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Netscope

Wednesday, June 20, 2012

Short story: Too close for comfort


                                   

Foi a primeira vez que se encontraram após o grande desastre. Um baile de máscaras, com danças em quadrilha, não sonhavam que poderiam cruzar-se. Tarde demais: enquanto os pares se trocavam e rodopiavam alegremente, eis que foram obrigados a dar as mãos, a reproduzir, sem tremer, os movimentos felizes da coreografia. Um sorriso sardónico, um “isto vai mal, hein?”, um toque superficial na pele, o coração quase a parar ali mesmo. Ai, as circunstâncias, única fronteira, única diferença. Tudo o resto estava exactamente na mesma: a velha química, o velho à vontade e cumplicidade que os tinha irresistivelmente empurrado para os braços um do outro, tão espontâneo que era preciso um esforço sobre humano para recordar que já não podiam abraçar-se, nem estar próximos, nem conversar sozinhos, nem nada. Tudo tinha mudado demasiado – por fora – e seria preciso um milagre para colocar tudo de volta nos devidos lugares, um trabalho mútuo e titânico tornado impossível pela muralha de silêncio que tinham construído.  Só quero que o demo da música acabe depressa. Só quero ir para casa. Esta cidade está a ficar pequena para nós os dois. Tenho de sair. Estou a enlouquecer. Não quero estar perto desta maneira, sem que possamos tocar um no outro, não quero olhar indirectamente, mover-me num núcleo diferente, caminhar noutra direcção, com a consciência plena que já não pertencemos ao mesmo conjunto, falar de trivialidades atropelando a única coisa que importa, olhar sem ver, sabendo que no fim cada um vai para sua casa e que desta vez, “parting will not be such a sweet sorrow” e que nem o consolo de “boa noite, mil vezes boa noite” haverá


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