Recomenda-se:

Netscope

Saturday, May 5, 2012

Crianças, birras e bom senso

Catherine Zeta Jones Actress Catherine Zeta Jones (R) arrives with her husband, actor Michael Douglas and their children Dylan and Carys Douglas, to attend a Royal Investiture at Buckingham Palace on February 24, 2011 in London, England. The 41-year-old Swansea-born actress Catherine Zeta Jones, who became an Oscar-winning Hollywood star was presented with a CBE by Prince Charles, Prince of Wale in honour of services to the film industry and to charity.
Catherine Zeta Jones e Michael Douglas com os filhos, Dylan and Carys Douglas, no Palácio de Buckingham: um amor!
Ao ler este post da Pipoca Mais Doce fiquei absolutamente chocada  com o teor de alguns comentários. Se intervieram muitos pais equilibrados e sinceros nas suas respostas, outros houve que recorreram ao insulto, à ameaça e à má criação maldosa. Tenho mencionado várias vezes que se passou de um extremo ao outro, e que actualmente a questão "crianças" é sagrada, intocável. Pior: muita gente fica histérica à mais leve menção de que alguém possa ter uma visão mais distanciada e racional no que concerne à educação dos filhos.
Pelos vistos, na velha Albion - pátria da rigorosíssima e temível educação à inglesa, com água fria e bordoada- os fundamentalismos do politicamente correcto também já se instalaram. E por cá, não se pode tocar no assunto que não venha o chavão "quando tiveres os teus vais ver!" ou a ameaça "era o que faltava, alguém avisar os MEUS filhos" que servem para tudo, principalmente para dar largas à má criação dos pais.
Pela parte que me toca, duvido que "vá ver" se tiver filhos, por um motivo muito simples: os meus pais eram bastante jovens quando  nasci. Com 28 anos já me tinham a mim e ao meu caro irmão ( cada um uma peste no seu próprio estilo) e responsabilidades que ainda não me passam pela ideia. Ambos fomos extremamente mimados: em afecto, em brinquedos e outros bens materiais, na relação próxima e espontânea com pais e avós, na autonomia para desenvolver e expressar ideias. Gostávamos de conversar com os adultos e era-nos permitida uma liberdade nas brincadeiras que vejo muito pouco hoje em dia. O que não tem nada a ver com indisciplina e atrevimento, coisas que pura e simplesmente não eram toleradas - ponto final. Lá em casa sempre se acreditou que as crianças não são idiotas, logo, não devem ser tratadas como tal com a desculpa "são miúdos".
Na minha família, as regras eram as velhasas crianças são para ser vistas, não ouvidas. Uma criança fala se os adultos se lhe dirigirem. A partir do momento em que é capaz de articular as palavras correctamente, acabou-se a fala à bebé.  Deve ser amável e responder quando lhe perguntam, em vez de fugir com o dedo na boca como uma parvinha. Acanhamento ou ousadia em excesso devem ser corrigidos. Os avisos e pedidos são feitos em privado. Dá-se prioridade aos adultos e às pessoas de idade. Não se permitem queixinhas nem amuos. Não se aponta nem se fazem perguntas embaraçosas. Não se corre em locais públicos, não se salta para cima das pessoas. Em casa dos outros, não se pedem coisas nem se mexe em nada. Uma criança que já se expressa, mesmo que seja pequenina, tem de dizer " por favor", "dá-me licença?", "não se importa?", "posso?", "muito obrigada", "faça o favor", "desculpe", "muito prazer" e "não, obrigada". O ser humano precisa de ser educado para não incomodar os outros e isso só funciona começando de pequeno.
Quer isto dizer que nunca fizemos birras? Claro que não. Podemos minimizá-las mas evitá-las de todo é impossível, embora haja crianças mais atreitas a isso do que outras. Ou porque está cansado, ou com fome, ou com sono, ou doente, acontece. O que se pode - e deve fazer - é minimizar a possibilidade de explosões em público e em caso de calamidade à vista, resolver a questão discretamente .

