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Wednesday, April 25, 2012

O poder do silêncio

Tece, tece, princesinha!

Esta semana caiu-me nas mãos uma velhinha edição dos contos de Hans Christian Andersen, com a sua belíssima prosa original (muitas colectâneas que vemos por aí são adaptações). Entre as histórias do livro encontra-se The Wild Swans (de Vilde Svaner), a interpretação de Andersen de um antiquíssimo folk tale europeu, provavelmente de origem alemã, recolhido pelos irmãos Grimm. 
  Este sempre foi um dos meus contos de fadas preferidos:  misterioso, violento, escuro e assustador - como é, aliás, a maioria dos contos em versão original, não "adocicada" para a sensibilidade dos nossos dias.
 Pessoalmente, prefiro esta variante, aqui adaptada por Jim Henson. Consoante o local e o autor, os elementos da história e as reviravoltas do enredo mudam um pouco: ora há cisnes, ora há pássaros, patos ou corvos, em número de 3, 7, 6, 11 ou 12. 


Mas a essência mantém-se:
um rei bondoso perde a sua consorte e não querendo ver os filhos (vários príncipes e uma princesa) sem mãe, decide casar de novo. A escolhida é uma mulher encantadora, que rapidamente se revela uma bruxa má: o seu primeiro passo é livrar-se dos enteados. 
Isola-os numa casa de campo e faz um feitiço que transforma os rapazes - cujo número varia, como já vimos - em aves.
  A donzela consegue escapar para a floresta e é ajudada por um elemento sobrenatural ( em Andersen, a Feiticeira Morgana). Aí, a heroína fica a saber que para quebrar o encanto é necessário um sacrifício terrível:  terá de colher urtigas no cemitério, pisá-las com os pés nus e tecer com as próprias mãos uma camisa para cada irmão. Pior ainda, enquanto fizer este trabalho - três anos, três meses e três dias - não pode dizer uma palavra.
Aceita sem hesitar e no exílio, cumpre a dura prova com afinco. Os fantasmas do cemitério aterrorizam-na; as urtigas ferem-lhe os delicados pés e mãos até sangrar;  lágrimas silenciosas caem-lhe pela cara abaixo. Não pode lamentar-se, nem gritar, nem sequer rezar em voz baixa. Só a presença dos irmãos, que à noite regressam à forma original, a anima na tarefa. 
Vemos aqui fortes elementos mitológicos: a tecelagem esteve desde sempre ligada à magia, ao urdir do destino. Face à adversidade, longe da sua casa e exposta aos elementos, a protagonista assume o papel de Moira, ou Parca, fiando o curso da sorte.
  Um dia porém, quando está já adiantada no seu trabalho de fazer camisas, é encontrada por um grupo de caçadores. O mais belo de todos, que é o rei daquele país, apaixona-se loucamente pela desconhecida. Não sabe que está perante uma princesa - mas é conquistado pela sua beleza e vulnerabilidade. Apesar dos seus protestos silenciosos, leva-a para o palácio e casa-se com ela. A princesa ama muito o rei, mas não pode dizer-lho; e o casamento não é bem visto pela corte, que não aceita a ideia de ter uma rainha muda, de mais a mais com aquele estranho hábito de fiar urtigas...
 É aqui que nova intriga se arma contra a infeliz: os seus inimigos no palácio - em algumas versões, a madrasta que após a morte do primeiro marido, arranjara modo de enredar um novo rei, sendo agora sogra da princesa - acusam-na de bruxaria. Em segredo, substituem os filhos que vai tendo do rei ora por bonecos, ora por cães ou porquinhos, e culpam-na do mal feito. Bruxa! Sussurram em todos os corredores e aos ouvidos do real esposo. A rainha sabe que está perdida.
Meio louca de dor, caluniada por todos, aflita pela desconfiança crescente do marido e com vontade de morrer, a jovem rainha mantém o seu propósito: salvar os irmãos. Nada mais importa. Quando o amado a interroga, desgostoso, só pode olhar para ele com olhos suplicantes. Por fim, sem ter como se defender, é condenada à fogueira, para gáudio da populaça e dos seus inimigos. Quando tudo parece perdido, eis que as camisas estão prontas, os irmãos /cisnes surgem no ar e o encanto é quebrado. A verdade esclarece-se, o Rei pede-lhe perdão, os filhos são resgatados e a fogueira...bom, a fogueira está mesmo a jeito para queimar a vilã da história.
 Para além do ambiente sinistro do conto, o que sempre me encantou nele foi o exemplo de perseverança, coragem e união familiar a toda a prova. A princesa não usou palavras para se defender, nem para ganhar o amor do seu rei - manteve-se em silêncio, focada no seu propósito sagrado, com uma fé inquebrável. Quantas vezes o silêncio esconde as palavras mais belas, as realidades mais duras, os sentimentos mais sublimes - e fala mais alto do que muito palavreado...










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