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Wednesday, August 15, 2012

La Paiva: uma it girl do piorio


Vou ser sincera convosco: hesitei bastante em escrever este post e em classificar Esther Lachmann - que passaria à história como Marquesa de Paiva, ou "A Grande Horizontal" (alcunha simpática!) - como it girl


Porque não me revejo na máxima as meninas más vão para todo o lado, porque não desejo enaltecer os maus exemplos, porque a sua história é tão obscura e tem tantas versões que quase ganha a dimensão de lenda, tornando-se difícil relatá-la com veracidade. Por fim, estive quase a desistir porque entre as cocottes - essas extraordinárias criaturas que arruinavam amantes, atiravam diamantes para a lareira e quase sempre terminavam os seus dias na mais sórdida miséria - houve muitas que empurradas para a vida galante por uma infância de pobreza e abuso conseguiram ter êxito e ser elevadas ao estatuto de celebridade da mais velha forma do mundo, mantendo apesar disso alguma pureza de espírito. É o caso da graciosa Marie Duplessis, a.k.a A Dama das Camélias imortalizada por Alexandre Dumas Filho, e de outras mais. 


Mas não o de "La Paiva", a mais bem sucedida das cortesãs parisienses do século dezanove - que na minha modesta opinião, era um verdadeiro diabo de saias:  excessiva, egoísta, despudorada e sem escrúpulos, de uma ambição voraz, febril mesmo. Era esperta, sensual, bonitinha - de uma forma fria e exótica - e tocava muito bem piano. Mas as suas virtudes quedam-se por aí. Porém, a sua história é tão extraordinária que bem merece ser contada, embora a protagonista seja, no mínimo, uma anti heroína.



A pequena Esther nasceu pobre, em 1819, no guetto judaico de Moscovo. Filha de um humilde casal de refugiados polacos, o pai, tecelão, poucos ou nenhuns luxos lhe poderia proporcionar. Aos dezassete anos, casou com um homem de profissão semelhante à do progenitor, e teve um filho pouco depois. Mas a união seria breve: a ganância de dinheiro e fama levaram-na a abandonar o infeliz marido e o filho pequeno para se instalar nas espeluncas de Paris, perto da Igreja de Saint Paul - Saint Louis. Trocou o nome verdadeiro, tipicamente judaico, por um mais fashionable Pauline Thérèse (pela vida fora usaria vários nomes diferentes, ao sabor das conveniências...) e mergulhou numa vida de deboche. 

  Enquanto se sustentava, com grandes dificuldades, à custa dos seus encantos, abriu-se-lhe uma janela de oportunidade: arranjou modo de ser apresentada ao pianista Henri Herz, iniciando quase de imediato uma liaison que começou bem...mas acabou em chacota. Juntos tiveram uma filha, ele apresentou-a à sociedade como uma senhora honesta e viviam como marido e mulher. Mas a verdadeira natureza desta relação, que provocara inveja e curiosidade, foi descoberta. Ao chegar a um evento, foi -lhe dito "perdão, madame, enganou-se na porta" - uma forma subtil de a pôr no olho da rua. 


A esta vergonha acresciam os gastos descontrolados de Thérèse, que depauperavam a fortuna do pobre Herz a uma velocidade alucinante. Aproveitando uma ausência do pianista (que fora à América tentar pôr ordem nos seus negócios) a família dele, cansada, exasperada já, expulsou-a categoricamente de casa. Foi então que uma amiga a aconselhou a munir-se do esplêndido arsenal de couture que conseguira reunir e a tentar a sorte em Londres. 

Armada com pouco mais do que um monte de roupas fabulosas e uma vontade de ferro, instalou-se em casa de uma senhora que hospedava mulheres da sua condição, mas a sorte tardava em chegar. Doente, frustrada, desesperada, vendo o dinheiro derreter-se entre os dedos, mostrou intenções de se matar. A senhoria, que se afeiçoara a ela, veio em seu socorro. "A menina é jovem, bonita e ainda dispõe de vestidos lindíssimos. Eu tenho um camarote na ópera. Ponha aquela toilette branca que lhe fica a matar e mostre-se em público. Se correr mal, pode sempre suicidar-se amanhã". Therese aceitou o conselho e na manhã seguinte "tinha dez fortunas a seus pés". 

