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Sunday, July 15, 2012

Iolanda, a Rainha dos 4 Reinos


Chamavam-lhe " a mais bela e sábia Princesa da Cristandade" com ânimo varonil e "um coração de homem num corpo de mulher". Iolanda (também conhecida pelo nome que recebeu no berço, Violante) nasceu em Saragoça, Aragão, a 11 de Agosto de 1348. Veio ao mundo sob o Signo de Leão - num espaço e tempo férteis em magos, profetas e astrólogos - e como nativa do Sol parecia de facto predestinada a brilhar, tanto pelos seus dons naturais como pelas circunstâncias em que, de forma calculada ou não, viria a estar envolvida. O seu papel foi determinante no desenrolar da Guerra dos 100 anos, para a actuação de Joana
 D´Arc e para a subida de Carlos VII ao trono. 

Iolanda (vitral da Catedral de Mans)
    Iolanda era filha de João I de Aragão e da sua segunda mulher, Violante de Bar, neta do Rei João II de França. Apesar de a  sua primeira consorte, Marta D´Armagnac, lhe ter dado um filho por ano em cinco de casamento até à sua morte e da segunda ter feito outro tanto, apenas duas filhas do Rei aragonês vingaram: Joana e Iolanda. À falta de herdeiro varão, o Rei vigiou de perto a educação da filha mais nova, reconhecendo-lhe a brilhante inteligência e a agudeza de espírito, e preparou-a pessoalmente para os desafios que sem dúvida a aguardavam.
 A 2 de Dezembro de 1400 foi selado o seu casamento com João II, Duque de Anjou, como parte dos esforços para encerrar os conflitos que há muitos anos envolviam as duas Casas pelo domínio da Sicília e Nápoles. 
"Maison de la Reine de Sicile" (Loire) onde Iolanda  alegadamente viveu os seus últimos anos
A bela noiva tinha apenas 16 anos e o seu prometido 23 - pouca idade para um cargo tão pesado - mas o casamento revelar-se-ia tão feliz quanto o pode ser uma união deste género, e o casal teve cinco filhos que chegaram à idade adulta: Luís III de Anjou, Rei Titular de Nápoles; Maria, mulher de Carlos VII e Rainha consorte de França; Iolanda, que casou com o Duque da Bretanha; Carlos, Conde do Maine; e René, que sucederia ao irmão Luís como Duque de Anjou e Rei de Napóles, governaria a Lorena através do seu casamento com a respectiva Duquesa,  Isabel, e passaria à história como " o bom Rei Renato". 
"O Bom Rei Renato", filho de Iolanda
A morte do velho Rei de Aragão gerou uma série de atribuladas disputas: uma vez que as leis de sucessão favoreciam os herdeiros masculinos, o seu irmão mais novo, Martim, tomou o seu lugar. Quando morreu sem deixar herdeiros, Iolanda reivindicou energicamente o trono de Aragão contra as pretensões do seu parente castelhano, Fernando de Antequera.
 Como resultado, a jovem passou a ser chamada "Rainha dos Quatro Reinos": Sicília, Nápoles, Jerusalém e Aragão. Outros territórios associados ou controlados temporariamente pela sua família incluíam Maiorca, Valência e Sardenha. No entanto, o seu maior domínio incidia nos feudos angevinos em França -  sobretudo Provença e Anjou, mas também o Bar, Valois, Touraine e Maine.
Carlos de Valois ( Carlos VII)
 Com o marido frequentemente ausente em Napóles, lutando para conservar os seus territórios  italianos, e os interesses dos filhos menores a defender, Iolanda foi obrigada a actuar inúmeras vezes como regente, mostrando a sua sagacidade e génio político. 
Astuta, colocando o dever acima de tudo, podemos considerá-la uma praticante da Realpolitik, não hesitando em recorrer a métodos pouco condizentes com a sua imagem digna e graciosa: dizia-se que empregava uma rede de belas mulheres, amantes dos homens em posições-chave, que actuavam como espias ao seu serviço nas cortes rivais. Logo no início da Guerra dos 100 anos, Iolanda escolheu apoiar os franceses, em particular a Casa de Armagnac, frágil em comparação com as facções inimigas.
Ficheiro:Jeanne d'Arc - Panthéon III.jpg
Coroação de Carlos VII
 Foi graças aos esforços de Iolanda  que o seu genro, Carlos de Ponthieu, o filho do "Rei Louco" pôde subir ao trono: entre 1416 e 1417 morreram inesperadamente o Delfim, Luís, e o irmão do meio , João. Ambos tinham estado a cargo do Duque de Borgonha, João Sem Medo que, juntamente com a mãe dos infelizes jovens - a desmiolada Isabel da Baviera -  era aliado dos Ingleses. Receando que o genro tivesse igual destino, Iolanda tomou-o sob sua protecção, agindo como uma segunda mãe.
 Aos 33 anos, a Duquesa de Anjou via-se viúva, com vastíssimos territórios para gerir, com os seus domínios franceses ameaçados e tendo ainda a seu cargo o destino da Casa de Valois. Jovem e vulnerável aos caprichos do Rei Inglês, Henrique V e do seu primo Sem Medo, e com os seus aliados mais próximos (os Duques de Orleães e Bourbon) feitos prisioneiros na desastrosa batalha de Agincourt, Carlos manteve-se a salvo graças à sua mãe adoptiva, que o levou para a Provença. Quando Isabel, furiosa, tentou reclamar o filho, Iolanda deu-lhe uma resposta bem torta: não o devolverei para acabar morto como os irmãos nem louco como o pai! Vinde buscá-lo, se vos atreveis!
Iolanda manobrou para proteger o genro, rodeando-o de conselheiros leais a Anjou. Foi também responsável por tornar um membro da família ducal bretã - Artur, Conde de Richemont - condestável de França em 1425, e por apoiar Joana D´Arc quando todos duvidavam dela, financiando o seu exército. O resultado é conhecido: Carlos foi coroado em Reims a Julho de 1429 e seria o vencedor final da Guerra dos 100 anos.
   Iolanda de Aragão foi uma mulher marcante - pelo génio, pela beleza, pela extraordinária época em que viveu e que influenciou inegavelmente. No entanto, a forma discreta como manobrou os acontecimentos nos bastidores e a grande notoriedade da "Donzela" contribuíram para que a sua figura se mantivesse numa relativa obscuridade. Não é, como seria de esperar, um alvo de estudo preferido de historiadores e estudiosos simpatizantes do feminismo.Talvez porque sabia jogar como mulher, sem remar contra o poder masculino- com astúcia e subtileza, encanto e graciosidade.


