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Monday, August 13, 2012

Veronica Franco, it girl do século XVI


File:VeronicaFranco.jpg
Retrato de Veronica Franco, atribuído a Tintoretto
"Quando nós (mulheres) somos dotadas de treino e armas, podemos convencer os homens de que temos mãos, pés e um coração como o deles; e embora sejamos delicadas e frágeis, alguns homens delicados também são fortes; e outros, bruscos e grosseiros, são cobardes.  As mulheres ainda não se aperceberam disto (...) E para o provar, eu própria começarei por dar o exemplo".

                                                                              Veronica Franco
Veronica
A Veneza do século XVI era uma cidade opulenta, cosmopolita e fervilhante de actividade, famosa pela beleza e estilo das suas mulheres. Como cidade chave para o comércio entre a Europa e o Oriente, a República de Veneza não só era bafejada pela fortuna como tinha acesso às novidades, influências e luxos de outras paragens. Abundavam os perfumes, as especiarias, os tecidos ricos, os cosméticos, as jóias e uma grande alegria de viver. A "jóia sobre as águas" era um paraíso de hedonismo, e nos seus palácios celebravam-se as artes, a cultura...e festas esplêndidas. Criadas como pérolas raras entre todos esses esplendores, as venezianas representavam o cúmulo do chic decadente: foram elas que criaram a moda de "lavar a cabeça" (leia-se, pintar o cabelo) ao sol, criando as famosas nuances acobreadas do louro veneziano. A sua elegância elaborada fez escola e vem desses tempos a célebre frase " um vestido veneziano não faz uma mulher veneziana". Entre elas, destacavam-se as suas reputadas cortegiane, mulheres deslumbrantes, de fina educação, que partilhavam o destino dos venezianos poderosos...e dos forasteiros privilegiados que pudessem pagar a sua companhia. As mulheres que se dedicavam à vida galante dividiam-se em duas classes: a  cortigiana oneste ("cortesã honesta" ou "honrada") e a cortigiana di lume, a prostituta comum. 
Entre as primeiras, versões renascentistas das hetairas  - Veronica Franco é talvez a mais famosa. 
Catherine Mc Cormack interpretou Veronica no filme "Dangerous Beauty"
 Nasceu em 1546, filha de uma cortesã reformada, Paola Fracassa. Mulher culta, Paola insistiu para que a filha recebesse educação igual à dos seus três irmãos. A pequena Veronica estudou assim com professores particulares, um privilégio vedado à maioria das meninas de boas famílias, educadas apenas para o casamento. No entanto, esse era o destino que inicialmente a esperava: na adolescência casou com um médico abastado, mas a união foi um fracasso e Veronica pediu o divórcio. A lei, no entanto, determinava que a mulher que tomasse tal iniciativa perdia o direito ao dote que trouxera. Sem recursos e com um filho para sustentar, a beldade decidiu seguir as passadas da progenitora, empregando a educação que recebera numa carreira de cortigiana onesta. Aos 20 anos, figurava no catálogo di tutte le principale e più honorate cortigiane di Venezia, um documento que apresentava os retratos, descrição e honorários das mais afamadas cortesãs de luxo. O seu êxito foi tão grande que pouco depois sustentava uma casa enorme incluindo vários sobrinhos, os filhos que foram surgindo (teve seis, mas apenas três sobreviveram) muitos criados e professores para as crianças. A sua graça e espírito renderam-lhe amantes - e protectores - poderosos. Um deles foi Henrique III de França  (irmão e amante da perturbante Rainha Margot e amado da Rainha Virgem, Elizabeth I). Aos 25 anos, no auge do sucesso, juntou-se ao salão literário do seu patrono Domenico Venier, poeta e magnata, tornando-se assim membro dos literati venezianos: participava em discussões e antologias - como poetisa e editora -  e em 1575 publicou Terze Rime, uma colecção que incluía 17 poemas da sua autoria...e os restantes, versos a ela dedicados. Muitos dos seus textos celebravam abertamente a sua condição de cortesã e tinham um conteúdo atrevido; outros defendiam os direitos da sua classe e das mulheres de modo geral, ou respondiam a tentativas de provocação a ela dirigidas. Era ainda uma intérprete talentosa: sabia música, tocando admiravelmente alaúde e spinetta (uma versão anterior do cravo). Uma mistura de sprezzatura, ousadia, inteligência e discrição, Veronica revelava-se - não obstante o seu estilo de vida - defensora de uma certa moral e modéstia femininas. Nas suas cartas, publicadas em 1580, admoesta uma mãe que pensa fazer da filha uma cortesã, e lamenta que certas modas demasiado provocantes sejam usadas pelas jovens. O seu triunfo, porém, seria toldado por várias desgraças. 
photo of 16th c. chopine held at the Brooklyn Museum (New York)
"Chopines"  usados pelas cortesãs e  fidalgas venezianas
Retrato de Veronica na capa do seu 1º volume de poesia, Terze Rime














