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Thursday, May 10, 2012

Catfight na carruagem de Luís XIV‏

Luís XIV (Samuel Theis)

A multidão de maîtresses en titre dos Reis franceses é uma colorida amálgama de nomes e peripécias, capaz de pôr à prova a memória dos mais empenhados curiosos. Entre elas, uma das poucas que considero respeitável e admiro francamente é a inteligentíssima e deslumbrante Diana de Poitiers, o grande amor de Henrique II (1519-1559). Não só era uma grande dama - por nascimento e por mérito - como soube sempre colocar-se no seu lugar, gerindo hábil e diplomaticamente as (justas, apesar de tudo) provocações de Catarina de Medici, senhora que ninguém gostaria de ter como inimiga.  Mas essa verdadeira e sincera paixão aconteceu numa outra época, em que o ideal do amor cortês, não deste mundo, ainda estava na moda...
Falar da vida pessoal de Luís XIV (1643-1715) e Luís XV (1715-1774) é um assunto inteiramente diferente: é necessário observá-las à luz do tempo e dos seus costumes. Este foi um tempo de sonho e pesadelo febril, dourado e frenético, em que ideias de tempos idos - naturalidade, simplicidade, varonia, suavidade - eram preteridas em prol do requinte, da graça de maneiras, da riqueza de linguagem, da subtileza e sagacidade de raciocínio e de um luxo elaborado. No caso da corte, isto traduzia-se numa complicadíssima etiqueta e num modo de vida alegre, mas claustrofóbico. Senhor absoluto, o Rei não tinha o mais elementar direito à privacidade. As suas tarefas mais íntimas eram asseguradas e observadas por cortesãos ávidos dos seus favores. Um passo em falso podia ditar a caída em desgraça. Numa época em que os jogos de poder político passavam oficialmente pelo leito real, os amores do Rei já não se tratavam de se agradar espontaneamente de fulana ou beltrana, e enveredar por um affair mais ou menos clandestino: as "distracções" reais tornavam-se um assunto de Estado, e como tal eram tratadas. A libertinagem estava instituída, com uma formalidade nunca vista.
A primeira paixão de Luís XIV foi a impetuosa Maria Mancini, que não passaria de um amor platónico. Seguiu-se Louise de La Vallière, uma jovem religiosa e tímida, colocada no seu caminho para contrariar os rumores de adultério do Rei com a cunhada, a bela e escandalosa Henrietta de Inglaterra. Ao longo de cinco anos, Louise terá sido mais uma amante secreta do que uma maîtresse en titre: não era extravagante, nem exigente. Por escrúpulo, recusou mesmo um casamento de fachada, prática comum para dissimular este tipo de ligações.


File:LouiseDeLaValliere01.jpg
Madame de La Vallière




 Mas a sua piedade religiosa - que lhe causava terríveis remorsos - e discrição (recusou-se a revelar ao Rei as relações da sua cunhada com o atraente Conde de Guiche) acabariam por ditar a sua queda em desgraça. Inimigos na corte levaram o romance aos ouvidos da Rainha, que passou a tratar Louise duramente. O escândalo público levou-a a ser temporariamente afastada. Porém, o pior estava para vir: por esta altura, Luís começava a interessar-se pela perturbante Madame De Montespan, que tanto Louise como a Rainha tinham considerado até então uma verdadeira amiga, e que era em tudo diferente de La Vallière. Louise reagiu inicialmente com lágrimas; mas perante o inevitável, quis afastar-se;  procurou por várias vezes refugiar-se num convento. Debalde: possessivo, controlador, o Rei não queria abrir mão dela e impediu-lhe os movimentos uma e outra vez. Podia já não lhe ser fiel, mas desejava mantê-la por perto. Para evitar mexericos - e as queixas do Marquês de Montespan, que queria a mulher de volta - o Rei exigiu inclusive que as duas rivais ocupassem os mesmos apartamentos. Quando viajava, obrigava as três mulheres da sua vida- A Rainha Maria Teresa, Mme. De Montespan e Mme. de La Vallière - a seguir na mesma carruagem. Podemos imaginar o ambiente prazenteiro destas jornadas...