Ignorar uma birra pode funcionar - mas é uma estratégia a adoptar em casa, onde a gritaria não incomoda estranhos. E já não falo de ralhos in situ, que são um atentado à dignidade.  Há que distinguir a educação de uma criança, que é um assunto relativamente privado, do saber estar em público. Nesse caso já não está em causa a boa ou má criação da criança, mas a dos pais. A única coisa civilizada a fazer é afastar o diabinho e tranquilizá-lo (recorrendo a um sermão, um abraço, uma ameaça de castigo, uma conversa ou um açoite discreto, consoante o caso). Só então se regressa para junto das outras pessoas.
Sou da opinião que há certas reuniões sociais, ou certos locais, em determinados horários, que não devem ser frequentados por crianças, que se aborrecem ou cansam facilmente. Não percebo pais que levam bebés para jantaradas de três horas e perante uma birra quase inevitável ficam surpreendidos, dão -se ao luxo de a ignorar e ainda esperam que pessoas que pagaram bem para ali estar não se sintam incomodadas, ou achem graça ao pobre anjinho. É constrangedor para quem assiste e desconfortável para o pequeno. (Já me aconteceu assistir a situações dessas e pedi pura e simplesmente ao responsável que me arranjasse outra mesa, a  bem dos meus tímpanos).

A introdução social de uma criança deve ser gradual. Havia festas e jantares a que não íamos, principalmente se não havia outras crianças presentes. Em nossa casa, nas ocasiões especiais, muitas vezes armava-se uma mesinha em miniatura (numa saleta à parte, ou ao lado da mesa dos adultos) para que recebêssemos os nossos próprios convidados sem chatear os crescidos.  Eu sentia-me muito grande e importante com isto.
 Para as vezes que jantávamos com os adultos (a não ser em situações de maior formalidade) fomos treinados para pedir licença para nos retirarmos logo que acabássemos a refeição. Nunca saíamos da mesa sem pedir autorização educadamente, mas também não éramos obrigados a estar feitos estátuas e em modo-birra-em-curso. Nas vezes em que as birras aconteceram mesmo (recordo-me de uma vez, tinha eu três anos, que embirrei que queria um estojo de desenho profissional que vi na papelaria, e de outra em férias, com 9 meses, em que foi preciso levarem-me para fora do restaurante) o remédio era esconder-nos, por muito incómodo que isso representasse. Por vezes deixava-se de tomar a refeição em paz, ou de aproveitar a festa, para que os restantes presentes - que não são responsáveis pelos filhos dos outros - o pudessem fazer, como tinham direito.
 E se eu me portasse mesmo mal, estou certa que como pessoas razoáveis, os meus familiares não iam ficar ofendidos se alguém me avisasse, desde que educadamente. Um shut the f*** up! nem pensar, mas um "vamos lá a acabar com isso" era decerto muito bem vindo. Haja humildade e empatia para com os outros, que uma pessoa não se torna um ente sobre humano só porque pôs crianças no mundo. Que mania.

12 comments:

Pedro said...

O melhor é começar a dar-lhes álcool bem cedo. Para dormirem melhor.

Imperatriz Sissi said...

Credo! Estás a imaginar montes de criancinhas bêbedas a correr aos zigue zagues pelos shoppings portugueses? Tínhamos o Apocalipse!

Pedro said...

Antes darem-lhes vinho do que as drogarem com televisão e consolas. Mas pá, fui lá ver o blogue dessa pipoca. Ela só escreveu isso para dizer que foi a Londres ahaha o povo agora que viaja está ainda mais encantador...

Imperatriz Sissi said...

"Povo que viaja"...lovely :) Está feito um Lord Henry!

Pedro said...

Não gosto do Wilde. Quer dizer, gosto do De Profundis :)

Pedro said...

(vê lá mas é se vês o teu e-mail que hoje estou ainda mais chato ahah)

Imperatriz Sissi said...

Oh, que pecado :O

CrisTalQuartz said...

Cara senhora, dei com o seu blogue o que me pareceu de grande sensibilidade e bom sensoo. Gostei dos conteúdos pelo que muito provavelmente me encontrará cá de novo. Porém, não posso deixar, se me permite, de lhe fazer um pequeno reparo: seleccione mais criteriosamente os comentários de certa "clientela", pois os que acabo de ler para aqui são de uma infelicidade pedante... Quero dizer, verboses diarréicas disfarçadas de "comments" tais como os que se vêm neste mesmo "post" de um qualquer triste metido a besta só lhe trazem má freguesia. E ora, vejo que este recanto merece bem melhor! Quis comentar, mas tamanha "bad vibe" tipica de mal-amados, "pseudos-intelectuais" de pacotilha dissuadiu-me, entenda-se. Com todo o respeito a si, os meus melhores cumprimentos.

Imperatriz Sissi said...

