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Sunday, July 8, 2012

Eu embirro com...O Principezinho

                             
É muito provável que se zanguem comigo por causa desta. Como é que é possível alguém embirrar com algo tão amoroso, moralizante e politicamente correcto como a obra de Exupéry? Falando a verdade eu não embirro exactamente com a história "para crianças" em si: é fofa, um bocadinho chata mas inofensiva, e interessante se considerarmos o background em que se desenvolveu (o irmão do escritor aristocrata que morreu tragicamente aos 15 anos e que serviu de inspiração para a personagem; o facto de ter sido elaborada durante o exílio do autor aquando da invasão nazi, etc..). O que me incomoda é o facto de se defender que há algo de esotérico, filosófico, místico, profundo e sobrenatural no livro, algum segredo iniciático e insondável que é suposto passar despercebido às crianças mas ser óbvio para qualquer um que lhe pegue depois de adulto. Ora, eu tive de gramar com a peste do Principezinho por mais que uma vez ao longo do percurso escolar, isto já depois de o ter lido again and again para tentar entender o sururu (mesmo em miúda, sempre desconfiei de modismos). Não contente com isso, fiz um curso de Verão de teatro e lá me calhou o Principezinho de novo, com o seu ar de pateta alegre que não parte um prato mas a encher-me a existência de trabalhos de casa e análises em que eu não podia exactamente dizer " não consigo achar piadinha nenhuma a este livro" porque caía o Carmo e a Trindade se alguém ousasse dizer que o Principezinho não era a coisa mais excitante e revolucionária que já se lera. Eu, que tenho raiva a idolatrias cegas, nunca gostei que me impingissem artistas, obras ou filmes pela cabeça abaixo e me obrigassem a dizer "isto é extraordinário!", por isso estão a imaginar a minha boa vontade...
Para ajudar à festa, sempre tive pouca tolerância a crises existenciais (mesmo na adolescência em que é suposto uma pessoa afligir-se com o sentido da vida, ser rebelde, complexa e mimimi) e perdoem-me os fãs, o Principezinho parecia-me um alucinado de primeira com os seus problemas de embondeiros, rosas e raposas, próprios de quem não tem mais nada com que se ocupar. Posso dizer que em todas as vezes que o li, nunca encontrei nenhum significado esotérico que vá além do lugar comum: tudo bem que a obra já não é recente, mas nos contos de fadas antigos e na Bíblia (ou mesmo no catecismo) são debatidas exaustivamente morais semelhantes. "O essencial é invisível aos olhos", "amar é olhar na mesma direcção" e por aí fora...nunca vi aí grande novidade, o que só pode significar uma de três coisas:


a) Quando li O Principezinho pela primeira vez já era uma criança com bagagem de leitura suficiente para não me deixar impressionar por filosofias tão batidas;


b) Sou uma tapadinha e uma insensível de primeira classe, incapaz de alcançar a iluminação que todos os outros atingem instantaneamente ao abrir O Principezinho;


c) Há mais pessoas que não acham o livro nada de especial mas não se atrevem a confessá-lo: fazem como as personagens do conto A Roupa Nova do Imperador, que não tinham coragem de dizer "O Rei vai nu" para não passarem por estúpidas.


Se a  última afirmação for verdade, então O Principezinho é um agente repressor da liberdade de pensamento e de expressão, um pequeno ditador. Prefiro pensar nas partes de que gostei, como aquela relação entre o deserto e a miragem, que lhe conferem a possibilidade de ter sido baseado numa experiência real. Mas daí a ser o livro preferido de meio mundo, uma pedra filosofal, vai uma grande diferença...esclareçam-me.

10 comments:

♥ Guida said...

Eu gosto muito d'O Principezinho pelas tais filosofias batidas. Pelos adultos ranhosos que tantas vezes vemos, dá para perceber por que é que o adoram - pelo que deviam ter aprendido há muito tempo mas que nunca deram atenção. Só é pena que na prática não melhorem em nada depois de ler o livro. Eu fiquei encantada com ele desde pequena, e nessa fase foi importante para a construção pessoal ao verbalizar todas essas coisas bonitas (ou menos bonitas) das rosas e das raposas. Continuo a achar O Principezinho um cuchi cuchi de primeira!

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Lá cuchi cuchi ele é, sem dúvida alguma. Só não "me entram" as filosofias cósmicas e fenomenais que alguns iluminados lhe atribuem. Para mim continua a ser um livro bonitinho para crianças...

Cristina Torrão said...

Eu acho que o problema é que o Principezinho, na minha opinião, não é um livro para crianças, pois é triste demais. (Não sei porque é que se insiste que as crianças devem gostar de coisas tristes, mas, enfim).
Porém, como meio mundo (e mais a outra metade) está convencido de que é um livro para crianças, continua a comprá-lo, quando não lhe ocorre que prenda há de dar a alguma criança que faz anos, pelo Natal, etc. Daí o sucesso retumbante. Institucionalizou-se que seria a melhor prenda para uma criança, pronto! Faz-se sempre uma boa figura quando se oferece o Principezinho. Não me admiraria que houvesse crianças que já o receberam várias vezes...

Imperatriz Sissi said...

Também sempre achei que o final era triste e desnecessário, inesperado num livro que até ali é tão ameno. Só se explica por ter sido inspirado num caso real. Há contos de fadas bem piores, mas são tão hiperbólicos e sombrios que uma pessoa já nem liga aos finais assustadores...

Também me pareceu sempre que o suicídio do Principezinho não transmitia grande exemplo às crianças - e que era o resultado de tanto meditar sobre tolices em importância. "Faz-se sempre uma boa figura quando se oferece o Principezinho" lá está, mas as pessoas que o oferecem nem ponderam o porquê de essa ser considerada uma boa opção..

Vicky said...

Este livro é realmente genial na minha opinião. Cada pessoa, em cada fase da sua vida fará leituras e interpretações diferentes. Dai ser importante lê-lo nas várias fases da nossa vida. Na minha modesta opinião.

Imperatriz Sissi said...

Olá Vicky. Não ponho em causa a qualidade do livro, goste-se ou não dele, nem que se tirem diferentes conclusões lendo-o em diversas fases da vida. A minha embirração prende-se com um suposto misticismo em roda dele...que eu por mais que me esforce, não encontro...

Tamborim Zim said...

Não considero místico. Considero realmente existencialista, poético e profundamente humanista. Qto aos existencialismos, ou se é ou n...eu sou e tb por isso sou totalmente fã de O Principezinho. Amo.

Paulo Figueira said...

Para alguns o principezinho é a criança interior do aviador, ou o seu Eu mais profundo, até talvez o "Atman", que ele, para encontrar, teve de se "perder" no deserto. A criança interior, o verdadeiro "Eu" vai ficando axfixiado pelas diversas personalidades que vamos criando ao longo do nosso crescimento,o ego que nos vai cobrindo como camadas de cebola que vai ofuscando a nossa luz interior. O principezinho vai ficando cada vez mais triste, definhando progressivamente, acabando por morrer pela dentada de uma serpente, símbolo da perda da inocência.

Imperatriz Sissi said...

@Paulo, a sua explicação e a da Tamborim são até ver as que mais me satisfazem. Se me falarem em existencialismo sou capaz de entender melhor a ideia-porque misticismo, coriscos, não vejo mesmo. Mas gosto dessa hipótese da serpente, já é um arquétipo que eu entendo. Se calhar toda a gente gosta do livro por ser esquisito e misterioso e enfim, porque as crianças o lêem de uma maneira simples mas os adultos se entretêm com o mistério. Não é o suficiente para me converter mas pacifica um pouco a minha embirração...

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