Lord Stanley, Conde de Derby, foi um dos alegres voluntários. Nessa altura ela jurou que havia de ter, nem mais nem menos, o mais magnífico palácio de Paris. As tropelias de Thérèse eram lendárias: conta-se que exigiu a um certo banqueiro vinte notas de mil francos para dormir com ele. O D.Juan da alta finança fez as contas e achou que valia bem a despesa: entregou-lhas. E ela devolveu a gentileza...entretendo-se a queimá-las alegremente, uma por uma, em pleno acto amoroso. Outra versão relata que o banqueiro devia 
queimá-las, para que ela lhe fizesse a vontade: mas o homenzinho era tão forreta que as substituiu por falsas; ainda assim, a mera visão de queimar dinheiro refreou-lhe a paixão, livrando a bela de cumprir o acordo...


Uma soireé em casa de La Paiva, por Monticelli
    Rica, regressou a Paris triunfante e comprou uma casa luxuosa, onde estabeleceu um salão frequentado pelas celebridades da época, como Richard Wagner. Entretanto, o pobre diabo com quem casara na Rússia fez-lhe o favor de morrer de tuberculose, deixando-a livre para caçar um nome respeitável. E a próxima vítima não tardaria: num spa em Baden, conheceu um jovem fidalgo português, de sangue apaixonadiço, estouvado e de cabeça leve - Albino Francisco de Paiva-Araújo, luzindo o algo discutido título de Marquês de Paiva, que andava pela Europa derretendo a herança paterna numa vida de estúrdia. O dândi fez-lhe a corte, ela resistiu fingindo um pudor que nunca tivera - e rapidamente o enredou. O jovem titular não tardaria a arrepender-se de oferecer a sua mão a tal aventureira. 

Após a noite de núpcias, ela dirigiu-lhe palavras pouco próprias de uma recém casada: "queria dormir comigo, e conseguiu-o fazendo-me sua mulher; deu-me o seu nome, eu absolvi-me a noite passada; portei-me como uma mulher honesta - queria uma posição e consegui-a, mas tudo o que tem é uma prostituta por esposa. Não me pode levar a lado nenhum; não pode apresentar-me a ninguém. Por isso, devemos separar-nos: regresse a Portugal que eu fico aqui, usando o seu nome e continuando a ser uma meretriz"

E assim fez, embora contasse já com outra fortuna, com um título e o nome honrado (menos, depois de ela o usar...) com que passaria à história: Marquesa de Paiva, conhecida em Paris por La Paiva.  Humilhado e traído, o bon vivant matou-se com um tiro. Célebre, milionária, festejada, a endiabrada mulher continuou a despedaçar amantes, a organizar orgias - dizia-se à boca pequena que por vezes mandava as convidadas embora, para gozar sozinha a companhia dos cavalheiros presentes - a receber magnificamente, a gastar melhor, a maltratar os criados e a cometer crueldades de enfiada. Certa vez, matou a tiro um cavalo só porque o animal teve o bom senso de a atirar por terra...
 A  última conquista da alegríssima viúva negra foi um magnata prussiano, o conde Guido Henckel von Donnersmarck, 11 anos mais novo. A paixão do conde, que tinha algo de perturbado e de excêntrico, foi fulminante: casaram.

Restaurant at La Paiva mansion

 Foi a seu lado que tornou a sua mansão nos Campos Elíseos, o Hôtel de La Paiva, uma das casas mais extraordinárias do seu tempo, um prodígio de luxo e de um gosto muito particular (as "casas de banho eróticas" com banheiras de ónix e prata e torneiras para leite ou champagne, eram particularmente célebres). Ele ofereceu-lhe um castelo e jóias de valor incalculável- algumas que tinham pertencido às senhoras da fina flor da nobreza, que anos antes lhe haviam fechado as portas na cara - como os famosos diamantes amarelos Donnersmarck. 

Com os seus pecados ocultos por uma fina camada do melhor verniz, retirou-se com o marido, loucamente apaixonado por ela, para o seu castelo de Neudeck, sob acusações de espionagem. Apesar disso, tinha finalmente tudo o que sempre desejara - quando a morte a surpreendeu. O seu destino final, diz-se, foi tão estranho como a sua vida. Quando anos mais tarde a segunda mulher de Henckel entrou inadvertidamente numa divisão oculta do castelo, deu com o corpo nu da sua antecessora, preservado em formol. A pobre senhora teve um colapso nervoso - e quando regressou a si, La Paiva foi posta fora uma derradeira vez, recambiada para o jazigo de família. No Hôtel de La Paiva, reabilitado e devolvido à sua antiga glória, funcionam actualmente o British Travellers Club e um restaurante muito procurado pelos turistas. O que aquelas paredes devem ter visto e ouvido...
                                    

                                          

3 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Mais um post muito interessante e muito bom, adorei :)

Imperatriz Sissi said...

Merci, Bomboca :****

Cristina Torrão said...

Ainda assim, foi o nome português que ficou para a posteridade...

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