Prezado (a) CrisTalQuartz

Dou-lhe as boas vindas e desde já, obrigada pela sua visita e por apreciar o blog. Agradeço também o amável comentário e compreendo a intenção do seu reparo, dado que as opiniões de cada um e a forma como são expressadas nem sempre estão em harmonia com a sensibilidade de outros leitores. Este blogue tem uma linha editorial (que procura precisamente reger-se pela subtileza e bom senso a nível da linguagem) e moderação de comentários, pelo que textos de conteúdo insultuoso, indecente ou com vocabulário menos adequado não serão publicados. No entanto - sempre que dentro dos limites do razoável- as pessoas são livres de dizer o que pensam, e determinados visitantes têm pareceres (ou formas de estar) mais veementes e/ou formas mais acutilantes, brincalhonas ou mordazes de os colocar. Relativamente ao comentário sobre a Pipoca, a quem respeito, não o censurei porque ela própria permite dizeres bem mais desagradáveis no seu próprio blog (como deve ter compreendido se leu o post dela que deu origem a este) .
Espero que isto não o (a) impeça de passar por cá mais vezes.

Atenciosamente

Sissi :)

CrisTalQuartz said...

Caríssima menina Sissi :)

Agradeço sobejamente a elegante e sóbria resposta, que acaba por repor uma certa ordem, correcção e civismo que na minha opinião (- valha-nos os “blogues” para que cada qual regurgite a sua -) temo que neste "post" (tanto quanto me foi dado a ler por aqui, ainda) se começava a perder...
Apesar de alguma “má rés” que detectei em alguns dos frequentadores deste blog (e se há coisa que eu não tolero são seres “humanos” apenas na morfologia mas insectos no “miolo” / conteúdo), saiba que com certeza voltarei a consultá-la por ter sabido adequar-se a um ser humano digno desse nome (acredite, sei do do que falo...). :)
E por falar em alguma “sabedoria” (sabe, posso dizer que já tenho alguma autorIDADE...), permita-me uma vez mais (e prometo que me fico por aquí, pois compreendo que talvez não valha a pena estender mais esta questão no seu espaço) que amigável, serena e despretensiosamente lhe advirta do seguinte: gente que profere os comentários que aquí vi proferidos é no mínimo cretina. Cada qual chama-lhe o que quiser (acutilante? Brincalhão? Maneira de estar?), mas bem espremido e no fim do dia o melhor epítoto é só este : cretinice pura e dura* (explicito melhor, em baixo, sff) . É gente que suga a energía vital das pessoas para tentarem sanar as suas próprias depressões profundas. Não sabem SER por si mesmos, e não GOSTAM de ninguém (por nao se suportarem sequer a si mesmos). Apenas querem o prazer (masturbatório-pseudo-intelectual) de sentir que “possuem” a atenção de pessoas que eles sabem serem dignas desse nome. Acoplam-se ao tempo e benevolência da pessoa e desgastam-na o mais que podem. Peço desculpa pela sinceridade, mas sinto que vivemos tempos em que já não vale a pena “engolir-se” o que quer que seja. Mesmo que sejam impressões, sensações por aquí ou por ali... e a minha vida tem sido pautada pela partilha e pela virtude. Já vi filhas e netas sofrerem por escroques desta “estirpe” e só se perdem as bofetadas que não se lhes deram... Mas como fogem da vida real, da verdade (e de uma boa terapia) como o diabo foge da cruz, vêm para a internet contaminar o ambiente... enfim, perdoe-me, uma vez mais, qualquer coisinha. Agora que já “deitei tudo cá para fora”, creio que vou menos engasgado (risos risos). E como lhe disse, espero voltar! Uma boa noite e até sempre.



*Significado de Cretino
adj. e s.m. Que ou aquele que, por deficiência mental ou orgânica, padece de incapacidade mental ou moral; retardado ou débil mental.Fig. Pessoa estúpida, imbecil, idiota; debilóide.Sinónimos: lorpa, otário, pacóvio, papalvo, parvo, pascácio, pato, sonso, tanso, tantã, toleirão, tolo e tonto

Imperatriz Sissi said...

