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Thursday, August 30, 2012

Gostar tem limites

Há algum tempo que aqui a Godmother andava com vontade de ler o romance de Mario Puzo que deu origem ao filme (que preciso de rever, pois tenho dele uma memória muito vaga) The Godfather. Ontem, por mero acaso, arranjei um exemplar e estou bastante impressionada quer com a prosa, quer com o protagonista, Don Corleone. Claro que o livro tem partes de arrepiar ( até ver, da autoria de outras personagens) mas o Padrinho é, em essência, um anti-herói, um generoso homem à moda antiga fiel aos códigos de honra dos seus antepassados, de uma lealdade extrema aos amigos. Um mafioso fofo, vá, que começou por negociar em azeite. A sua bolsa, os seus homens, os seus favores estão sempre ao alcance daqueles, pobres ou ricos, poderosos ou humildes, que lhe jurem amizade. Para obter justiça? Falem com o Padrinho. Para resolver um problema que parece impossível? Lá está o Padrinho. Todos gostam dele, é o Pai Natal daquela gente toda. Um dia poderá - ou não - cobrar o favor, que pode ir de obter uma informação importante a receber legumes ou bolos frescos da loja do devedor. Obviamente segue as velhas máximas italianas, como "o bem sempre que possível, o mal sempre que necessário" e "odiar e esperar"  apoiado nas regras da omerta, pois claro.


Salvo as devidas diferenças (sou uma pessoa honesta, não dirijo um império e nunca faria mal a cavalos, nem a outro bicho qualquer com a honrosa excepção das centopeias ) identifico-me com a atitude da personagem, no sentido de ter uma lealdade absoluta às pessoas que me são próximas e de esperar delas o mesmo. Não sei se isso vem  do meu lado siciliano, do meu lado celta, da educação que recebi ou disso tudo junto, mas tenho uma noção de clã muito forte. Com quem não me é nada, sou condescendente ( no mundo em que vivemos a lealdade é rara, não vale a pena contar com tal coisa nem zangar-se por tão pouco).  Para as pessoas a quem abro o coração, porém  - e são poucas , que eu demoro a afeiçoar- me - estou sempre disponível. Podemos não nos ver durante imenso tempo que o meu carinho é sempre igual, mesmo que a vida nos tenha afastado, que a pessoa que eu conheci já não seja exactamente a mesma. Se erra, lá estou eu para perdoar setenta vezes sete vezes. Se precisa da minha ajuda, ali me tem. Tenho o hábito de gostar de certas pessoas e não o perco facilmente. Se houver uma relação de sangue ou de amor mais entranhada é  a minha lealdade, embora não seja cega (nunca fui de fidelidades caninas nem de ignorar os defeitos dos que me são caros). Só há duas coisas que me fazem mandar às malvas estes princípios sagrados: a primeira é que abusem da minha generosidade. Ou seja, que estejam sempre disponíveis para me pedir um favor, para aceitar os meus convites, mas jamais para retribuir embora se arvorem "amigos até ao fim do mundo". E isto uma, duas, três vezes, mais vezes, com o maior atrevimento. É uma atitude de egoísmo, oportunismo e infantilidade que não consigo respeitar. Amigo que é amigo está lá quando é preciso, não se limita ao "venha a nós". Dizerem a esmo que me admiram tanto, gostarem muito de mim mas não terem nenhum trabalho com isso -  quando eu me dou a infinitos trabalhos para lhes valer nas suas aflições  - não é um "negócio justo". Amizade ou amor envolvem sempre reciprocidade. 
A segunda mata-lealdades acontece quando, por mais que se faça, uma pessoa amiga mostra fraqueza de carácter, insistindo em comportamentos que a  desmerecem ou degradam - envergonhando quem está à volta. Más companhias, vícios, embrutecimento, rebaixar-se por vontade própria a situações desagradáveis de forma sucessiva, têm o efeito de matar, a médio prazo, a minha amizade. Posso ser atraiçoada por alguém e apesar de magoada, continuar a gostar dessa pessoa; mas não posso ter afeição a um ser humano que me inspira desprezo. Aí...morreu, e faço como o Don Corleone: vai em paz, mas não me chateies mais, nem batas à minha porta...

2 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Eu sou assim, precisamente porque não tenho um clã forte! Portanto quero construí-lo ;)

Imperatriz Sissi said...

Bomboca, a construção de um clã é um óptimo investimento, apesar das desilusões no caminho :)

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