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Wednesday, June 6, 2012

Má educação passiva, parte II - os maus, os vilões e os perigosos

"Essa mulher é minha, ó franganote!"
               
E no seguimento do post de ontem, vamos analisar os dois piores tipos de pessoas chatas: 

    O (a) invejoso (a) maldoso (a)

Retrato robot: Manhoso e mal-intencionado, pode surgir na forma de um falso amigo que inveja a sua boa sorte, de alguém que gosta de deixar mal os outros porque não tem nada melhor para fazer ou de um amigo/primo/colega que até gosta de si mas sofre de ciumeira crónica ou temporária. (Oscar Wilde dizia que é fácil ser solidário com a desgraça dos amigos, difícil é ser solidário quando eles têm sucesso). O tipo pior, porém, é um (a) rival não declarado: alguém que cobiça o seu lugar, parceiro ou emprego e trabalha activamente, nas sombras, para lho tirar sem no entanto deixar claro que é isso que quer. Este papel também pode ser desempenhado indirectamente, por aliados, amigos ou familiares do invejoso, que assim passa por santo enquanto contempla a sua obra de destruição. De qualquer modo, esta é das formas de má criação passiva mais desagradáveis e dolorosas. Quem o faz procura, sob uma capa de simpatia, ferir, desorientar e magoar os outros – e o que é pior, tirando-lhes a capacidade de se defender. Ou seja, destila veneno parecendo amável, de modo a que o seu alvo, embora sentindo a ferroada, não possa contra atacar sem chamar a atenção e passar por mal-educado. Um Invejoso Maldoso utiliza diversas técnicas para desmoralizar a presa. Pode abordá-lo no intuito de fazer de si bicho de circo – enchendo-o de perguntas sucessivas e embaraçosas na tentativa de o rebaixar, colocar mal ou  encontrar alguma falha ou ponto fraco. Muito provavelmente atacará os aspectos da sua vida que sabe estarem menos bem, e geralmente faz isto à frente de pessoas que a vítima conhece mal ou perante quem não convém armar questões. Como consegue fazer as suas perguntas parecer inofensivas, só quem está envolvido compreende a agressão. Outra jogada é, ao encontrar o alvo, aproximar-se (por vezes fisicamente, abraçando-o como uma cobra ou encurralando-o discretamente) e dar-lhe elogios ou palavras de simpatia/solidariedade que não soam como deveriam. Eis alguns exemplos:

1 - Uma “amiga” a outra: “Quem te viu e quem te vê! Estás tão magra/bonita/rica…tu que eras assim e assado…”(tentativa de inferiorização pura e dura; quem quer de facto elogiar não precisa de recordar aos outros os seus defeitos; antes terá o cuidado de não melindrar ao notar uma mudança grande, do estilo: “estás tão magrinha! Que tens andado a fazer? Vê lá não exageres, que assim estás muito bonita. Também quero!”. Todas as pessoas sabem o que gostariam de ouvir e o que magoa – não se deixe enganar. Pior ainda, demonstrando preocupação com o seu bem estar, podem chamar-lhe a atenção para um pormenor que até então lhe passava despercebido, ou que você espera que ninguém aponte. Não para resolver nada, mas para agredir gratuitamente, do género “meu, estás a ficar careca! És tu e o meu primo Albano…”. A má criação é maior quanto menos íntima de si a pessoa seja.

2 – Um colega que vem com ar de compaixão dizer “ Vê lá que fulano, beltrano e sicrano ficaram furiosos com a tua promoção e passam a vida a dizer horrores de ti…toda a gente te critica. Digo isto isto porque  sou teu amigo, claro…” quando as atitudes das pessoas citadas não confirmam essa informação. Ou um “amigo” que lhe vem contar uma maledicência a seu respeito que não interessa nem ao Menino Jesus, só para o ferir: “ fulana e sicrano (que você nunca viu) detestam-te porque…”. Qual é a necessidade?

3 – Uma amiga (o) do seu (sua) (a) namorado (a) ou marido/mulher que por acaso tem atitudes de demasiada proximidade para com ele (a) como se você não estivesse lá ou pior, procurando isolá-lo (a) de si fisicamente. Só isto, para começar, é um indicador de falta de respeito. Ser “espalha brasas” e “à vontade” não é desculpa – a pessoa em causa está claramente a abusar da sua boa educação, esperando que não arme cenas de ciúmes. E se armar, tanto melhor pois terá pior de si para dizer. Outras manobras incluem chamar a atenção dele (a) para os seus defeitos com muita subtileza, e nas costas dele (a) procurar demonstrar-lhe, a si, o quão chegados são, inclusive contando coisas privadas que ele (a) lhe revelou. Isto na tentativa de provocar insegurança e discórdia, ao mesmo tempo que demonstra “partilhamos coisas que não têm nada a ver contigo. Estás de saída”.

4 – Um conhecido que vem elogiar a sua última vitória profissional/carro novo/namorada nova, terminando invariavelmente com um “mas” ou um “só é pena” seguido de um “detalhezinho” que lhe estraga logo a alegria. Maldade!