8 comments:

Panurgo said...

Os feministas (enfim...) são avessos àquilo que é próprio do carácter feminino: a nobreza.

Maria Pitufa said...

Por acaso há uns anos atrás li (acho que era uma triologia) exactamente sobre a Casa de Anjou, durante o período de Iolanda. Romanceado é um facto, mas historicamente bom!E quando comecei a ler o post consegui identificar logo de quem favas...sem dúvida uma mulher que fez frente a muito homem!

Imperatriz Sissi said...

Muito se poderia dizer sobre essas palavras...

Imperatriz Sissi said...

Ora se era. E o mais curioso é que os homens não estranhavam obedecer-lhe ou ser enfrentados por ela. Era uma questão de posição, condição e carácter, mais do que de sexo. Esse detalhe, que hoje nos parece tão relevante, na época tinha uma importância relativa - ao contrário do que se julga hoje. Achamos que o nosso tempo é o supra sumo em tempos da "libertação" da mulher, mas houve várias alturas em que as senhoras tinham bastante "liberdade". Só se colocava menos ênfase na "igualdade"...o que quer que isso signifique.

Maria Pitufa said...

é verdade, mas se repares a história, na mesma época em que as mulheres, essencialmente das classes altas, não tinham direito a opinião, tens umas quantas que se tornaram figuras de relevo e com imensa importância no decurso da História...

Unknown said...

Gostaria de saber que ligação tem Sissi a imperatriz com Santa Isabel.de Aragão. Pois este é o título e me atraiu muito. Mas quando comecei a ler, percebi que não se trata delas....

Imperatriz Sissi said...

Olá Unknown. Imperatriz Sissi é o nome aqui do blog, onde se fala (entre outros temas) de mulheres famosas. Se fizer uma pesquisa nos posts, encontrará vários artigos dedicados quer a Santa Isabel de Aragão, quer a Isabel da Áustria (Sissi). Mas até onde sei, não havia ligação familiar entre as duas. O post que acaba de comentar é sobre outra senhora, esta sim da Casa de Aragão, Iolanda, Duquesa de Anjou. Obrigada pela visita.

Unknown said...

Entendi! Muito obrigada!🙏

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