Durante  um surto de peste foi obrigada a deixar a cidade por dois anos. Quando regressou, viu os seus bens saqueados. Mais tarde, um pretendente despeitado denunciou-a à Inquisição com falsos testemunhos de bruxaria- um problema comum para as cortesãs venezianas, frequentemente acusadas de corromper os bons costumes. Eloquente, defendeu-se com graça e habilidade, ganhando a causa. Na contenda, não lhe faltou o apoio dos seus amigos poderosos. Mas a sua fortuna e reputação nunca recuperariam deste revés e por morte dos seus patronos, os seus meios diminuíram substancialmente. Até à morte levou uma existência relativamente obscura, pouco facilitada pelos seus conterrâneos: viu recusado o seu projecto de criar um lar para mulheres desvalidas, cortesãs retiradas e seus filhos. Para a história, ficaram os seus belíssimos poemas e os retratos que inspirou:


(Um desafio colocado a um amante)


Non piú parole: ai fatti, in campo, a l' armi. 

ch' io voglio, risoluta di morire, 
da si grave molestia liberarmi. 
Non so se' l mio « cartel » si debba dire, 
in quanto do risposta provocata: 
ma perché in rissa de' nomi venire? 


Mais conversa não! À liça, ao campo de batalha, às armas!
Pois resolvida a morrer, de grave mal me libertarei.
Não sei se lhe chame desafio, pois respondo a uma provocação
Mas porquê duelar  por causa de palavras?


 












10 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Gostei imenso do texto, muito interessante, sabe sempre bem aprender coisas novas :)

Ao Virar da Esquina said...

Gosto destes posts sobre as It girls. Fico sempre a pensar que pudemos ser uma sem sequer ter esse objectivo. Lembro-me de uma célebre frase de Ghandi que diz "sê a mudança que desejas vêr no mundo" e se todas fizermos isso somos mesmo uma it girl!

Panurgo said...

Nunca gostei dos Castiglione e associados. Embora sirvam de contrapeso a Maquiavel, acho aquilo demasiado limpinho e asséptico. Meu querido Aretino...

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Bomboca :) Beijinho.

Imperatriz Sissi said...

É verdade! Naquele tempo não se falava em it girls, mas elas existiam...e de que maneira, fazendo escola, lançando modas...sendo elas mesmas. Tens muita razão, Su.

Imperatriz Sissi said...

Nada bate o tio Maquiavel, mas...sprezzatura é tão necessária! E o Aretino era cá um malandro...sabia viver, mas era um malandro. Já o Castiglione era um fidalgo da cabeça aos pés, embora um bocado idealista.

Panurgo said...

Não o suporto. O tipo é um imbecil. O Castiglione e restantes camelos andavam todos armados ao Aristóteles. Conseguiram arruinar a sua amada Itália em dois tempos. Não há nada pior do que fidalgos argh

Imperatriz Sissi said...

Ahahah,lá isso do Aristóteles é verdade. Toda essa ideia do "cortesão perfeito" era um bocadinho "almofadinha". Sou mais pelos esplêndidos varões de outrora! Se calhar foi nessa altura que começaram a rarear. Ai, o meu querido Cesare!

Panurgo said...

César? Qual? Aquele que era marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos? Excepto Nero e Calígula (um profeta, um profeta...) não houve lá nenhum de jeito. Só houve dois modelos de homem: o soldado filósofo da Hélade, ou o Rei Guerreiro da Cristandade Medieval. E depois houve o ideal de mulher, o Rei-Filósofo, do Frederico II - rabeta, perdeu quase todas as batalhas, mas, saindo vitorioso numa, fez logo um hino. Tal como as mulheres de hoje, quando arranjam um namorado e metem logo no facebook, como que a dizer: vejam, queridas, não sou assim tão feia. Digo eu...

Imperatriz Sissi said...

O Bórgia, que outro? Quanto ao resto, estou de acordo. Toda pelos Leónidas e Reis Guerreiros da Cristandade Medieval...

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