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Friday, April 20, 2012

Titanic: presságios e histórias de amor



O desastre do R.M.S Titanic assombrou-me desde pequena devido à sua aura de navio fantasma, ao ambiente glamouroso, à época em que sucedeu (uma das minhas favoritas) ao mistério que rodeou a tragédia e sobretudo, aos milhares de dramas humanos entrelaçados - histórias cujos detalhes continuam a ser descobertos 100 anos depois. Devorava todos os livros, documentários e revistas que encontrava sobre o assunto (embora nunca me tivesse tornado numa especialista ou coisa semelhante). Principalmente se tivessem retratos. Os rostos de pessoas tão diferentes, que viajavam nas circunstâncias mais diversas e que reagiram à adversidade de formas distintas - muitas demonstrando uma coragem e cavalheirismo que hoje seriam impossíveis - fascinavam-me.
 Continua a comover-me a cena de Ghostbusters - que pretendia ser cómica - em que o Titanic finalmente alcança Nova Iorque. Por ter marcado a minha infância mas principalmente porque nada me atinge tanto como os momentos congelados no tempo, as coisas que ficaram por fazer, aquilo que nunca chega.




 
Os "mitos urbanos" à volta do naufrágio (muitos causados à época, devido à falta de informação nos primeiros dias, a mal entendidos e à imaginação de alguns jornalistas) são imensos. No entanto, é inegável que estranhas coincidências pareciam prever um destino funesto para o navio mais sofisticado do seu tempo. Estas são apenas algumas:


-  Leontine Aubart, mais conhecida por "Ninette" e amante do milionário Benjamin Guggenheim, recebeu a visita de uma amiga. Entusiasmada com o seu guarda chuva novo, Ninette abriu-o de imediato para lho mostrar. A amiga fez-se pálida e voltando-se para Emma Sägesser, criada de quarto de Mlle. Aubard, exclamou: "Sinto que vai haver uma desgraça. Por favor, tome bem conta da sua patroa". 

File:BGuggenheim.jpg
Benjamin Guggenheim

Pouco tempo depois, Emma e Ninette embarcavam no Titanic com Mr. Benjamin Guggenheim - e uma bagagem impressionante que contava 5 baús, um deles só para lingerie, no valor de mais de 12 000 dólares. Ambas sobreviveram, mas ele fez questão de enfrentar a morte "vestido como um cavalheiro". Sentou-se com Giglio, o seu valete, a beber whiskey e a fumar charutos como se nada estivesse a acontecer. " Nenhuma mulher há-de ficar a bordo por Ben Guggenheim se comportar como um cobarde" foram as últimas palavras que lhe ouviram.
- Ao contrário do que era costume, não se terá quebrado uma garrafa de champagne na inauguração do Titanic - um lapso tido como aziago. Ao que parece, tão pouco se respeitou a tradição de transportar gatos no navio - usados para afastar os ratos, mas também para trazer boa sorte. Não havia um único felino a bordo. No entanto, dois cães escaparam ilesos. A ser verdade, é espantoso como marinheiros (as pessoas mais supersticiosas do mundo) podem ter deixado escapar esses detalhes. Porém, há que observar que nesta época, tendia a acreditar-se menos em mitos e a confiar na ciência. Poderá ter-se feito fé na boa construção do Titanic. Depois do naufrágio, muitas ideias, crenças e procedimentos de segurança no mar foram reconsiderados...
Memorial em Cobh (antiga Queenstown, uma das escalas do Titanic)


- Em 1898, o autor americano Morgan Roberton escreveu o romance "Futility". Neste, o navio "Titan" cruzava o Atlântico em Abril, embatia num icebergue e não tinha botes suficientes para todos os passageiros, resultando numa perda enorme de vidas. Segundo o próprio, o autor era médium e recebia inspiração de "amigos astrais". Curiosamente, o livro estaria disponível numa das bibliotecas a bordo do Titanic. (Isto é o que eu chamo coincidência, bad juju e mau feng shui, tudo junto...).
- Em 1874, Celia Thaxter publicou um livro de poesia. Um dos seus textos, "A Tryst" descrevia o acidente que teria lugar 38 anos depois com impressionante detalhe.


