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Sunday, July 8, 2012

Letras que estragam o nosso país

"Andei eu a sovar mouros para isto?"
 Venham as mudanças e os regimes que vierem, há características culturais dos Portugueses que nunca mudam. Algumas têm vindo a acentuar-se mercê das circunstâncias e mal dirigidas, são extremamente perniciosas para o bem estar e o futuro do nosso País. Outras, que eram positivas, diluiram-se na poeira dos tempos, mas podem ser recuperadas e adaptadas à época que se vive: não é possível correr invasores à espadeirada, mas podemos perfeitamente encarnar a mesma atitude valorosa, de independência mental e auto estima: basta que nos demos ao trabalho de observar e reflectir...entenda-se que isto não pretende retratar todos os portugueses, mas uma certa (e abundante) percentagem da população.
                               
A: de Atrevimento
O português associa "respeito" a "medo" ou seja, respeita apenas quem é mais forte do que ele. Se lhe derem uma boa desculpa para atacar impunemente quem costumava estar "acima" fá-lo com todo o prazer, para se vingar de eventuais sapos que tivesse de engolir no passado, ou mesmo de sapos imaginários. É ressabiamento, trauma. É cortês enquanto está tudo bem e é suposto respeitar o status quo, incapaz de levantar a lebre para se defender - mas se lhe derem asas vai de atirar pedras a tudo o que possa significar autoridade: foi o Rei, depois a Igreja, a classe política ( gritam "são uns ladrões" mas votar e intervir, está quieto) os professores (trauma da reguada), uma lista infinita. A cada revolução a primeira coisa a ser abolida é a boa educação, que o povo quer liberdade para dizer/fazer os disparates que lhe apetece. No fundo,  relaciona cortesia  com ditadura e por isso, adora ter uma chance de extravasar e ser malcriado -só não é se não o deixarem. Falta-lhe um mecanismo de auto regulação, de respeito por si próprio e pelos outros.


A: de Arrivismo
O mais triste é que, apesar de barafustar contra supostas elites, o português queria estar no lugar delas e fica furioso se lhe negam o direito à fatia que acha que lhe compete. E assim que tem oportunidade de realizar, não o saudável sonho de ter êxito, mas a quimera de "subir na vida" de modo a "fazer de ver aos outros" age pior do que os que o precederam. A obsessão de subir na vida é tanta que para isso vale a pena ser corrupto e espertalhão. O português "safa-se" e os outros, mesmo que achem mal, dão o desconto: "eu faria o mesmo; uma pessoa tem de se safar!"  Tem de ser "doutor" à força, mesmo que não haja mercado para tanto doutor, e o carro tem de ser topo de gama, por mais dívidas que se façam: porque afinal, ele não é menos que ninguém. O complexo de inferioridade rege todas as suas atitudes: o português não "tem sucesso" como os outros, "safa-se". E quando lá chega, espezinha os que estão abaixo porque sonhou fazer aquilo desde que era pequenino...




D: de Desenrascanço, Desleixo e (falta de) Disciplina
É bom ser flexível e ter soluções para tudo, mas isso não substitui a preparação prévia, nem um planeamento detalhado. Diz quem sabe que os soldados portugueses sempre foram conhecidos pela valentia, mas também pela falta de aprumo e disciplina - e sem disciplina não há coragem que valha. É triste sermos eternamente olhados de cima pelos alemães e ingleses como um bando de selvagens, incapazes de organização e pontualidade. Ser espontâneo, caloroso e criativo são qualidades excelentes, mas é preciso ver que as aparências contam e que soa reles estar sempre a dar desculpas esfarrapadas para atrasos, incumprimentos, etc. Desenrascar é bom em momentos caóticos, mas é impossível viver num caos permanente. E o resultado está à vista.


H: de "Humildade"
Perguntem ao português o que é que ele aprecia numa figura pública e ele dirá inevitavelmente "a humildade". Mas se repararmos em muitas personalidades a quem atribuem essa qualidade, por vezes vemos que não é assim: o português confunde modéstia e amabilidade com pobreza e parolice, porque não gosta de apoiar quem parece demasiado brilhante, distinto ou seguro de si - e que é, portanto, uma ameaça. A única saída para quem não é considerado humilde (mesmo que seja a modéstia e bondade personificada) é ser aplaudido no estrangeiro. Porque nesse caso, pode ser a pior besta de que há memória, mas tem decerto a devoção cega do público nacional. O que vence "lá fora" é bom, porque a confirmação "lá de fora" é a alegria, o sonho, a meta suprema  do lusitano, incapaz de avaliar seja o que for sozinho.


I: de Invertebrado
Muitos males do português advêm da falta de espinha dorsal: atura todos os abusos com um vago receio, nem sabe de quê. Se um dia chegar a chefe, fará exactamente o mesmo.  É incapaz de dizer da sua justiça com dignidade: um simples "o senhor está equivocado; isto não é justo/ético/legal" é demais para ele.  E como ninguém admira quem se rebaixa, instala-se um ciclo vicioso. Se por outro lado tiver um superior/professor genial, mas que seja bondoso e justo, poderá, por sua vez, abusar, porque se julga diante de "um palerma" e só não aproveita quem é parvo. Uma vez que lhe meteram na cabeça que o país é pobre e pequenino, acha que se deve sujeitar a tudo. Como associa o orgulho nacional ao tempo da outra senhora, acha-se no dever de reclamar, mas sempre em surdina e de uma perspectiva de impotência, atado com guitas imaginárias. Em maior escala, parte sempre do princípio que " o estrangeiro é que sabe" e acata como coisa sagrada tudo o que vem de Bruxelas, nem que seja o pior disparate.


