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Sunday, May 20, 2012

Days of our lives

Nicola Roberts
Há dias, um bom amigo recordava com saudades os tempos de estudante. Eu nunca tive muito empenho nisso: valeu o que valeuA bem dizer, nunca fui uma estudante despreocupada e tonta, sempre tive o detestável passatempo de pensar demais e de descartar o acessório. Apesar de prezar a estabilidade e a segurança nos aspectos importantes (família, afectos, carreira) em tudo o resto sou uma pessoa de viver o presente  - e na minha vida sucedem-se sempre tantas coisas em simultâneo, algumas delas tão extraordinárias, que acabo por apreciar cada divertimento com certa desconfiança blasé, vulgo " estou mesmo a ver que no que isto vai dar" "trazes alguma na manga" ou " isto ainda não é bem aquilo que eu quero, não está perfeito" numa insatisfação artística, como se houvesse sempre algo de melhor e mais fantástico ao virar da esquina (e na maioria das vezes, há mesmo) a exigir a minha atenção.

 Valorizo cada instante feliz, mas não me agarro a ele, o que pode parecer contraditório. Por outro lado, fujo da nostalgia como da peste porque é das poucas coisas que tem o condão de me fazer chorar. Não acho piada a retrospectivas, a efemérides das quais eu faça parte directamente, de olhar para trás, ainda que não lamente o que passou nem tenha sucedido nada de triste. O que lá vai, lá vai, venha mais. Sinto-me impotente e parte-se-me o coração só de contemplar o passar do tempo, mesmo que seja um passado recente. Para terem uma ideia, a canção "These are the Days of our lives" dos Queen, é coisa proibida perto de mim. Nunca fui capaz de a cantar em público, apesar de a considerar uma dos temas mais belos que já se escreveram. Recuso sempre porque é choradeira na certa. Pode ter-me acabado de sair a Sorte Grande, mas se ouvir tal coisa tremem-me os lábios, começo a morder as bochechas a ver se me controlo e dali a nada soluço como uma criancinha, sem que nada me possa consolar. Go figure. Em suma, o meu amigo estava melancólico com isso e eu não aguento a melancolia, que dali à nostalgia vai um passo e isso é contagioso, credo. E como não suporto ver ninguém triste, fiz ali uma promessa: que nos havemos de divertir tanto a partir de agora, ou mais - de preferência - do que há um par de aninhos atrás. Nada nos impede. Temos  o mesmo espírito, pouco do essencial mudou- mas com outra patine, outro savoir faire, mais sprezzatura e diferentes possibilidades para aplicar o nosso joi de vivre. Beleza, risos, alegria, música? É agora, nem mais cedo, nem mais tarde. Os bons momentos dão algum trabalho, precisam de ser alimentados para que se possam multiplicar - não voltam, mas podem ser melhorados e reinventados. Águas passadas não movem moinho e como dizia Tolkien, " Nenhum barco, nenhum remador; o que deixo para trás não dou como perda" . O que pertence ao nosso destino rema até nós, ao sabor da corrente. O resto apenas faz, ou fez, parte do cenário.

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