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Thursday, July 26, 2012

As "luas" de Calígula


A verdadeira face de Calígula - um dos mais famosos imperadores romanos (37-41 d.C) cuja menção basta para provocar arrepios - permanece envolta em mistério. A maioria das fontes que chegaram até nós é da autoria dos seus detractores e diga-se com justiça, de pessoas com razão de sobra para o detestar, que logicamente lhe atribuem todas as tropelias. Ao analisar a sua personalidade, temos de ser algo condescendentes e considerar que como todos nós, o temível tirano possuía um lado negro que por vezes - e a partir de certa altura, demasiadas vezes - levava a melhor.  Impossível também será alhear do seu comportamento a acidentada infância, a educação - no mínimo turbulenta - e uma saúde precária. 
 Comecemos por recordar que o nome aparentemente sinistro com que passou à História  (e que o jovem Imperador, supostamente, odiava com paixão) começou por ser uma alcunha carinhosa: com dois ou três anos, o pequeno Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus acompanhava o pai, Germânico (um dos maiores generais da história romana) nas suas campanhas militares. Ataviado com uma armadura e botas de marcha (caligae) em miniatura, ficava tão fofinho que não tardou a tornar-se a mascote das legiões lideradas pelo progenitor. Enternecidos, os legionários apelidaram-no de Calígula - "Botinhas".
E de facto, quando se tornou Imperador, com apenas 24 anos, o povo em delírio aclamou-o gritando " Viva o nosso bebé!Viva a nossa estrela!". A alegria não duraria muito...
Ficheiro:Caligula bust.jpg


Mas como era, de facto, o terceiro Imperador Romano?
 Membro da dinastia Júlio-Claudiana, instituída pelo primeiro imperador, Octávio (a.k.a César Augusto) Caio era filho de um sobrinho do Imperador Tibério e da sua mulher, Agripina Maior. Tinha dois irmãos, Nero e Druso, e três irmãs: Júlia Livilla, Drusila e Agripinila. A relação estranhamente próxima com estas é, aliás, uma das maiores manchas na sua reputação.
Os primeiros anos da sua vida, até à morte do general seu pai, foram passados entre as campanhas deste, na Germânia, e Antióquia. Esta existência livre e resguardada seria curta: com a morte de Germânico, a família teve de regressar a Roma. Começou então o calvário: à mercê do seu caprichoso tio, que via na família dele uma ameaça, o jovem viu morrer  a mãe e os dois irmãos no exílio, além de testemunhar o assassinato de outros parentes. Quanto a ele, vivia com as irmãs sob apertadíssima vigilância, ora sob o tecto de Tibério, ora colocado à responsabilidade da bisavó e da avó, temendo diariamente que uma desconfiança do tio ditasse o seu fim. Calcula-se que por esta altura aprendeu a dissimular para sobreviver - acabaria por se reconciliar com o velho Imperador e cair-lhe nas boas graças, nunca demonstrando o ressentimento que o devorava. Antes de morrer em circunstâncias mal esclarecidas aos 77 anos, Tibério designou Calígula e Tibério Gemelo, seu neto, como herdeiros do trono. É fácil adivinhar o fim que levou o priminho de Calígula...                                                    
Ficheiro:Tiberius Gemellus.jpg
Tibério Gemelo: com primos como Calígula, quem precisa de inimigos?


Assim começava, discretamente, uma escalada de vingança, loucura e excessos.
  Mas a início, ninguém diria: tudo corria às mil maravilhas. O jovem Imperador foi bem
   