Técnica de combate: Pessoas assim são cobardes. Abusam do factor surpresa para deixar as vítimas atrapalhadas e agem convencidas de que não vai retaliar. Surpreenda-as!

 A primeira abordagem, caso o chato esteja a enchê-lo de perguntas, é desatar a fazer-lhe perguntas também. “Então, está no ramo X…? Parece que está em crise porque tem havido tantos profissionais vigaristas nessa área, não é verdade?”. Isso vai obrigá-lo a jogar à defesa, concentrando-se em si próprio. Procure igualmente pontos fracos que possam dar-lhe a provar do próprio remédio. Se já desconfia da pessoa, pode reunir de antemão algumas informações chave (leia-se, embaraçosas) para usar em caso de ataque. Fale claro, não titubeie nem gagueje. Se necessário, respire fundo e fale menos, acometendo com uma frase subtilmente demolidora no momento certo. Porém, esta estratégia não funciona se o agressor estiver determinado. 

Procure com o olhar se algum dos presentes se está a aperceber do constrangimento de que é alvo e em caso afirmativo, troque algum sinal subtil com essa pessoa (erguer de sobrancelhas, rolar de olhos discreto). Talvez alguém desvie a conversa, dando-lhe ocasião de se recompor, ou de sair dali e pensar na resposta. Pode também atirar um ingénuo e sincero “ meu Deus, este (a) senhor (a) faz sempre tantas perguntas? Não estou acostumada (o) a tanta atenção e fico embaraçado (a)”. No entanto, faça-o sem sorrir demasiado. Talvez se toque e no mínimo, virou as atenções para o inimigo. Se já lhe estiver a chegar a mostarda ao nariz, use a versão hardcore. “Posso perguntar-lhe o porquê das suas perguntas? Porque deseja saber isso?”. Perguntas simples: não proponha hipóteses e caso seja capaz, olhe-o firmemente nos olhos. Se não, fixe um ponto entre as sobrancelhas. Obrigue-o amenamente a responder. Provavelmente vai retirar-se. Caso a questão não fique por ali, pode fazer duas coisas: pedir licença sem explicar porquê (por essa altura já toda a gente deve ter percebido) ou dizer claramente ao parvalhão que explique a razão das suas palavras, já que é tão esperto. Provavelmente a conversa azedará, mas ao menos não foi você que provocou, já fica a saber com o que conta, e ele (a) não passa por amiguinho (a).

Para elogios envenenados, ou quaisquer ditos desagradáveis existem várias possibilidades de resposta. Do “que necessidade há de me dizeres isso?”, a um firme “dispenso mexericos, muito obrigada” passando por “esse é o pior elogio que já me deram” até ao bom, velho e very british “creio que isso é algo muito pessoal/ inoportuno/rude/ desagradável/ inadequado para se dizer/ perguntar, não lhe parece?”. Sem sorrisos, sem procurar suavizar a pergunta. Isso vai deixar claro à pessoa que percebeu a sua verdadeira intenção. É bom lembrar que nos países do Sul estamos habituados a uma maior abertura e flexibilidade, que por vezes geram abusos inconcebíveis para um anglo saxónico. Se reagir com inexpressividade e frieza, será óbvio que a conversa já deixou de ser agradável, e que não está a brincar.

 Contra quem corteja o amor alheio, pondere se o seu relacionamento está firme o suficiente, porque é suposto a sua cara metade não o (a) sujeitar a esses constrangimentos. Se está tudo bem mas o seu parceiro (a) não sabe como reagir a tais más criações, actue. Na primeira vez pode ficar surpreendido, mas na segunda…mostre sem rodeios que percebeu a jogada. Pode recorrer a um gélido“ tenha mais cuidado, está bem?” (algumas amigas minhas usam esta táctica com uma perícia incrível) ou a um “ não se faça de sonsa (o)que conheço perfeitamente as suas intenções”. Nunca diga exactamente o que percebeu, nem como. Deixe-o (a) a falar sozinho. Esta também serve para os outros casos. E nunca se esqueça: caso a pessoa o (a) tenha atingido e deixado de boca aberta, sem saber o que fazer, não se sinta mal. Respire, medite, e logo que possa chame-a (o) à parte e diga-lhe “ percebi perfeitamente o que queria dizer – e acho isso uma vergonha. Sei exactamente o que pretende”. Mais uma vez, não diga o quê e vire-lhe as costas, deixando implícita a "ameaça" de  espalhar a notícia da sua má conduta. Touché! Ficará tão embaraçado que das duas uma: ou abre o jogo ou desaparece.
 A sanguessuga

Retrato robot: Tal como a Melga, aparece sob vários disfarces. Mas enquanto a Melga pode sofrer apenas de uma certa falta de noção e não cometer indelicadezas por maldade, a Sanguessuga é mais refinada. Nesta categoria encaixam o amigo da onça que passa a vida a pedinchar favores/empréstimos ou a pôr-se a jeito para obter benefícios que nunca retribui; o papa jantares e o papa croquetes (que só estão presentes nas ocasiões em que podem banquetear-se à borla/ entrar em sítios in/ ser fotografados ou “fazer bons contactos”); o chefe abusador; a entourage de bajuladores, groupies, lambe botas, mortos- de -fome e engraxadores que em geral, rodeiam quem está bem colocado (pessoa no poder, estrela de rock, it girl, director (a) da empresa, atleta famoso, etc); o burlão simpático; ou simplesmente o (a) caçador (a) de fortunas interesseiro (a). Este último tem uma abordagem mais subtil e perigosa, porque procura estabelecer-se a longo prazo ou seja, arranjar um parceiro amoroso que o promova socialmente, que o carregue e a quem possa sugar o sangue até à última gota. Repare que uma Sanguessuga apenas fará alguma coisa por si caso esteja interessada num benefício maior.

