais nas vistas e tivessem a vida dificultada: vivia-se numa sociedade estratificada; a instrução formal, os bastidores da política, da finança e das artes eram mais fechados; não havia reality shows, nem youtube, nem redes sociais; ser "cromo" não era um conceito vigente, muito menos aceitável; o ridículo era mais temível e o raio de alcance reduzido. Enfim, para o bem e para o mal existia um filtro que dificultava a mobilidade, a notoriedade e a ascenção vil ou legítima. Nos nossos dias as fronteiras entre o certo e o errado são ténues e as vias de acesso multiplicaram-se. O usurpador ou o vigarista de hoje tem menos trabalho - o que não significa que passe impune.
 Grosso modo, estes figurões dependem de si mesmos e são menos espertos do que se julgam.
 Veja-se o exemplo das cocottes: muitas eram celebradas apesar de vistas como imorais. No entanto, foram pouquíssimas as que não acabaram na miséria. Não é difícil chegar a algum lado - difícil é manter uma posição. Isso exige talento legítimo, uma educação de raiz, inteligência, savoir faire, um valor real. As ambições são belas quando estão de acordo com as qualidades; quando se aproveitam as oportunidades concedidas por mérito; e quando se está mais consciente dos deveres que dos privilégios. O resto resume-se ao estado de "sem noção", ao ridículo e a uma derrocada mais rápida que a subida. É matemático.

                     Aquele que se eleva nas pontas dos pés não está seguro. 

(Lao Tse)


Deixamos de subir alto quando queremos subir de um salto.

(Marquês  de Maricá)

4 comments:

Olinda Melo said...

Olá, Imperatriz Sissi

Um belo recanto de cultura este! Grandes momentos históricos e, ao mesmo tempo, demonstrando que a ambição desmedida não faz bem a ninguém...

Bj

Olinda

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada pelo seu comentário tão amável e por seguir aqui o cantinho, Olinda :). Espero partilhar mais textos que sejam do seu agrado. Beijinhos.

Marta Pinto de Miranda said...

Gosto da moral passada! sim senhora :)

um beijinho*
marta
marcasporamor.com

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Marta. Beijinhos :D

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