I: de Inveja e Inglês- ver
Com tudo isto, o português fica frustrado e dá largas ao defeito por excelência, a Inveja. Em vez de apoiar  quem é brilhante e pode beneficiar todos, prefere sufocá-lo para que não lhe retire o precioso protagonismo. O tuga inveja quem é mais bonito, mais bem sucedido e sobretudo, mais rico do que ele, sem se perguntar se teria qualidades para estar no mesmo lugar nem considerar as exigências do papel que inveja. Mas não o diz na cara: insinua-o como quem não quer a coisa, porque sempre dá jeito ser amigo de quem está "bem na vida". Pelas costas, rosna contra todos a quem tira o chapéu. Alguns dizem-se muito "de esquerda" só pela possibilidade de cortar na casaca aos supostos ricos que tanto detestam. Curiosamente, uma vez no poder rodeiam-se dos criticados "luxos capitalistas", porque a lusa gente  não perde uma chance de ostentar a sua riqueza. Nem que seja a bem do "para inglês ver", essa instituição nacional.




M: de Medo e Miúfa
Medo do chefe, medo de intervir, medo de ser despedido, medo de se defender, medo de se meter, medo de que sobre para ele, medo  de fazer o que é justo, medo de Bruxelas, medo do Sr. Presidente, medo dos mercados, medo da crise,  medo de reclamar...o português leva em média 50 anos para perder a transmontana e lutar pelos seus interesses. Poucos povos haverá que tenham conquistado a sua independência a pulso, aberto novos mundos ao mundo, sobrevivido a um terramoto como nunca se viu, e mesmo assim, tenham medo de tanta coisa. Só se atrevem quando vêem os outros ir primeiro: aí imitam-no todos, porque quando acorda um português...vão logo dois ou três. E pensar pela própria cabeça, não? Não é que sejam cobardes: são cheios de hesitações e temem coisas parvas, é tudo.


P: de Parvenu e Pantomineiro
Fomos "o último país rural da Europa", mas o português quer por força ser urbano (juro que li recentemente alguém que disse "estou cada vez mais urbano", como se isso fosse qualidade a adquirir a todo o custo) e faz tudo para parecer cosmopolita, da maneira mais postiça e superficial que pode haver. Falta-nos autenticidade: o português tem horror ao genuíno, adora esquecer de onde veio. Temos um país de jipes na cidade e Mercedes no campo, um país apaixonado por bombas topo de gama para inglês ver. Cortam-se as árvores à porta das moradias para não tapar a vista da "vivenda" e ostentar a "beleza" da mesma, não vão os ladrões não saber onde é a porta. Privacidade e os encantos do campo, tão apreciados por povos mais sofisticados, não satisfazem o desejo de ostentação do portuguesinho, eterno pseudo novo rico (que às vezes, nem a isso chega...). Afinal, para que serve estourar o plafond do Visa em coisas boas e de marca se ninguém perceber que as têm e não servirem para "fazer de ver"  nem para fazer inveja? É que tira a graça toda e não se é menos que os outros, pois então.


S: de Servilismo e Submissão
 Vide Invertebrado.




T: de Treta
As telenovelas, os "artistas",  a admiração por alpinistas sociais, o pão e circo, os reality shows, exibir cupcakes, brunch e sushi, o "ser fashion", a obsessão com o "in", o "trendy", os jogadores da bola, as ex dos jogadores da bola, os Dâmasos Salcede da vida,  as que querem casar com um jogador da bola ou outro ricaço que apareça, o silicone, as pessoas que escrevem "celicone", anunciar na imprensa que se colocou silicone, a tolerância com o pimba, o pimba que ficou mainstream, as pimbalhadas chic, entusiasmar-se com os Globos de Ouro, o abuso da palavra "chic" e seus superlativos, a logomania, a loucura pelas marcas "tendência", a pelintrice, o pseudo jet-set, o abuso do termo "tendência", esperar na fila de uma loja, mesmo que seja de luxo, andar à pancada numa promoção do supermercado, dizer " Fátima é um covil de ladrões" mas fazer uma promessa à Nossa Senhora assim que a coisa fica preta, não votar porque é dia de ir à praia e "assim como assim é tudo o mesmo" mas reclamar depois, os ginásios da moda, as cristas no cabelo, a adoração por lojas normalíssimas, as carteiras contrafeitas ou qualquer tipo de contrafacção, os cabeleireiros de centro comercial com montra para todo o mundo ver a lavagem de cabeças, debitar na blogosfera que se foi à depilação, tratar mal a senhora da limpeza, a literatura light, cuspir para o chão, olhar fixamente para os outros e ainda ser malcriado se reclamam, mandar piropos ordinários, as praias da moda para ver e ser visto, o não estar à vontade, o querer ser o que não se é, o uso de vocabulário que não se conhece só porque "é cool", o querer parecer cool, o acordo ortográfico, as pessoas que escrevem "então, trabalhasse?" em vez de "então, trabalha-se?", and so on, and so on...

2 comments:

Unknown said...

" Temos um país de jipes na cidade e Mercedes no campo" - pérola aqui mesmo!

Imperatriz Sissi said...

Isso é falar como um blogger! Por falar nisso..."cadê"?

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