Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, May 15, 2012

Uma revolta de "it girls" na Roma Antiga



Apesar  de as mulheres romanas gozarem de direitos e liberdades apreciáveis  - que foram aumentando ao longo dos períodos da República (509 a.C- 27 a.C) e do Império (27 a.C - 476 d.C) - era socialmente esperado que cingissem o seu papel aos bastidores, pelo menos na aparência. Uma cidadã romana devia ser um modelo de virtude, elegância e modéstia, demonstrando uma graciosa obediência perante o pai e o marido. De uma maneira geral, era isso que acontecia – mover os cordelinhos às ocultas era o suficiente para as mulheres de famílias poderosas e fazia parte do modus operandi feminino. Porém, houve excepções à regra e o protesto contra a Lex Oppia (195 a.C) foi uma delas. Talvez porque a paciência de uma mulher é longa, mas tem limites. Ou porque esta lei interferia precisamente em "coisas de mulheres": mais concretamente, em assuntos de modas e elegâncias.


 


A Lex Oppia (ou Lei Ópia) foi uma medida económica criada no auge Segunda Guerra Púnica* (218-201 a.C) para dar resposta às dificuldades financeiras causadas pelo esforço bélico após a catástrofe da Batalha de Cannae. Esta medida impôs uma série de restrições não só na posse de riqueza, mas também nos seus sinais exteriores, e viria a delinear a moldura legal para futuras leis sumptuárias. A Lex Oppia (por ter sido instituída por Gaius Oppius, tribuno dos plebeus) criou uma série de limitações supostamente temporárias no comércio e uso de bens de luxo. Uma vez que tantos homens tinham perecido na guerra, muitas mulheres tinham herdado os seus bens e por isso, viram condicionado o uso do seu próprio dinheiro, que ficava de certo modo “à guarda do Estado”: Só podiam possuir determinadas quantias e jóias, estavam proibidas de usar roupas requintadas e de cores garridas (nem mesmo a púrpura em período de luto) e não lhes era permitido circular dentro da cidade em veículos atrelados a não ser em festivais religiosos, entre outras regras que procuravam impor uma certa severidade de costumes.

 A início, esta austeridade foi acatada com zelo patriótico, provocando poucos protestos. No entanto, com o final do conflito e o regresso da paz e da abundância, a sua revogação ou preservação gerou acesos debates.

 Desta feita estava em causa o que era moral e socialmente desejável, mais do que preocupações de ordem económica. Alguns, como o severo Catão, desejavam combater a extravagância, sustentando que a ostentação convidava à ganância, à dissipação das fortunas pessoais e à corrupção "é necessário conhecer as doenças antes dos remédios; as paixões nascem antes das leis destinadas a refreá-las". A indulgência e o luxo também eram vistos como prejudiciais às tradicionais virtudes militares.

  Outros, como o tribuno Lúcio Valério, defendiam a necessidade de acabar com uma lei que ia contra a ancestral elegância feminina ...a elegância, as tinturas, as roupas, eis as insígnias das mulheres, eis o que faz sua alegria e sua glória." Lúcio acrescentou ainda que as mulheres romanas sempre tinham sido sensatas, e que esta era uma lei disparatada em tempo de prosperidade.
      Ideologias à parte, a verdade é que fora da cidade de Roma, há muito que mulheres tinham voltado ao seu antigo modo de vida. Nas cidades vizinhas era-lhes permitido empregar o seu dinheiro como bem entendessem, passear de carruagem e usar as roupas luxuosas que há tantos anos não eram vistas na Capital. Pior ainda: aos homens dentro das portas da cidade não eram impostas restrições semelhantes. As senhoras de sociedade tinham dado o seu contributo para o esforço de guerra, tinham lidado o melhor que podiam com o “chic pauvre” – agora estavam cansadas de modéstia. Queriam de volta as suas heranças, os seus adornos e toilettes elegantes! Ainda aguardaram pacientemente o desenrolar dos acontecimentos, como convinha a matronas e meninas de comportamento apropriado. Porém, vendo que as negociações se inclinavam para a preservação da detestada lei, decidiram agir, contra os costumes que ditavam que uma mulher não devia ser demasiado vista em público, quanto mais intervir publicamente.
 Perderam a vergonha, reuniram-se e saíram à rua em protesto. Roma nunca vira coisa igual! A multidão compacta de mulheres aumentava de dia para dia à porta do Fórum, bloqueando a entrada: mais e mais se juntavam, vindas dos arredores, muitas à revelia dos maridos, entupindo as ruas, atrapalhando o trânsito, atrevendo-se a subir as escadas para interpelar os cônsules, magistrados e pretores que, assarapantados, tentavam entrar ou sair. Colocavam-se junto aos tribunos que tentavam vetar a revogação da Lei e não os deixavam em paz, com imprecações e apupos, até que retirassem o veto.
 Nem os acesos discursos de Catão, que ralhou contra “ a liberdade ameaçada pela fúria feminina” as demoveram. “ Não controlámos as mulheres dentro de casa, e agora tememo-las em grupo!” disse, furioso. “Corei quando vi isto. Que comportamento é este? A correr por aí em público, a bloquear as ruas, a falar com os maridos das outras! Não podíeis ter pedido aos vossos maridos o mesmo em casa? Sereis mais encantadoras e persuasivas na rua, em público, com os maridos alheios? E de qualquer modo, o que aqui se passa não vos diz respeito!”. Mas o discurso foi em vão: a insistência do mulherio foi tal que os tribunos sabiam à partida que tinham perdido a batalha. A Lex Oppia foi revogada nesse ano de 195 a.C como resultado do protesto feminino – prova provada que é muito má ideia intrometer-se entre uma mulher e os seus arrebiques.






4 comments:

Anonymous said...

Muito boa a história de Roma
história que reflete no nosso
presente
bela narrativa
com doses de poesis
e romance

Luiz Alfredo - poeta

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada por seguir o blog, Luiz! Sou realmente apaixonada por história e provavelmente aparecerão por aqui mais posts sobre esse período :).

Anonymous said...

As coitadas já eram privadas de tanto, que privá-las da beleza que conseguiam com as suas roupas e jóias era pedir demais.

Gosto tanto de vir ler o que escreves que só tenho pena de não haver mais tempo para vir mais assiduamente e para tu escreveres mais!

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Flor, same here ;) . É curioso, de facto...creio que as mulheres romanas de classe alta, tendo a maior parte dos direitos assegurados e intervindo politicamente às ocultas, não se ralavam com aspectos públicos como o voto. Para quê? Tinham as carreiras dos maridos para manobrar e casas cheias de escravos para dirigir. Ao fim de anos a aturar restrições tão injustas e pessoais, chatearam-se...nós mulheres sabemos que é muito difícil fazer "omeletes sem ovos" por muito adepta do estilo clean que se seja...
Beijinhos.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...