Madame de Montespan

 Extravagante e caprichosa, Montespan chegou a pedir que a pobre Louise lhe servisse de aia. Mortificada, mas obediente ao ainda amante, Madame de La Vallière aniu com graciosidade. Incessantemente, fazia penitências e implorava a Luís XIV para que lhe permitisse deixar o palácio. Mas o monarca, se a cobria de presentes de consolação (concedeu-lhe o título de Duquesa e legitimou a filha de ambos perante o parlamento) parecia determinado a fazê-la sofrer todas as afrontas e humilhações. Quando foi obrigada a ser madrinha da primeira filha do ex amante com Athenais de Montespan, a sua saúde começava a dar sinais preocupantes. Foi a gota de água que fez transbordar o copo: em 1671, tentou fugir para o convento de Ste Marie de Chaillot, mas obrigaram-na, por ordem régia, a regressar mais uma vez. Só três anos depois lhe foi dada permissão para ingressar num convento Carmelita de Paris, com o nome Irmã Luísa da Misericórdia. Quando Madame de Maintenon (que viria a ser a mais querida companheira de Luís XIV) lhe perguntou se não receava os rigores da clausura, Louise respondeu, com mágoa, "quando estiver a sofrer no convento só terei de me lembrar do que me fizeram penar aqui para o sofrimento parecer leve". Antes de partir, ajoelhou-se aos pés da Rainha, pedindo "perdão público pelos seus públicos crimes". O trauma e os remorsos assombra-la-iam pelo resto da vida. Quando o seu  filho morreu, disse "choro mais pelo seu nascimento do que pela sua morte".   
 Anos mais tarde, quando já tomara os votos finais, a rival que lhe amargurara a existência, Madame de Montespan, viu os papéis inverterem-se, ao ser atormentada pela atrevida Madame de Fontanges. Athenais sentia agora na pele o que fizera sofrer Louise e Maria Teresa. O desespero leva-la-ia ao escândalo do "Caso das Envenenadoras" e ditaria o seu afastamento do Rei. Arrependida e infeliz, foi visitar a antiga inimiga - que lhe perdoou as afrontas e a aconselhou sobre os meios de procurar a Graça Divina.
 Louise nunca se arrependeu de uma mudança de vida tão radical. Segundo a própria, a sua fraqueza "não lhe trouxera alegrias algumas, mas apenas grandes desgostos". 
 A história não nos diz o que ia no coração de Luís XIV - mas sabe-se que as contendas que fomentava entre tantas mulheres lhe perturbavam a paz de espírito. Chegou a pedir a Mme. de Maintenon que o ajudasse a acalmar os ânimos exaltados das favoritas. A única que não lhe causou dissabores foi a legítima esposa, de quem disse " o único desgosto que me deu foi este" no dia da sua morte. 
 Mesmo vendo os factos à luz do seu tempo, interrogo-me se uma prisão dourada valeria sofrer tais torturas. Há coisas que não podem ser compensadas pelo prestígio, pelo luxo, nem pelas riquezas deste mundo...







12 comments:

Pedro said...

Luís XIV... isso sim, foi viver. (tempos em que a cornadura da rainha não só era recomendada, como obrigatória... ah, belos tempos...)

Imperatriz Sissi said...

Não acho. Era demasiado desarranjo e um ambiente horroroso para se viver. Embora houvesse a desculpa " ai coitadinho de mim, que não posso casar por amor" tudo tem limites. E sobretudo, obrigar a pobre pequena a ficar contra a sua vontade, quando ela tentava levar uma vida honesta, foi de uma crueldade sem limites. Há mulheres que não se importam de rastejar, suportar afrontas, andar à estalada umas às outras e pôr-se em bicos dos pés por um homem, porque gostam dele, ou por interesse. Há outras que não têm esse carácter e que preferem " ou César ou nada". Porque no fundo, Rei ou não, ele não merecia tanto descabelamento...credo. Antes saltar da carruagem - ou melhor, nunca ter posto os pés em tal inferno.

Pedro said...

Ela que se lixe. Excepto aquela tirada "O Estado sou eu..." foi um dos maiores monarcas da Europa. (fui aos 350 anos do casamento dele em Versailhes ahah.. gosto do homem, que se há-de fazer?)

Pedro said...

E foi o meu momento Pipoca mais Doce...

Imperatriz Sissi said...

Também gosto dele. Mas não falei dele como monarca, falei dele como homem, e nesse aspecto (neste caso específico, vá) esteve mal. Um fauno em Versailles...estou a imaginar o terror que isso deve ter sido. :D

Imperatriz Sissi said...

Hummmm...creio que a Pipoca prefere Manhattan. Ou as praias cariocas. Just my 2 cents here.

Pedro said...

Como homem era o maior. A única coisa que se aproxima é o ser estrela do rock n'roll. Deixa lá a pequena. Já ninguém se lembra dela.

Pedro said...

Não era isso. Dizer que lá fui, do nada e para nada. Prefere Manhattan? ahaha coitadinha desta gente...

Imperatriz Sissi said...

Prefere digo eu, porque nunca a vi escrever sobre história e coisas semelhantes. Posso estar enganada.

Imperatriz Sissi said...

Sem dúvida, mas que queres? Acredito que um Rei deve dar o exemplo, ou tentar, pelo menos. E quantos há que não são reis, nem perto disso, e se comportam assim? Têm a mania que são os reis da cocada preta, isso sim, e as mulheres que não prestam alimentam-lhes as ilusões...é triste.

S* said...

Fazer a outra de aia? Mas que tentativa de humilhação...

Imperatriz Sissi said...

Sim, foi mesmo mauzinho. De uma pessoa fugir nem que fosse de pantufas...

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