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Wednesday, August 22, 2012

A nobre arte de pôr o coração ao largo

Sophie Marceau e Sean Bean


                                                                     Que sera, sera...


A avó Tete ensinou-me muitas lições valiosas, mas uma das mais importantes foi "põe o coração ao largo!" ou, se a coisa estivesse realmente preta " põe o coração ao largo e pega-te com Deus!". Era uma senhora muito serena, muito sábia, com uma classe à prova de bala. Nos seus tempos de rapariga fora a incontestável " bela do baile". Fazia os bons partidos das redondezas andar num virote, mas apaixonou-se irremediavelmente pelo meu avô - paixão correspondida que nem a morte separou - que era um bon vivant de primeira. Jovem e bem parecido, o avô punha tanto as meninas casadoiras como as "raparigas doidivanas" de cabeça à roda. Era muito popular, convidado para toda a parte. Como o futuro sogro, altivo como uma águia e vigilante como um falcão, só deixava as filhas assistir a festas muito escolhidas, de quando em vez, em muitos bailes ele não podia contar com a companhia da namorada. Com a desculpa de que " não se dança sem par" lá ia recebendo as atenções desta e daquela admiradora, facto que deixava a minha avó à beira de um chilique. Antes que fosse tarde demais e que ele " fugisse com uma maluca qualquer" ela não foi de modas: pôs-lhe um par de patins que quase o matou de desgosto. Andaram dois anos nisto, sem se falar, fazendo fosquetas e partidas um ao outro - e ela sem se ralar nem perder a compostura - mas o amor acabou por levar a melhor. Graças a essa e a outras experiências que passou ao longo da vida, ela sempre me disse " o que tiver de ser nosso, à mão nos vem ter". Seja o amor, o sucesso, o trabalho...não vale a pena uma pessoa consumir-se, desesperar, correr atrás, andar em ânsias ou fazer força. Quanto mais intensidade colocamos em desejos que não está na nossa mão realizar, pior: estraga a pele, atormenta a alma e não resolve nada. E como se consegue essa calma, essa tranquilidade transcendental, perguntava eu? É pôr o coração ao largo! Seja o que Deus quiser! Deus lá sabe o que é melhor!  Não era fácil explicar porque é uma coisa que só se consegue praticando, fake it ´till you make it. Passa por pegar na coisa que mais queremos, ou que mais nos preocupa, e separar-nos mentalmente dela: tratá-la como se não seja nada connosco; não querer saber e ter raiva de quem sabeo que for será, o que não tem remédio remediado está, há mais coisas na vida, mais marés que marinheiros e muito peixe no mar. É uma táctica de desapego com algo de oriental, que exige esforço, mas uma vez dominada nunca nos deixa na mão. Depois de anos de prática, em diferentes sectores da existência, atesto a eficácia dessa filosofia de vida quase zen, que me poupou  muitas angústias e desgostos e me permitiu reagir com uma calma diabólica a situações de deixar qualquer um em parafuso. Se calhar devia haver workshops destas coisas, para quem não teve uma super avozinha.

14 comments:

mypencil2b said...

Pessoa sensata a tua avó. Eu penso como ela e de facto é que sem esforço já me vieram parar muitas coisas boas às mãos :)

A Bomboca Mais Gostosa said...

Uau, estou aqui deslumbrada, que filosofia!
Acho que terei de pensar mais vezes assim...

O Sexo e a Idade said...

Venha o workshop que eu não tive avózinha e ainda não consegui aprender sozinha!

Imperatriz Sissi said...

Alguns autores chamam-lhe "Lei do esforço invertido". Também me acontece bastante...

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Bomboca ;) Aconselho a experiência, vale a pena.

Imperatriz Sissi said...

É um projecto a pensar...who knows?

Maria Pitufa said...

Que engraçado, a minha avó dizia o mesmo...a minha mãe diz o mesmo...ainda não domino a técnica mas vou tentando!!

Urso Misha said...

Grande avó,

A miha paterna, com quem convivi muito, também era um prato, aprendi muito, à excepção da pontualidade, atrasava-me sempre 2/3 minutos e o que ela ficava fula, mas não conseguiu resolver esse problema.

Um beijo para todas as avós

Sara Silva said...

eu adoro estas histórias de antigamente, principalmente se forem de amor :) tudo era baseado em valores morais respeitáveis e parece que havia outro encanto no romance...

Sem dúvida que este foi um belo exemplo para explicares essa teoria, com a qual tenho vindo a concordar cada vez mais!
não vale mesmo a pena "ficarmos vidradas" em algo, quase obcecadas, porque é da maneira que parece que ainda afastamos mais isso de nós. já me aconteceu várias vezes querer muito uma coisa, tempos depois já não lhe dou grande importância e é nessa altura que ela vem até mim!
é do tipo o de mistérios da vida que muita gente subestima, mas aos quais temos de prestar atenção se quisermos ter sucesso :)

Sara Silva said...

não sabia que esta teria tinha um nome! agora já tenho palavras chave para pesquisar mais sobre este assunto, fiquei ainda mais interessada :)

Imperatriz Sissi said...

Que engraçado! Não conhecia mais ninguém que usasse o lema :) . Ainda bem...é uma questão de aperfeiçoar a técnica praticando. Eu digo muito " a minha sobrevivência, ou mesmo a minha vida boa, não depende disto, pois não?".

Imperatriz Sissi said...

As avós são do melhor, Ursinho! Adoro ler histórias sobre elas ;) Acho que nunca conseguimos dominar todas as tácticas que nos ensinam mas tentar já é bom.

Imperatriz Sissi said...

Eu também adoro! Tenho muitas peripécias curiosas (principalmente desta avó, que era giríssima) e gosto imenso de ler coisas assim, contadas por outros bloggers ou escritores. Era outro tempo, com outro romantismo e glamour. E a lei do "faz um desejo e não te rales" é realmente eficaz!

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