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Tuesday, July 24, 2012

Guerra e paz irmãs são*


Há pouco, uma roda de pessoas minhas conhecidas discutia Sun Tsu no Facebook, e daí houve quem partisse para uma perspectiva idealista da humanidade - " com a guerra não se consegue a paz", e por aí fora, versus "é preciso reconhecer que o conflito é inerente ao ser humano, e só admitindo a realidade se consegue contornar as consequências desses maus instintos". A conversa veio ao encontro de uma ideia que me tem ocupado o espírito por estes dias, e que já foi abordada aqui, em vários posts. Para o bem e para o mal, eu sou tudo menos uma idealista. O realismo, uma perspectiva racional e desencantada, foram-me necessários desde muito cedo. Uma coisa é pugnar pelo que gostaríamos que a sociedade fosse - e creio firmemente que devemos deixar este mundo melhor do que o encontrámos - outra é partir do princípio de que tudo é lindo, de que todos nascem bonzinhos e amiguinhos, que devemos dar a outra face indefinidamente, e ideias deste jaez. Apesar de todas as áreas cinzentas, de toda a elasticidade de perspectivas, de toda a tolerância, o mal existe. E é feio de ver, em todas as suas formas. Ganância desmedida, desonestidade, roubo, ultraje, crime, calúnia, sensação de impunidade, cobiça do alheio, atrevimento ilimitado, ignorância perigosa,  sadismo, violência gratuita, ódio sem causa justa, tudo isso é real. Demasiado real.
E muitas das vezes, por muito bem que fique pregar, não se vence "matando por excesso de gentileza" com conversas olhos nos olhos,  bofetadas de luva brancasermões moralistas  e bonitinhos nem bons exemplos. A realpolitiks é um mal necessário. Para quem tem de facto maus fígados, atitudes magnânimas só servem de incentivo para continuar a escalada de agressões. Aos olhos de um predador - seja o bully da escola primária, o rival doido, o criminoso, o patrão sádico ou o patife empedernido - uma atitude "superior" de "nem mereces resposta" ou aparentemente passiva só tem um nome: convite. Vulgo, "sou um xoninhas. Uma vítima mesmo a jeito. Anda cá fazer-me pior, que eu deixo". 


Como ouvi a um padre, quem dá sempre a face acaba com um torcicolo! Jesus mandou voltar a outra face, mas não disse quantas vezes!


 Infelizmente, por vezes é preciso combater fogo com fogo. Quem é maldoso e/ou agressivo só entende a sua própria linguagem  (o uso que se faz da mesma e os modos de controlar os estragos já são outra história). Quem é deliberadamente mau para os outros só respeita pessoas capazes de lhe fazer frente. A História, a experiência - e atrevo-me a atirar, a estatística - comprovam-no. Basta procurar.
 Dizia a avó Celeste, uma das senhoras mais piedosas e praticantes do mais puro ideal cristão que já me foi dado ver, "Nosso Senhor também não gosta que sejamos palermas!".  Usando o Bom Livro como referência, chego a uma conclusão: se todo o mundo seguisse as regras do Novo Testamento (um dos melhores manuais de boas maneiras alguma vez escritos) era uma alegria. Este planeta era o Paraíso. Mas a humanidade não é assim, venham à Terra os Deuses e os dilúvios que vierem. É caso para dizer que Deus Nosso Senhor bem se esforça, mas toda a gente faz orelhas moucas. E partindo desse princípio, o Deus do Velho Testamento - belicoso, orgulhoso, combativo - é muito mais plausível, razoável do que o Novo, que incita à vigilância constante, ao aperfeiçoamento, a um ideal quase impossível -  bom de tentar, mas difícil de preencher. O Deus do Velho Testamento é mauzinho, mas justo. E não nos castiga por estarmos furiosos com razão.
Por vezes, por muito correcto, iluminado ou cheio de fé que se seja, não há divindade que nos valha se não nos valermos a nós mesmos.
 Descer do salto, mandar dois berros ou retribuir uma "gentileza" segundo a lei de Talião é muito mais eficaz do que adiar, por medo ou bondade, um confronto inevitável - e em última análise, uma receita mais rápida para a libertação...e o sossego. E há sempre modo de o fazer com classe. 


*Sérgio Godinho, na sua lindíssima canção Guerra e Paz.















2 comments:

Cristina Torrão said...

"Quem é deliberadamente mau para os outros só respeita pessoas capazes de lhe fazer frente" - uma grande verdade. A nossa tradição judaico-cristã, baseada na humildade, no altruísmo a todo o custo e na submissão é uma grande treta. Ou melhor: interpretamos mal estes preceitos. Fruto da educação que me deram, vivi, durante muitos anos, com esse idealismo, do género: se for boa e simpática para os outros, eles também o são para mim. Lérias! Passam a vida a aproveitar-se de nós, fazemos figuras de parvas e ainda nos censuramos, dando cabo da autoestima.
Em frente, sem medo de conflitos!

Imperatriz Sissi said...

Cristina, concordo que é mais uma questão de se "retorcer" a tradição judaico cristã - que a História mostra não ser tão passiva e humilde como isso. Se pensarmos nos cruzados, entre outros exemplos...muito bons cristãos sim senhor, mas não permitiram que os turcos abusassem na Terra Santa! Houve outros motivos é certo, mas é inegável que muitos participaram por pura devoção. Na vida, estou com o tio Maquiavel: "o Bem sempre que possível, o mal sempre que necessário".

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