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Monday, August 27, 2012

A nobre arte de Abrir a Pestana

                                 

"A Cor Púrpura" é um daqueles filmes que me prende ao ecrã por mais vezes que o veja. Não quero estragar a experiência a quem ainda não conheça este clássico, por isso vou resumi-lo como "o percurso de uma mulher que abre a pestana contra todas as possibilidades".

 A história gira à volta da heroína Celie - negra, pobre, submissa - que teve a sua auto estima amachucada uma e outra vez na Georgia do início do século XX -  muito antes dos Direitos Civis. Ou seja, um péssimo tempo e lugar para nascer mulher, negra, pobre e órfã. 

A desgraçada Celie parece ter vindo ao mundo sem sorte. É sucessivamente abusada, convencem-na de que é feia e inapta, é o pau mandado e o saco de boxe de toda a gente. "Eu não sei defender-me, só sei manter-me viva" diz ela a quem a encoraja a abrir os olhos e lutar por si mesma.  Mas isso acaba eventualmente por acontecer. Quando finalmente ela se convence do seu próprio valor e faz frente ao marido tirano - amaldiçoando-o e girando dali para fora - dá-se um diálogo mais ou menos assim:

Ele: tu não te podes ir embora. Tu lá tens poder para amaldiçoar alguém! És preta, és mulher, és pobre, és feia!
 Ela: Posso ser preta. Posso ser mulher. Posso ser pobre e posso até ser feia. Mas Deus me ajude, vou-me embora na mesma!



Isto passa-se com uma mulher - e por uma série de razões culturais e económicas, as mulheres parecem estar mais sujeitas, em determinados cenários, a situações destas. Mas podia acontecer a um homem. 

Pode acontecer a qualquer um, em qualquer camada da sociedade, época ou lugar. Ninguém está livre de sofrer tentativas de ataque, em maior ou menor grau. No mercado de trabalho, nos relacionamentos, na escola ( é o caso do bullying, tão falado ultimamente...) há sempre alguém que tenta diminuir o outro só porque pode e lhe apetece.

O que condena alguém ao papel de vítima não é  tanto a  sua situação económica ou social mais ou menos vantajosa, o seu sexo, a beleza ou a falta dela, mas a atitude de quem permite. Isso define tudo.

No more Miss Nice Girl!

 Já vi pessoas maltratadas por serem gordas, magras, excepcionalmente bonitas ou feias, mais pobres que os outros, mais ricas que os outros (olha o menino mimado!) por serem uns zés ninguém, por serem famosas, pelo insucesso, pelo sucesso a mais, por terem dificuldades de aprendizagem ou serem  sobre dotadas, pelos mais variados motivos. Há sempre alguma coisa por onde pegar, e quem gosta de ser mau para os outros faz sempre tentativas.  A diferença entre a vítima e a pessoa que se faz respeitar reside somente na capacidade de dar o troco. Na consciência do próprio valor, do "eu não preciso de aturar isto". No poder que cada um concede a si mesmo.


Numa escala mais pequena e menos grave, no espectro das amizades e relacionamentos, por vezes há uma das partes que procura, mais ou menos conscientemente, amesquinhar a outra, mantê-la emocionalmente dependente. Pessoas que têm a atitude "eu sou o último pacote de bombocas e todos os Pais Natais da cidade me querem" (lembram-se do anúncio acima? ) "se não queres há mais quem queira" e "eu dou 20% nesta relação, tu dás o resto se quiseres ter o privilégio de estar perto de mim". Por vezes não é culpa delas, mas foram educadas assim.

 Passar longe deste tipo de situação depende apenas desse poder interior. De ter respeito próprio por maior que a sua desvantagem seja. Da atitude "eu não preciso disto", "eu mereço melhor". De ver a "ameaça" como ela é realmente - um ser tão inseguro e triste que precisa de deitar outrem abaixo para se sentir bem.  Vulgo "isso até pode ser verdade. Mas olha para mim a girar daqui para fora. Que achas disto, hein? Olha para mim cheiinho (a) de medo. Lá fora pode ser assustador, mas é melhor do que isto". Quando vejo alguém a passar por coisas assim lembro-me sempre do discurso de Whoopi Goldberg, que devia ser repetido como um mantra por muito boa gente. Ser forte não é tanto um dom natural, mas uma questão de prática...como tantas coisas na vida.




3 comments:

mypencil2b said...

Gostei deste teu texto!!! :D

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Pencil ;)

Urso Misha said...

So true...
Vi o filme e adorei e quem lhe dá a mão é quem menos se esperava...
É tão normal na nossa sociedade.
Não só depender emocionalmente, mas economicamente etc.

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