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Saturday, August 25, 2012

My Love Songs #3: Maria Magdalena



Quando era pequenina adorava esta canção. Embora obviamente não abarcasse o sentido da letra (achava que era uma rapariga a ser confundida com outra, ou coisa semelhante)  a voz da alemã Sandra Cretu - que mais tarde integraria os Enigma - era qualquer coisa de especial. Hoje, apesar da aparente leveza de um clássico da pop, a história de bad romance sugerida pela canção encanta-me. É certo que há várias interpretações possíveis para este hit dos anos 80: Maria Magdalena reverte imediatamente o ouvinte para a temática da "pecadora arrependida" and so on. Pessoalmente, não a vejo de uma forma tão literal e dramática. Parece-me relatar uma situação bem mais abrangente, mais comum, mas não menos angustiante para quem a vive. Ou seja, a de um homem tradicional que se apaixona por uma mulher forte, independente, senhora de si, do seu destino, do seu corpo e das suas ideias. Isso fascina-o, mas assusta-o. Ele não quer uma posse superficial: deseja ser o senhor absoluto.


You take my love
You want my soul

 Ela não é  leviana, mas livre: capaz de partir quando os limites que impõe são atravessados, confiante o suficiente para não se deixar dominar a não ser nos aspectos em que esse papel cabe efectivamente ao homem. Feminina, voluptuosa, capaz de aparentar docilidade e submissão  - não precisa de empunhar a bandeira do feminismo nem da igualdade, porque a consciência da sua individualidade, do seu valor, lhe é inerente. Usa-a como a sua pele. Encontra o protagonista da história - forte, decidido, poderoso - e deixa-se lentamente escorregar para uma paixão aguda, dolorosa. Mas vê-o como ele é: habituado a mulheres fracas, inseguras, que não amam cada amante por ele mesmo, mas pela figura que representam ou pelo estatuto que lhe proporcionam - e por isso, capazes de se deixar pisar, humilhar, cortar às postas para não o perder. Ela conhece esses jogos, sabe-lhe todas as regras, mas também sabe que é feita de uma matéria diferente. Que por mais que goste dele, não pode moldar-se à escrava que ele julga desejar. Arriscar partilhar uma existência ao seu lado é tentador - mas um risco. O de se destruírem um ao outro...ou o da aniquilação dela mesma, da sua personalidade.

I would be crazy to share your life
Why can't you see what I am
Sharpen the senses and turn the knife
Hurt me and you'll understand

Quando tenta explicar-lhe isso, ele reage acusando-a. É possessivo e ciumento, não a compreende; na sua óptica, a mulher que recusa anular-se deseja ser livre para levar uma vida desregrada, saltitar de flor em flor. Não por si mesma, mas para agradar à ala masculina...como todas as que ele conheceu antes. Que a pureza e a autodeterminação coexistam no sexo feminino é novidade para o apaixonado desta história. Controlar a própria vida, ser dono dos próprios pensamentos, ser insubmisso, é apanágio do homem. Uma mulher que o faça é volúvel, infiel, perigosa. Apaixonada, mas dotada de um espírito avisado, a protagonista conclui que são demasiado semelhantes...mas querem coisas diferentes. Ela é como é, ele não aceita; ela não quer passar a vida a mentir, a arranjar escapes. Por isso, não pode render-se a ele, entregar os pontos, precipitar-se na relação, realizar o que de facto deseja. A canção capta precisamente esse momento de angustiante frustração. Resistir a uma tentação boa é a pior coisa do mundo - especialmente quando bastava tão pouco para que nada houvesse de mal na concretização desse anseio. Só um bocadinho de compreensão e menos teimosia.  Ficamos sem saber o fim do romance, mas paira no ar um espírito "das duas uma": irão destruir-se mutuamente? Será que cada um vai para seu lado? Fica à nossa imaginação...

I'll never be Maria Magdalena
(You're a creature of the night)
Maria Magdalena
(you're a victim of the fight)
(you need love)
Promise me delight
(You need love)

Why must I lie
Find alibis
When will you wake up and realize
I can't surrender to you
Play for affection and
Win the prize
I know those party games too


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