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Tuesday, July 10, 2012

A arte de ser "Tapete"


 Tapete em processo de acasalamento: note-se como agita as franjas para chamar a atenção.                                

O Tapete dá risadinhas quando gozam com ele
Uma lição que a vida me ensinou é que é inútil competir contra quem se faz de tapete: uma pessoa normal, com salutar orgulho e auto estima, não tem armas para combater quem não conhece limites para a sua capacidade de auto humilhação. Quando um ser comum ouve uma recusa, é tratado injustamente ou insultado, retira-se, defende-se ou replica; é como um móvel bom, que exige certos cuidados para se manter. Já os tapetes, por sua vez, são de baixa manutenção. Quem é tapete pode ser tratado às três pancadas, que não faz mal: ri-se da injúria, finge achar muita gracinha, implora, insiste, babuja-se abjectamente. Se o indivíduo normal nota que algo não bate certo, afasta-se: o capacho prefere ser aborrecido do que desejado, desde que se mantenha por perto, “a ver se cola”. Tudo o que vem à rede é peixe, mesmo que já não seja fresco. Pessoas normais jogam limpo; o tapete deita-se onde for preciso. Deixa-se pisar, sujar, que lhe saltem em cima, que lhe atirem migalhas, que o cão o morda, que o gato lhe puxe fios e lhe cuspa bolas de pelo, e ainda agradece por cima. Gente saudável quer as coisas claras, ou é ou não é: um tapete suplica pelas sobras. Como os capachos, mesmo os de trapos, sempre dão jeito para pôr os pés em cima, há quem não se importe de os manter no soalho. Afinal deixam-se estar rente ao chão e até começarem a fazer os habitantes da casa embrulhar os pés, tropeçar e bater de nariz no chão não incomodam assim muito. O outro mal desse tipo de tapete (que não voa, nem é persa, nem de arraiolos) é que anda sempre no meio da porcaria – e nem toda a gente conta com pessoal doméstico consciencioso; ainda vai havendo muita técnica de superfícies que se limita a varrer o lixo para debaixo do dito cujo – por isso, o sebento do tapete acumula 
imundície e micróbios.
  Tentativa de voo, em modo attention whore.

Inevitavelmente, isso descobre-se quando o dono da casa pensa “algo cheira mal por aqui” e experimenta sacudir o capacho com força. E aí fica chocado: como é que é possível que uma coisa tão insignificante contivesse tanta sujeira, tanto ácaro, tanta nojice? Já para o lixo!
Perante um tapete incómodo, quem é filho de boa gente só tem de se mudar para um local mais arejado. Quando o dono da casa já não puder suportar tanto espirro e tanto trambolhão, talvez perceba que precisa de se livrar dos trastes, antes que morra sufocado. Se não o fizer é porque sofre de síndroma de Diógenes – e quem gosta de estar com pessoas assim?

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