- Mais estranha ainda é a história do espiritualista, escritor e repórter sensacionalista William T. Stead. Cerca de 20 anos antes, Stead publicara dois contos que descreviam o naufrágio de navios em circunstâncias muito semelhantes às do Titanic: num deles, a bordo do navio Majestic, precisamente da White Star Line (a mesma companhia do Titanic)uma médium é avisada por dois fantasmas do perigo de icebergue. O outro conto terminava em tragédia, com um aviso: " isto é exactamente o que vai acontecer se os navios forem enviados para o mar com botes salva vidas insuficientes". Ironia das ironias, o autor morreu a bordo do Titanic.



Mary Farquarson e Daniel Marvin, de 19 anos

Quando o filme de James Cameron foi anunciado entusiasmei-me, como me entusiasmo sempre que um tema preferido é levado às telas. Como é de imaginar, foi sol de pouca dura. O excelente figurino e a atenção ao detalhe não compensaram a titanicmania que se gerou, a histeria das adolescentes pelo Leonardo DiCaprio e a história de amor inverosímil, sem pés nem cabeça para o meu cérebro ainda em formação, mas já sem paciência para foleiradas. 
Não acreditava que alguém, de mais a mais naquela época, deixasse um noivo como Billy Zane para fugir com o amor da sua vida, por quem se apaixonou em três dias. Mas divago. A verdade é que houve  histórias de amor a bordo do Titanic, não menos trágicas e romanescas. 
Oficialmente, 13 casais embarcaram no "navio inafundável" em Lua de Mel, 9 dos quais em 1ª Classe. Apenas dois sobreviveram juntos. Metade dos jovens maridos pereceram no naufrágio.

Daniel Marvin (filho do fundador da empresa cinematográfica pioneira American Mutoscope) de 19 anos, embarcou na 1ª Classe do Titanic com a sua jovem mulher, Mary Graham Carmichael Farquarson, de 19 anos, de regresso aos Estados Unidos após a viagem de núpcias à Europa. Na noite da tragédia, colocou Mary (que esperava uma criança) no bote nº 10, dizendo-lhe : It´s allright, little girl. You go. I´ll stay. O seu corpo nunca foi encontrado. Em Novembro de 1912 nasceria a filha de ambos, Margaret.

    John Chapman foi a Inglaterra para casar com a sua namorada de infância, Sarah Elizabeth Lawry.  Escolheram a 2ª classe do Titanic para começar lado a lado uma vida nova em Fitzburn, Wisconsin. Esta seria  também a sua Lua de Mel. Após o embate, Sarah foi encaminhada para o salva vidas nº4, junto com a companheira de viagem Emily Richards. Porém, ao perceber que o marido não poderia acompanhá-la voltou para trás, dizendo: Goodbye Mrs Richards, if John can't go, I won't go either. Nenhum deles sobreviveu.

Lápide simbólica de John e Elizabeth Chapman.


 Adolf Dycker viajava com a sua esposa, Anna Lovisa, em 3ª Classe. Regressavam da Suécia aos EUA, onde estavam a construir uma casa. Tal como Daniel, colocou a amada a salvo, beijou-a e afastou-se para morrer. Adolf tinha apenas 23 anos.


