Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, June 5, 2012

Má educação passiva, parte I


Muitos dos meus amigos sofrem de um problema comum nos dias de hoje: incapacidade para lidar com gente chata (entenda-se, despachar gente incómoda). Esse mal moderno advém de um excesso de boa educação que vai rareando cada vez mais. 
Os espécimes com uma formação "à antiga" (moldados na tradição inquebrável do sorriso, da cortesia, do não incomodar, da prioridade aos mais velhos, dos "por favor", "precisa de ajuda?", "com licença", "faça favor" e "desculpe", do não vexar ou ferir os sentimentos alheios, do não atrevimento, da discrição e por aí fora...) são, por força dos tempos ou das circunstâncias, forçados a conviver com aqueles que não cresceram com os mesmos princípios ou que por deformação do carácter, tratam de os ignorar. As antigas tradições de cortesia funcionavam porque a maioria estava habituada a cumpri-las. As pessoas mostravam-se prestáveis porque sabiam que os outros, condicionados pelas mesmas regras, faziam por não abusar dessa amabilidade. Era algo implícito, que encaixava sozinho. No mundo actual, já não resulta bem assim - e quem é chato e abusador confunde amabilidade com fraqueza. Uma fraqueza que procura consciente ou inconscientemente explorar.
                              
 Pessoas cansativas, maçadoras ou maldosas que se socorrem de tácticas passivo agressivas para vampirizar ou incomodar os outros são o tipo que mais me aflige. É fácil lidar com pessoas abertamente hostis ou desagradáveis - geram uma irritação indisfarçável e uma consequente resposta torta que resolve tudo. Cada um diz da sua justiça e o caso fica por ali. Com gente untuosa, toda peçonha e mel, carente ou cheia de indirectas cruéis é preciso ter uma abordagem diferente. Já se viu que pessoas assim não se regem pelos mesmos padrões de gentileza, logo ignorar, ter paciência ou agir com superioridade pode não surtir efeito algum: o chato acaba por conseguir o que quer e vai à sua vida todo contente, enquanto a sua vítima fica a sentir-se exausta, triste ou furiosa por não se ter expressado como o parasita merecia. É necessário praticar uma "má criação polida" para os arredar sem cair na grosseria pura e dura. Afinal, não é fácil ser antipático com alguém que aparentemente está a ser fofinho, não é?
 Com prática, cada um pode ir desenvolvendo as suas próprias técnicas simples de auto defesa para lidar eficazmente com os vários tipos de chatos:


O vampiro 


Retrato robot: É uma pessoa insegura, carente, que precisa de apoio constante, ou que simplesmente está a passar um mau momento que não sabe como gerir e por isso, se pendura como uma lapa. Claro que devemos apoiar os nossos amigos em alturas de crise, mas os vampirinhos partem do princípio que só eles têm problemas e que todos têm obrigação de os trazer ao colo. É o tipo de "amigo" que liga constantemente para desabafar e apesar de saber que o outro está ocupado e já ofereceu todo o consolo possível, fala do mesmo durante três horas, sem dar sequer hipótese ao interlocutor de o interromper. Nunca ouve os conselhos, naquela cabeça não se faz click e insiste em como é desgraçadinho de cada vez que encontra um potencial ombro para morder. É incapaz de ver o lado positivo da situação, de ter paciência, de partir para outra, de perceber que os amigos têm a sua própria vida, que os terapeutas são pagos à hora e que as suas questões não são tão interessantes como julga. É uma companhia desagradável e egoísta, que deixa os outros esgotados quando finalmente sai de cena. Como graças a isso vai perdendo amizades, as que lhe restam estão condenadas a sofrer.