 Mas qualquer Sanguessuga é aduladora, egoísta, mal-agradecida e procura despertar pena, solidariedade ou confiança. Assim que a “fonte de rendimentos” seca – muitas vezes com a sua ajuda - e vê que não pode obter mais nada daquela presa, ou que encontra um “hospedeiro” mais gordo e recheado (leia-se mais fácil de manipular, mais rico ou mais importante) desaparece misteriosamente. Por vezes, também se some entre favores: obtém o que quer, evapora-se e dali a nada, você sabe que a sanguessuga andou toda contente em pândegas e festas sem se dar ao trabalho de o convidar para mostrar gratidão. Só volta a aparecer quando está aflita outra vez, fazendo de si parvo (a). E o pior é que consegue dar sempre um ar tão grave à situação e pôr uma cara tão ingénua que é fácil voltar a cair no mesmo erro, ainda que já tenha jurado “aquele (a) não me volta a ver os dentes”.

 
Técnica de combate: A melhor defesa é estar prevenido. Analise a sua personalidade e estilo de vida: receia confrontos e costuma aceder a tudo o que lhe pedem? Está numa posição de destaque ou poder, que lhe permita promover ou “desenrascar” amigos? É generoso (a) e/ou dispõe de meios para demonstrar prodigalidade? Tem acesso a muitas festas, eventos públicos ou redes de contactos úteis? Leva uma existência que seja ou pareça extravagante aos olhos dos outros? Tem fama de Bom Samaritano? A sua profissão, hobbies ou actividades são apelativas para quem gosta de pedir favores ou conselhos gratuitos (médico, terapeuta, artista…)? Quanto mais conhecidas forem estas características, mais possibilidades terá de ser um íman para interesseiros.

 Por isso, para começar, escolha bem as suas amizades e as pessoas que permite no seu círculo; pondere de onde as conhece e há quanto tempo, o que têm em comum, que referências tem delas, o que terão a ganhar com a sua companhia, se estão em posição de devolver as atenções em medida equivalente e se demonstram alguma reserva em aceitar as suas amabilidades – ou se, pelo contrário, procuram aproximar-se com demasiada veemência. Quando algo parece demasiado bom para ser verdade, geralmente é. Ouça o seu instinto: por norma a primeira impressão não engana. 

Mesmo que se julgue uma pessoa simples sem nada a ser cobiçado, pense melhor: toda a gente tem algo que pode ser apetecido- bondade, tempo livre, timidez, ingenuidade, necessidade de ser aceite, paciência, medo de dizer “não” são características atractivas para as sanguessugas. Em segundo lugar, lembre-se que embora a amizade não exija nada em troca, a partir do momento em que há favores a circular, tem o direito de esperar dos outros a mesma abertura que lhes dá. Uma mão lava a outra. Se costuma fazer muito por alguém, peça-lhe ajuda quando precisar (e não é para o acompanhar a um SPA às suas custas – de preferência, solicite a sua presença em tarefas desagradáveis ou chatas, que não lhe tragam benefício ou prazer). Isso vai deixar claro que exige reciprocidade, algo que é natural para pessoas comuns mas repelente para interesseiros. Se recusar sucessivamente com desculpas esfarrapadas, desconfie. Desenvolva também o hábito de ajudar quando é realmente importante: ir buscar alguém ao aeroporto às 3 da manhã quando trabalha cedo e o seu amigo pode perfeitamente pagar um táxi NÃO é o caso. Outra táctica eficaz é acostumar-se a fazer apenas favores que não lhe tragam transtorno. Pode dar o que tem de sobra, mas reserve os favores complicados para as pessoas com provas dadas na sua vida. Se lhe pedem algo que lhe traz muitas complicações e transforma o seu dia num inferno; se o seu estômago se aperta ao ouvir o que lhe pedem, ceda ao incómodo que está a sentir e diga que não. “Desculpe, mas é-me mesmo impossível” é resposta que nunca falha. Se a pessoa for realmente sua amiga, vai compreender sem insistir. Se for uma sanguessuga, quanto mais recusas lhe der, melhor. 

Quem tem afecto por si não será rude ao ponto de exigir coisas que lhe tragam problemas, nem abusará da sua bondade. Tudo o resto é má criação passiva, da pior espécie.

4 comments:

S* said...

ahahah

Tu és mesmo engraçada, fizeste um resumo brilhante. Há gente que só se quer ao longe...

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada :*

Inês said...

Um retrato bem real!
E muito bem escrito. :)

Unknown said...
This comment has been removed by the author.

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