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Friday, July 13, 2012

King for a Day: to love a fool

 

Por fora ele era o mesmo homem que tinha amado: mas as palavras, os gestos e os actos tinham-se transformado de tal modo, tinha chegado a tais extremos, espezinhado de tal maneira tudo em que ambos acreditavam até ali que ela já não o reconhecia. Colocava em risco tudo o que amava, as coisas mais sagradas eram expostas ao perigo por conta de uma insignificância. Ao primeiro impacto afastara-se, esperando que a tempestade passasse se lhe saísse do caminho. Ele viera, com promessas de arrependimento nos olhos cinza claro – mais claros que a espada que brandira a esmo, na ânsia de a despedaçar – para logo prosseguir em delírios, mais brandos desta vez, mas não menos perigosos, determinado a descer até ao fundo do abismo: se não de um salto, pelo menos em passos calmos e cautelosos. Arranhando-se nos espinhos, mas afirmando aos quatro ventos que nunca os plantara, que não lhe diziam respeito e que como não se aproximava deles, não se cruzava com os picos cortantes, estes não o poderiam atingir. Era uma figura bela e imponente, dizendo-lhe “vem tu também! Não te podem fazer mal” numa alucinação frenética. Desejava cruzar as sendas escuras e sujas na sua companhia, enlaçando-a enquanto os picos lhe rasgavam a carne e a lama lhe manchava a barra do vestido.
Duas lágrimas interiores, invisíveis, pequeninas e mudas, correram-lhe pela face, que o sofrimento prolongado e silencioso transformara numa linda máscara de mármore. Ela sempre julgara que por uma estranha e sagrada alquimia, um Rei de pleno direito não podia ensandecer. Ouvia falar em mulheres que amavam o soberano, e não o homem, pois essa era a única maneira de escapar incólumes – ai dela, nunca o pudera fazer. Caíra no erro de amar o homem, embora o monarca parecesse cada vez mais distante da realidade, o corpo que ela conhecia se entregasse a inacreditáveis desvarios e a alma que ele lhe entregara parecesse mais e mais corrupta. Fora uma fatalidade. Para que entrara ele na sua casa, quando alheia a demandas e linhas de sangue, ela trabalhava as suas obras, tranquila e isolada, tecendo? Para que a reclamara e construira para ambos não um palácio, mas uma casinha perfeita, com um jardim de fontes, jasmins e camélias brancos de neve, tão pura que nenhuma infâmia a podia tocar? Desejava agora despedaçar essas memórias, desfazer em pó os laços que os uniam, porque sempre ouvira: uma mulher sensata só pode amar o que conhece; quando encontra um doido e um estranho no seu lugar, quaisquer sentimentos devem morrer por si. Devia ser isso que estava a acontecer-lhe, o veneno abandonava-lhe as veias a pouco e pouco. A dor era excruciante, mas -oh, ironia – continuava viva e forte, consciente enquanto ele continuava a viver o seu sonho febril. Para ele era tudo tão fácil. Transformava-se e achava natural que ela fizesse outro tanto, muito surpreendido com a recusa. Mas o filtro perdia o seu efeito e ela via as coisas como elas eram: irremediáveis, inevitáveis, tal como fora o seu primeiro encontro e a realização de tudo o que houvera entre eles. Chegara, consumara-se, crescera e agora morria, como qualquer força na natureza. Não desejava humilhá-lo, nem vingar-se dele, só arredar-se da sua loucura. Talvez ele fosse como os Reis de velhas crónicas, que reinavam por um dia só – no que lhe dizia respeito, o reinado dele acabava ali.
Soon you´re going to find, you should have been talking straighter. There´s no love ever to be last between us. I won´t put you down…I´m in no hurry to see you go to the ground, because it´s true what they say. You´re only king for a day…I guess you´re happy that way.

    

1 comment:

MissTee said...

bonito texto, tens jeito para a escrita :)

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