Técnica de combate: Quando o telefone tocar, respire fundo e combine consigo mesmo (a) que a ligação vai ser breve. Fale mais rápido do que ele, com voz clara e firme; não sussurre nem use uma entoação demasiado carinhosa. Pessoas assim farejam a vulnerabilidade. Se o vampiro dominar a conversa, você está tramado (a). Atire o "então, que se passa?" mais desinteressado que conseguir. Diga logo que está com pressa, que vai sair, que tem alguém de porte ameaçador à espera ( o seu pai, caso ele seja pessoa de impor respeito, o marido, uma avó desbocada, o seu chefe...) e que essa pessoa pode interromper-vos a qualquer momento. Se tiver filhos pequenos, recrute-os para fazer o maior chinfrim possível de cada vez que o vampiro telefonar, de modo que tenha de lhe cortar o discurso constantemente para os avisar. Vai dar alguma má reputação à sua família, mas para grandes males, grandes remédios. Se ele perceber que não encontra espaço para ventilar as suas desgraças, acabará por bater a outra porta, já que é extremamente narcisista e incapaz de simpatizar com os afazeres dos outros. Em encontros cara a cara, caso sejam marcados, combine com antecedência com um familiar ou amigo para o ir buscar impreterivelmente a determinada hora, com a desculpa de um compromisso inadiável. Se o encontrar por acaso na rua, vá falando amavelmente mas rápido, sem parar de caminhar ao seu lado, e remeta-o para o Facebook ou para "um café um dia destes". Em caso extremo, aproveite um dia em que esteja com menos paciência e confronte-o. " Já reparaste que nunca me perguntas pelos meus problemas?", " Já pensaste em procurar ajuda especializada?" ou " Desculpa, mas não posso gastar tanto tempo ao telefone". Ou então, deixe simplesmente de o atender. Provavelmente zangam-se de vez, mas não se perde grande coisa.


A melga



Retrato robot: Pode tomar várias formas : a vizinha que insiste em aparecer sem ser convidada às horas menos convenientes, o hóspede que fica depois do terceiro dia, o amigo possessivo e invasivo,  um (a) pretendente ou atiradiça (o) cuja atenção não foi solicitada... em suma, por melga
 entende-se qualquer pessoa que pretenda ocupar demasiado espaço/tempo da vida alheia ou intrometer-se em assuntos que não lhe dizem respeito. Por mais indirectas que lhe dêem, não percebe que a sua amizade, interesse ou intenções românticas não são correspondidos. Ou que os outros precisam de espaço. Falta-lhes sensibilidade para perceber que "mais vale ser desejado do que aborrecido".

Técnica de combate: Existem muitas, consoante o tipo de melga em causa. A regra de ouro é só uma: se não gosta da companhia da pessoa ou tem algum motivo para desconfiar das razões que a levam a ter tanto interesse em si não seja mais amável do que a boa educação exige. Se estar perto de si  não for muito agradável, a melga procurará outro pouso. Para melgas telefónicas, experimente as tácticas contra vampiros. Se a melga se imiscui nos seus assuntos, deixe-a saber o menos possível a seu respeito. Seja firme nas suas atitudes, porque pessoas assim abusam dos indivíduos hesitantes, mas tendem a fugir de quem tem uma personalidade forte. Contra melgas engatatonas, que insistem em arrastar-lhe a asa por mais que você se faça de desentendido (a) e o (a) maçam com ditos foleiros, inadequados e embaraçosos do estilo " és tão sensual" quando nada fez para provocar tais reacções, o único remédio é dizer que não está interessado (a) e mostrar sem rodeios que não gosta dessas aproximações. As velhas desculpas - sou comprometido (a), quero estar sozinho (a) e por aí fora só pioram as coisas. Caso tenha caído na asneira de se envolver num flirt fugaz com uma melga que se convenceu de que iam ser felizes para sempre, o remédio é igual - mas deve ser administrado numa dose mais agressiva, estilo insecticida.


    To be continued...








  











5 comments:

colibri esverdeado said...

Ahaha mesmo! Estou curiosa em relação aos próximos retratos... ;)

Imperatriz Sissi said...

Vou ser implacável :*

MintJulep said...

Interessante, é por ter medo de me vir algum dia a tornar um vampiro emocional que NUNCA desabafo os meus problemas com amigos.
http://fashionfauxpas-mintjulep.blogspot.com

Imperatriz Sissi said...

Mint, eu também sou um bocadinho assim, mas acho que é um erro. Não devemos ter medo de desabafar, porque pessoas que têm sensibilidade para recear incomodar os outros nunca poderão tornar-e "vampiros". Os vampiros são destituídos dessa capacidade de empatia. :*

A Bomboca Mais Gostosa said...

brilhante. Conheço muitos assim.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...