                                                                                                                            recebido pelos súbditos, que amavam Germânico e se sentiam felizes por ver o filho deste ascender ao trono. Também estavam contentes por se verem livres de Tibério, que nos seus últimos anos lhes impusera terríveis sofrimentos e privações. Calígula parecia corresponder às expectativas do povo e  sinceramente interessado no seu bem estar: os primeiros sete meses do seu reinado foram considerados os mais felizes que Império conhecera em muitos anos. Houve espectáculos luxuosos, combates de gladiadores, o exército foi recompensado prodigamente pelos seus serviços, os exilados regressaram à pátria, anularam-se sentenças injustas de traição  e desterraram-se os criminosos sexuais, entre outras medidas que mereceram aprovação geral.                                                          
Os primeiros tempos ficaram marcados pela prosperidade e por uma administração correcta. Se por um lado,reprimia duramente as conspirações que o ameaçavam e batalhava para reforçar a autoridade imperial,  por outro a "estrelinha" procurava, generosamente, agradar ao povo que o aplaudia e aos nobres que o rodeavam. Carinhosamente, Calígula mandou transladar os corpos da sua mãe e irmãos para os sepultar com todas as honras. Mas esta fase feliz foi breve: cumprindo uma antiga profecia, o Imperador caiu gravemente doente no Outono de 37. E quando finalmente saiu do leito, não parecia o mesmo homem: rapidamente assassinou, ou obrigou ao suicídio, os que tinham feito o voto louco de oferecer as suas vidas aos deuses se o Imperador melhorasse - entre eles a sua primeira esposa e o sogro. Passou a ver conspiradores em toda a parte e a mostrar ideias megalómanas que depauperavam os cofres. Mesmo assim, continuava empenhado na reforma do Império: foram elevados novos membros às classes senatorial e equestre, aboliram-se certos impostos, e pela primeira vez foi publicado um relatório público com as despesas do Imperador. Ao mesmo tempo ordenava execuções sumárias, como a do seu amigo Sutório Macro, a quem devia o trono. O seu espírito tinha-se fragmentado: vagueava entre  os seus impulsos naturalmente generosos e a paranóia cruel. Em 39, a fome assolou o Império, condições que não convinham às suas políticas gastadoras. Aflito, iniciou uma série de medidas desesperadas como multas, extorsão e subida de impostos. Os que tentavam defender os seus bens eram sumariamente executados. Estabeleceu novos impostos nos bordéis, leiloou gladiadores em público, pedia dinheiro ao povo em actos oficiais. Na tentativa de atenuar a crise, depauperava ainda mais o tesouro em construções faraónicas: ampliou os portos de Regium (na Sicília e Calábria) para permitir um maior fluxo de cereais vindos do Egipto; construiram-se e repararam-se estradas; ergueram-se aquedutos, templos, circos e anfiteatros; Calígula era apaixonado por obras extravagantes de engenharia. Em 39, construiu uma ponte flutuante entre Baiae e Puteoli - e como não sabia nadar, atravessou-a montado no seu cavalo, Incitatus, usando a armadura de Alexandre, o Grande. O boato de que teria nomeado o mesmo corcel cônsul e sacerdote perseguiu-o pelas páginas da História... 

As suas relações com o Senado deterioravam-se: humilhou vários senadores publicamente, obrigando-os a correr atrás do seu carro. Muitos outros foram simplesmente executados. A megalomania acentuava-se: foi o primeiro Imperador romano a intitular-se um Deus em vida. Obrigou o povo a render-lhe culto e aparecia em  vestido de Apolo ou Mercúrio, conforme a inspiração do momento. Chegou mesmo a mandar erguer estátuas suas nas sinagogas do Império - um sacrilégio para os judeus - e ameaçou fazer o mesmo no Templo de Jerusalém. Só a prudência de governadores e conselheiros, que temiam a guerra civil, o demoveu. A sua vida pessoal não era mais digna de elogio: acusavam-no de dormir com as próprias irmãs e de as vender a quem lhe apetecia, de raptar as mulheres dos súbditos a bel-prazer, de ensaiar caretas ao espelho para se tornar mais assustador, de tornar o palácio num autêntico bordel...verdadeiras ou falsas, estas acusações viriam a resultar em numerosas conspirações, a última das quais seria bem sucedida: foi brutalmente assassinado aos 28 anos de idade. A sua mulher e filha segui-lo-iam numa morte horrível. Mesmo assim, o povo chorou por ele e pediu justiça - a tentativa de restabelecer a República falhou e seria o seu sucessor e parente, Cláudio, a executar os seus carrascos.


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2 comments:

Panurgo said...

Eu gosto do Calígula; é muito injustiçado, tal como o Nero, o melhor imperador que Roma conheceu.

Quando ele, Calígula, grita a Júpiter como Ajáx a Ulisses, Eleva-me, ou elevar-me-ei a ti... é o momento mais alto do Império.

Imperatriz Sissi said...

Ele agiu coo um homem do seu meio, do seu tempo, numa posição dificílima. Creio que ele não era má pessoa, que tinha boas intenções, mas os traumas e a doença fizeram-no perder o norte - algo que veio a calhar para os seus muitos rivais políticos. E esse discurso é brilhante - seria uma boa oração se não fosse uma blasfémia. Desafiar os Deuses nunca é boa ideia...e o fim que Calígula levou prova-o!

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