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Friday, September 28, 2012

Coisas que me irritam nos portugueses #2 : anúncios de emprego ridículos

                                   
Este post podia inaugurar outra categoria - "Que desgosto, o meu país é pelintra" mas a tristeza já é tanta que mais vale usar o eufemístico "pimba", que dá para tudo. Os anúncios de emprego em Portugal (na sua maioria pelo menos) são matéria para estudo e dizem imenso da mentalidade pelintra e chica-esperta do português. Todos sabemos que Portugal vai mal e ser "remediado" ou andar falido não é vergonha nenhuma, é coisa que se resolve. Mas ser pelintra é outra coisa, e não tem cura. Se juntarmos a isso não ser pobre a pedir e querer galinha gorda por pouco dinheiro, como diz o povo, isso já é desfaçatez. E pobreza sem dignidade é a coisa mais miseranda que há. Há tempos referi as empresas que vivem à custa de estagiários, e que de tempos a tempos lá colocam um anúncio a pedir mais um. (Se soubessem a imagem de ursos que passam cá para fora eram mais discretos, mas como não pagam a ninguém não serei eu quem lhes dá conselhos de comunicação gratuitos...). Tão más como essas são as que exigem este mundo e o outro num anúncio de emprego, sem se ralar em explicar o que oferecem. Ora vejamos um anúncio típico de uma empresa inglesa:



Location:
London
Distance:
0 miles
Salary:
£30000 to £40000 per annum
Date posted:
18/09/2012
Job type:
Permanent
Company:


A vacancy has arisen for an Account Manager specialising in legal PR at an award-winning consultancy. The Account Manager will have day to day responsibility for running accounts, looking after an exciting portfolio of professional services clients, including international law firms, leading regional law firms....


Tudo explicadinho, a começar pelo ordenado, que é para uma pessoa saber exactamente se interessa candidatar-se ou não. Afinal, não vamos fazer perder tempo aos Recursos Humanos, gastar horas preciosas e dinheiro na deslocação para uma entrevista, eventualmente noutra cidade, e só no final - timidamente, como se estivéssemos a cometer um crime - perguntar quanto é que pagam. Agora vejamos um anúncio comum em Portugal:



Pretende-se pessoa criativa, polivalente e dinâmica
Com experiência em assessoria de comunicação, press, marketing e relações públicas .
Forte sentido de argumentação, capacidade de trabalhar sobre pressão, grande sentido de responsabilidade e liderança.
Flexibilidade total de horários (inclusive fins de semana), e aptidão para comunicar.
Carta de condução
Responder só se cumprir estes requisitos.

Empresa: Anónimo
Local:
Tipo: Full-time;

Ou este ainda:

web marketing e social media (m/f)

Agência de Publicidade procura um profissional em Web Marketing e social media, que se enquadre dentro dos seguintes requisitos:
Perfil pretendido
– Formação superior em Marketing, Publicidade, Comunicação ou Gestão.
– Mínimo de 2 anos de experiência em funções semelhantes.
– Excelentes conhecimentos de digital marketing e social media.
– conhecimentos da plataforma Syncapse (importante)
– Perfil proactivo, com elevada capacidade de análise e de apresentar soluções criativas, inovadoras e que acrescentem valor.
– Domínio da língua Inglesa
– Disponibilidade para viajar.

Principais responsabilidades e funções:
– Definição da estratégia digital de uma carteira de clientes, com especial destaque para a componente de social media (principalmente facebook).
– Terá também que apresentar soluções ajustadas às necessidades dos clientes, sendo responsável pela definição e implementação de campanhas.
– Gestão diária de páginas de facebook
– Reporting do meio digital

Empresa: Anónimo
Local: Lisboa

Isto quando não utilizam o verbo "exige-se". Exige-se viatura própria (say what?exige-se domínio de inglês, espanhol e russo; exige-se licenciatura/mestrado na área XPTO;
 exige-se disponibilidade total; exige-se excelente apresentação (com essas condições terão sorte se contratarem um camafeu). Algumas lá têm a lata de publicar um ordenado pequenininho, acompanhado de uma medonha lista de responsabilidades, expectativas, condições EXIGIDAS, não se esqueçam, que isto é gente que se dá ao luxo de exigir muito, e diplomas de virtude. E poucas vão sendo as que colocam, ao menos, coisas do género "pacote salarial atractivo" (comparado com quê?) "regalias" (não será "direitos"?) como quem diz: exigimos o que nos der na fantasia e levantem as mãos para o céu se vos dermos emprego nesta baiuca miserável a que chamamos empresa. Das duas uma: ou trabalham muito mal, ou comunicam muito mal e precisam urgentemente de quem vos assessorize. Mas isso custa dinheiro, certo? E a crise não é desculpa para todo o descaramento de que se lembram. Pelo menos imaginação não lhes falta...

4 comments:

A Flor said...

E quando no final de todas essas exigências vem uma linha bem pequenina dizendo que o "emprego" é em regime de voluntariado?

Já vi muitos assim e nem sei como é que alguém tem o descaramento de colocar anúncios desses.

Nuno Raphael Relvão said...

Não podia estar mais de acordo...

Devia ser obrigatório indicar por lei em todo e qualquer anúncio de emprego:
- a identificação da empresa que quer contratar (mesmo sendo através de um proxy de RH);
- o local preciso de trabalho (e não a metrópole-mais-próxima que mesmo assim fica a não-sei-quantas-dezenas-de-quilómetros de distância)
- o horário de trabalho semanal;
- a remuneração mensal e à hora;
- as funções a desempenhar (e não só o cargo, ou pior, um título que depois nada tem a haver com o pretendido);
- e claro, os requisitos para ocupar o lugar.

E já agora... obrigatoriedade de resposta quer em caso positivo ou negativo. Sim, que uma pessoa não deve ter de ficar indefinidamente à espera de saber se conseguiu um emprego ou não para partir para outra tentativa.

Dxani said...

Muito bom post!

Colour my life said...

Os anúncios de emprego em Portugal, se não fossem trágicos, eram cómicos.

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