Prezado Senhor,

Não tem de quê. Eu é que agradeço o seu gentil comentário. Os cavalheiros são sempre bem vindos a este espaço, de mais a mais quando se pautam pela virtude, que nos dias que correm tão maltratada é. A sua opinião é bem acolhida e estou plenamente de acordo consigo quanto à necessidade de não reprimir os nossos pensamentos. Procuro sempre não afrontar os outros mesquinhamente, mas jamais me coibiria de contestar uma opinião que me ofende só para ser agradável. Nisso sou menos "bota de elástico" e tradicional do que noutras coisas, que a amenidade é importante, mas não é tudo...
Por vezes as pessoas sentem necessidade de falar, de ventilar o que lhes vai na alma. Pelos mais variados motivos. Como já lhe contei, modero os comentários porque não permito no meu blogue nada que faça corar senhoras (creio que vou passar a colocar esse aviso na caixa de comentários) nem seja ofensivo, brejeiro ou de mau gosto. Já o tenho dito, este blog não é uma democracia e embora não goste de ser indelicada, também não estou disposta a condescender com liberdades que possam roçar a indelicadeza. Sempre que dentro dos limites da sensatez, os comentários serão publicados. E embora eu prefira que o blog prime pela elevação e subtileza, há leitores que têm uma forma mais crua (ainda que dentro da educação) de se explicar. Se apesar disso manifestarem um ponto de vista válido , mesmo que diferente do meu, e escreverem com algum estilo e correcção, muito bem. Sou amiga de muita gente que não pensa como eu.
Também estamos de acordo em relação a longos debates: tenho-o dito muitas vezes, não se chega a nada com isso e é uma canseira. Não sou dotada, nem nunca fui, de paciência para discussões polémicas, principalmente se não tiverem utilidade prática. Raramente me dou ao trabalho de lançar pedradas no charco se alguém publica um post sobre um assunto que eu despreze, por exemplo. E não gosto de perder tempo e neurónios a bater no ceguinho. Muito menos procuro que mudem de ideias, mas tão pouco receio que me influenciem. Quem tem fé nos seus valores não vacila só por ouvir teorias diferentes! Porém, quando um parecer deixa de se limitar à esfera da liberdade individual, e as opiniões são enunciadas como se de factos se tratassem (de modo que choquem com crenças ou valores meus e de leitores que por aqui passam) aí sinto-me na obrigação de as rebater com alguma energia, quanto mais não seja para deixar clara a minha posição acerca do assunto.
Relativamente a homens maldosos, lamento que meninas e senhoras da sua família se tenham visto nessa posição: nunca as mãos lhe doam! Se começássemos a falar dos desafios que uma mulher de bem enfrenta hoje em dia, dos equívocos provocados por uma certa flexibilidade de costumes que as pessoas não sabem gerir, ia ser precisa longa correspondência. Alguns desses problemas já têm sido analisados aqui, pode vê-los se procurar os posts com a etiqueta "comportamento". De qualquer modo, fico grata pela sua intenção de "velar por mim".

Melhores cumprimentos

Sissi

sarasilva said...

gostei muito de ler este post, Sissi!
sem dúvida que a educação das crianças é um tema muito sensível e infelizmente há muitos pais sem noções de como educar os seus filhos.

eu não me quero alongar muito neste assunto porque não tenho filhos e cada caso é um caso, mas há situações que penso poderem ser feitas de oura maneira. por exemplo: ainda no outro dia fui jantar a um restaurante mais ou menos formal aqui em Leiria. na mesa ao lado estava a jantar um grupo de mulheres do qual, pelo que percebi, fazia parte a dona do restaurante, amigas, filha e neta. esta última, com cerca de 2 ou 3 anos, andava alegremente pelo restaurante a cantar e a brincar sozinha e, por vezes, até se deitava no chão. isto, a meu ver, não é muito correcto, mas também não é totalmente errado, visto que ela não estava a incomodar ninguém no sentido de não estar a fazer muito barulho ou a aproximar-se das pessoas. entretanto noto que ela começa a perguntar pela avó e a mãe ignora-a, estando mais concentrada na conversa que lá se passava na mesa. a criança continua a insistir e todas se levantam da mesa para ir embora e a mãe, do nada, e mesmo em frente à mesa onde eu estava sentada, começa a dar um valente sermão à criança, devido ao seu comportamento lá no restaurante, e o que acontece é que ela começa a chorar e a berrar e aí sim é que perturba as pessoas com o seu comportamento.

eu fiquei em choque com aquela atitude: primeiro porque é muito de mau tom fazer aquilo à criança em pleno restaurante e já quando se encontravam de pé, e depois porque a menina não tinha estado a fazer nada de errado, apenas tinha encontrado uma forma de se entreter sozinha já que as adultas estavam todas demasiado focadas na sua conversa.

enfim, assusta-me pensar que há muitos mais casos destes porque sem uma educação em condições, como é que estas crianças se hão-de tornar adultos equilibrados?

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...