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Monday, June 4, 2012

Quit playing games

                             
Tinha 12 anos quando vi Dangerous Liaisons de Stephen Frears e pouco mais quando me apaixonei furiosamente pelo romance de costumes que lhe deu origem. Por essa altura também explorei Maquiavel, cujo pensamento frio e desencantado me fascinou para sempre. Até aí só tinha aprendido a sinceridade, a polidez e a diplomacia. Todo o meu esforço mental se concentrava em moderar um pouco a minha impetuosidade e alcançar uma certa serenidade zen,  mas saber que havia personagens (ou pessoas) que viviam o quotidiano como se de um jogo de xadrez se tratasse (e eu tive um ligeiro interesse por xadrez na infância, que mais tarde se transformaria numa paixão por estratégia militar) foi uma novidade abismal para mim. 
Não era a maldade dos intervenientes nem o seu objectivo mesquinho que me encantava. Embora cobertas por uma camada de glamour e estilo, era óbvio que as mesmas motivações em personagens feias e grosseiras seriam repelentes, enredos de taberna ou de bordel. O que me cativava em Merteuil e Valmont era o seu sangue gelado, a capacidade de planear e dirigir os acontecimentos, de observar  desapaixonadamente, como um espectador neutro, o desenrolar de questões que afectavam os seus interesses, o seu auto-domínio implacável. Controlar as próprias emoções e sentimentos daquela forma pareceu-me a mais subtil das artes. Quem quiser dominar o mundo, deve em primeiro lugar ter poder sobre si mesmo. 


  Já sabia  o papel a que estava condenada; calar-me e fazer o que me era ordenado dava-me a grande oportunidade de ouvir e observar. Não o que me diziam, naturalmente desprovido de interesse, mas tudo o que tentavam esconder de mim.
Exercitei a indiferença. Aprendi a mostrar-me alegre debaixo da mesa, espetando um garfo nas costas da mão. Tornei-me… perita em dissimular. Não procurava o prazer mas o conhecimento. Consultei o mais severo dos moralistas para aprender a posar. Filósofos, para saber discernir. Romancistas, para ver o que poderia aproveitar. No final, reduzi tudo a um princípio maravilhosamente simples. Vencer ou morrer.

                                                                                          M. de Merteuil


Não desejava necessariamente aplicar as técnicas -com excepção da inofensiva sprezzatura, posso afirmar que não usei nenhuma delas. Nunca tive desejos de fazer mal a ninguém e sempre acreditei que o que precisa de ser alcançado através de truques não vale o esforço. Mas precisava de as conhecer. Não o fazer seria uma perigosa ingenuidade. Graças a isso, pude defender-me de umas quantas traições e batotas.
Interessada em saber mais, devorei todos os livros do género, os grandes mestres de estratégia, manuais de gestão, de comportamento. Os circuitos em que me movia deram-me oportunidade para observar os movers and shakers e sim, de aprender como o faziam. Porque o faziam em todos os sectores da sociedade, nas mais insignificantes áreas da existência. Nas relações. No mundo do trabalho. Na guerra. Na política. As técnicas de manipular o consumidor pareceram-me tão mirabolantes que acabei por me licenciar na área do marketing e relações públicas. No fundo, estava a exercitar a minha paixão pela antropologia. E concluí que infelizmente, muito poucas coisas são espontâneas nesta vida. No fundo, conheço todas as regras. Mas escolho não as aplicar e um dos motivos para isso é que na maioria das vezes, a estratégia mais eficaz é não usar estratégia alguma. Primeiro, porque por mais auto domínio que haja, poucas pessoas são imunes ao sofrimento. "Mantém os amigos perto e os inimigos mais perto", uma das técnicas da anti heroína, é algo muito doloroso de fazer: exige horizontes estreitos, capacidade para chafurdar na tristeza e no ódio. Ela espetava garfos nas próprias mãos para parecer simpática às pessoas que detestava. A longo prazo, é uma receita para o manicómio.
 Segundo porque, para quem não leu o livro, no final os geniais manipuladores acabam muito mal. Os segredinhos, as insinuações, as intrigas, tudo isso é descoberto, disparando estilhaços num raio de quilómetros. A ruína dos protagonistas é total e vários inocentes são arrastados no processo. Jogos e estratégias são como granadas que podem rebentar na mão de quem as usa e quanto mais amiúde se empregam, pior. Terceiro, porque o cinismo exagerado é das coisas mais maçadoras e cansativas que existem.
 Isto para dizer que eu não tolero jogos. Não os permito, não os alimento. Não porque não os conheça, não porque não saiba como utilizá-los em caso extremo, não por ingenuidade e muito menos por cobardia, mas porque não quero e tenho melhores coisas para fazer com a minha existência. Para tal, elimino da minha vida quem procura envolver-me neles. Sem quartel. E por isso mesmo, sou capaz de antecipar esses movimentos a quilómetros, de perceber tim tim por tim tim todas as jogadas. Lá porque escolho não pisar o tabuleiro, não significa que não reconheça um perdedor quando o vejo - e que não saiba exactamente como a partida vai acabar.

                                                                    

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