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Wednesday, August 15, 2012

As discussões fashionistas lá de casa

Tenho uma família que é uma inspiração. Lembro-me de ser pequena e ficar toda contente quando os meus pais voltavam das compras, para ver que fatiotas tinham trazido. Há peças desse tempo que ainda por cá andam e pelas quais tenho um carinho muito especial, como um casaco de pele de carneira que continuo a vestir...
Outras que ainda recordo bem desapareceram - algumas por mea culpa - como um cinto castanho e dourado estilo "corda" que era da mamã nos anos 70, uma asneira bem escusada que nunca perdoarei a mim mesma, já que nunca mais encontrei nenhum que fosse tão giro e tão versátil. Usava-o com tudo e mais alguma coisa, mas caiu-me num passeio e nunca mais o vi. Uns sapatos estilo Mary Jane tipicamente anos 50 e de salto alto, lindos, lindos, que a avó usou no dia do casório, esses estão para as curvas - apesar de as duas mulheres cá de casa já terem dado algumas voltas neles. A qualidade desse tempo era outra louça...
O casamento da avó (1957). Adoro o tailleur e esta foto é uma das minhas preferidas
Já o traje de casamento da outra avó (à esq.) uma das coisas mais elegantes em que já pus os olhos  - um tailleur creme com um pequeno fascinator, que ficava a matar na beldade que era a noiva - esse não chegou até mim, infelizmente. Mas o estilo dela e das minhas tias foi uma das minhas maiores inspirações.
O meu trisavô, esse era um verdadeiro janota da Belle Époque, e apesar de dândi e bon vivant, tinha entre os seus investimentos uma casa de alfaiataria (onde se ia abastecer, comme il faut). Uma bisavó do outro lado fez a sua formação numa modiste francesa, porque o pai queria evitar que ela metesse ideias "modernas" na cabeça e se limitasse a fazer um óptimo casamento, como era sua obrigação. Deu mau resultado e tudo acabou numa verdadeira tragédia romântica, mas em compensação as filhas vestiam sempre lindamente...e a paixão pela moda cá ficou. Acho que é por causa destes avós que sou tão picuinhas no que concerne a tecidos, moldes, cortes e acabamentos, apesar de nunca ter aprendido a costurar.

 De modo que na minha família cada um tem um estilo próprio. Os meus pais conheceram-se nos anos 70, quando estavam na moda as motos, os cabelos longos e o que por cá se chamava freak, um estilo rebelde a meio caminho entre o hippie e o punk. Divertiram-se à grande com as camisas justíssimas, as túnicas, os casacos de cabedal, as botas de couro envelhecido e brilhante (que vamos ver muito nesta temporada) e as calças skinny (que sucederam as bocas de sino e as pantalonas) alternadas, no caso das meninas, com jerseys de malha, vestidos muito femininos e saias por baixo do joelho. A carreira militar obrigou o papá a usar com grande garbo as fardas - casou de uniforme de gala - e hoje alterna algumas modernices preppy com um certo british style, que é o que gosto mais de lhe ver. Já a senhora minha mãe adorou os tempos da sua adolescência, as RGA e o idealismo romântico daquela época, pelo que conserva sempre algo de boho e hippie chic nas roupas que escolhe, embora eu a chateie  para manter o tipo de tailleurs por medida que eu adorava ver-lhe na minha infância.
Hair: os meus pais adoraram este filme e eu continuo a pasmar para alguns dos figurinos...                                                     
No entanto, é de uma correcção absoluta quanto ao que uma senhora deve usar a partir de certa idade, e nisso consegue um equilíbrio fabuloso entre o que não é aborrecido, nem excessivamente jovial. Por sua vez, ela arrelia-me dizendo que sou demasiado clássica, preferindo quando eu incorporo elementos góticos ou românticos no visual. Eu chamo-lhe permissiva com certas coisas - como a ganga com lavagem que ela gosta de ver em outras mulheres e que a mim me dá arrepios - ela não gosta quando pareço too uptight na opinião dela, puxando pelo meu lado artístico. Acabamos a acusar-nos mutuamente de ir vestidas de saco de batatas, mas são discussões construtivas que acabam por desafiar-nos a esculpir o nosso estilo pessoal, dentro dos gostos de cada uma. E têm acontecido bastante ultimamente, nas operações de logística que aqui tenho partilhado. Exemplo:

Sissi: mãe, outra vez com esses balandraus? (tradução: túnicas)
Mãe: fala quem anda com camisões e laçarotes peneirentos.

O resultado acaba por ser giro, porque nos esforçamos por harmonizar um aspecto polido com algo de arrojado e inspirador. Mas no quesito correcção e "estar impecável" não há ninguém como o meu irmão. Acho que nunca se deu ao trabalho de abrir uma revista de moda na vida, mas tem um gosto e uma percepção do que é próprio aguçadíssimos. Posso consultar o meu pai para perguntar se estou gira (e para ver se ganho botas rasas ou flats, que são das coisas que ele gosta de me oferecer) a mãe para tirar ideias, referências ou para saber se o vestido me favorece - porque se não favorecer um bocadinho que seja ela di-lo sem dó nem piedade, é do melhorzinho - mas para tirar réstias de dúvida entre o que é adequado, nada como Sua Alteza o mano. É a coisa mais depurada e exigente que já conheci. Distingue, num relance - e sem se interessar népia por roupa - se a toilette é realmente elegante ou roça ao de leve a pinderiquice. Se o mano diz que está bem, é porque está bem, e não há inspecção que me meta medo. Teria uma grande carreira como personal shopper, se não se recusasse terminantemente a pôr os pés nas lojas. É a genética, lá dizia o outro...





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