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Monday, July 9, 2012

Othello, outra vez: o “honesto” Iago



Laurence Fishburne e Kenneth Branagh

“Trabalha, meu veneno! Trabalha!”
(Iago, Acto IV, Cena I)

Esta imortal obra de Shakespeare foi referida aqui recentemente, mas volto a trazê-la à baila porque se mantém tão actual. O público de hoje pode facilmente rever-se no enredo de inveja, intriga e ciúme. Demasiado, infelizmente – em especial se atentarmos aos casos tétricos de “Desdémonas modernas” que aparecem nos jornais portugueses dia sim dia sim…
Para quem está esquecido, a tragédia (baseada num conto italiano escrito por um discípulo de Boccaccio e publicado alguns anos antes, possivelmente inspirado em factos reais) conta a história do general mouro ao serviço do exército de Veneza, Othello. Apesar da sua integridade, e dos seus feitos nobres e valorosos, o guerreiro é olhado de lado pela sociedade veneziana. Não obstante, conquista a linda filha do Senador Brabâncio, Desdémona, que foge para casar com ele, contrariando a família.
A trama é lançada quando Othello promove o seu confidente, o belo Cássio, a tenente em detrimento do seu alferes, o malvado Iago. Iago tem inveja de Othello e embora aparentemente lhe lamba as botas, no fundo odeia-o; considera-o um verdadeiro palerma e detesta estar às ordens dele. Ressabiado, urde um plano terrível para destruir Cássio e vingar-se de Othello, com a ajuda de vários comparsas – uns voluntários, outros levados ao engano. Conhecedor das fraquezas humanas, Iago manipula toda a gente sem nunca dar a cara, fazendo os outros apanhar as culpas pelas suas tramoias (e eliminando assim habilmente os cúmplices que poderiam denunciá-lo) enquanto passa por servo fiel e imprescindível, acima de qualquer suspeita. É a personagem maquiavélica por excelência, mas encobre tão bem as suas manobras que todos lhe chamam “o honesto Iago”.
O vilão instala a dúvida na mente do mouro, persuadindo-o gradualmente de que Desdémona o engana com Cássio, orquestrando artimanhas, pessoas e circunstâncias para que as suas mentiras pareçam apoiadas em factos e simulando sempre zelar pelo “amigo”. Chega ao cúmulo de avisar Othello contra os perigos do ciúme, dando uma no cravo, outra na ferradura. Por fim, planta a prova do crime: consegue subtrair a Desdémona um lenço oferecido pelo marido, uma herança de família com poderes de magia amorosa, e coloca-o nos aposentos de Cássio.


Muito sangue e desgraças depois o estratagema é revelado e Iago punido, mas tarde demais: doido de ciúmes, Othello mata a sua amada e suicida-se quando percebe que foi vítima de um logro.
Neste drama Iago é o verdadeiro protagonista e a personagem que mais facilmente se encontra no mundo real: dissimulado, ganancioso, cobarde e chico esperto, encaixa no perfil do sociopata dos nossos dias. Uma pessoa comum, medíocre até, um “gajo porreiro” e aparentemente inofensivo, só revela genialidade na perfídia. Iago é uma serpente que se aproveita tanto da bondade e ingenuidade alheias como da malvadez (e imbecilidade) dos seus cúmplices para espalhar veneno, dividindo para reinar. Tal como os psicopatas, possui um instinto aguçado para captar as debilidades dos outros e usá-los como peões nos seus planos perversos – e assim como eles, não mede os seus actos: julga-se invencível e uma vez apanhado, não mostra sombra de arrependimento mesmo face a um castigo terrível.
O “ Honesto Iago”  prova que uma única erva daninha pode conspurcar o jardim inteiro.
Mas para que um vilão desta espécie cause danos são precisos espíritos fracos que o deixem trabalhar. E em Othello há vários. 
 Cássio é ingénuo por confiar num óbvio rival, com razões claras para o invejar; Desdémona é tola por ignorar os avisos da sociedade e do próprio pai, casando com Othello sem lhe conhecer bem o carácter: o marido não entende os sacrifícios que ela fez por ele como prova suficiente de lealdade. O Mouro demonstra ser, além de ciumento patológico (que procura em toda a parte confirmação para as suas paranoias) supersticioso - confia mais numa bugiganga com alegados poderes mágicos do que na própria mulher – impulsivo e influenciável, emprenhando pelos ouvidos à primeira insinuação que lhe fazem e agindo de acordo, sem considerar que o acusador só tinha a ganhar se os acusados caíssem em desgraça. Em resumo, apesar do seu prestígio e experiência de vida, Othello não age como um homem lá muito esperto: deixa-se manipular pelas pessoas abaixo dele – subalternos a quem não devia permitir mexericos em primeiro lugar. Vê o mal em tudo, menos onde ele realmente está.
Há sempre que desconfiar dos “honestos Iagos” - portadores de más notícias que vêm a toda a pressa contar coisas desagradáveis, supostamente no nosso melhor interesse. Vivemos num mundo tão egoísta que é prudente estranhar quando alguém dedica demasiado tempo a cuidar da vida alheia, sob uma capa melíflua de honestidade e dedicação:

“ Se eu fosse o Mouro, não quereria um Iago sob as minhas ordens, pois seguindo-o, apenas me sigo a mim próprio: não me move o dever nem a amizade, mas apenas o interesse (…). Ficai certo: eu não sou o que sou”
(Iago, Acto I, Cena I)

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