Elizabeth e Adolf Dyker 






O Coronel John Jacob Astor, inventor, empresário, escritor (e o homem mais rico a bordo do Titanic) embarcou com a sua jovem segunda mulher, Madeleine Force. O casal vira-se forçado a passar uma temporada na Europa e no Egipto devido aos mexericos violentos provocados pela sua união: Jack , de 45 anos, era recém divorciado, um escândalo inadmissível para um cavalheiro de sociedade naquela época, e a noiva, de 19 (um ano mais nova que o filho do marido) já se encontrava de esperanças.
A única americana a bordo que não olhou o casal de lado foi Margaret Brown - que passaria à história como a inafundável Molly Brown. Acompanhou-os na viagem e por coincidência, foi obrigada a regressar à América ao mesmo tempo. Na noite da tragédia, JJ Astor ajudou Madeline a subir para o bote e perguntou se, dado o seu "estado delicado" poderia acompanhá-la. Disseram-lhe que não era possível enquanto houvesse mulheres e crianças em perigo. O Coronel ajudou então a pôr a salvo várias pessoas e foi visto pela última vez a fumar tranquilamente, acompanhado pelo jornalista Jacques Futrelle.



Victor e Maria
Após uma lua de mel que durou 17 meses, os jovens espanhóis Victor (sobrinho do primeiro-ministro de Afonso XIII, José Canalejas)  e Maria Josefa Peñasco y Castellana (de 24 e 22 anos respectivamente) decidiram à ultima hora embarcar no Titanic. Tinha sido uma viagem extravagante, a condizer com o lifestyle da Belle Époque e com a fortuna de ambos - que combinadas equivaleriam hoje a cerca de mil milhões de euros. 
Não faltaram mesmo, entre outras joias adquiridas neste passeio, um opulento colar com três voltas de pérolas e um alfinete com as mais raras gemas da época - que acabariam no fundo do Atlântico.  A mãe de Victor tivera um pressentimento que levou os pais dos dois a proibi-los de viajar por mar. O casal conseguiu iludir a vigilância deixando em Paris o seu valete, Eulogio, encarregado de enviar regularmente postais para casa como se Victor e Josefa ainda estivessem na cidade Luz - e embarcou acompanhado apenas da criada de quarto, a senhora Fermina Oliva. A desobediência teria um preço demasiado alto. Curiosamente, apesar de se terem deparado em Paris com tentadora  publicidade ao Titanic, os jovens pretendiam inicialmente viajar noutro navio, que partia mais cedo. Infelizmente, os bilhetes estavam esgotados: escolheram o Titanic. Quando se deu o desastre, Victor apressou-se a colocar a esposa e Fermina num bote. Ia subir também, mas cedeu o lugar a uma mulher com uma criança de colo. Josefa não voltaria a vê-lo.
 A Condessa de Rothes, sobrevivente que conviveu com o casal, relatou como este parecia apaixonado e feliz, captando a simpatia dos companheiros de viagem. Foi ela que confortou a jovem viúva a bordo do bote nº 8  - uma vez que esta estava inconsolável, não parando de chorar e chamar pelo marido - distraindo-a para que ela não ouvisse os gritos das vítimas, o horroroso som do Titanic a afundar-se. Um ruído descrito por vários passageiros como "uma montanha a desabar" e "um gigante e horrendo uivo humano em uníssono".    

    Pessoalmente,  este é o instante que mais me arrepia.








3 comments:

Anonymous said...

Não conhecia nenhuma destas histórias, mas confesso que a senhora que decidiu não ir sem o marido deixa a lagriminha ao canto do olho.

Mas para cortar um bocadinho com a tragédia, não me importava nada de ter também um baú repleto de lingerie, especialmente dessa época!

Imperatriz Sissi said...

É verdade, são histórias que comovem principalmente por serem casais tão jovens. Houve muitas outras mas escolhi aquelas que me marcaram mais...
Tenho a certeza que tu, tal como eu, ias delirar com os "tesouros" que ficaram perdidos no fundo do oceano. Muitos vestidos dessa época são perfeitamente "usáveis" actualmente, como sabes ;). Já não falo das jóias, dos sapatinhos, acessórios, etc...

Anonymous said...

Também adoro toda a história do Titanic, devoro tudo sobre este tema.

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