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Friday, September 21, 2012

Gilles de Rais: serial killer, vítima ou um homem complicado?



Gilles de Rais, companheiro de Joana D´Arc, seria classificado aqui no Imperatriz Sissi como um sexy bad boy, não fosse a sua reputação - duvidosa, salientemos - mais digna de um filme de terror. O Marechal de França, e herói nacional, foi a inspiração para o famoso conto de Perrault, O Barba Azul. Juntamente com Erzbeth Bathory, a alegada Condessa Sanguinária, o nobre francês é considerado um precursor do serial killer moderno. Controverso, complexo, sensual, a sua história é um misto de bravura, descida aos Infernos e redenção: ingredientes obrigatórios para lendas.
 Membro da Casa de Montmorency-Laval Gilles, Barão de Rais, nasceu em 1404. Embora aparentemente tivesse tudo para ser feliz - era rico, poderoso, belo e inteligente, com uma sensibilidade aguçada - a morte dos pais terá sido decisiva para a sua personalidade futura, e para a consequente queda em desgraça. Aos 11 anos, ele e o irmão, René, de quem era muito amigo, ficaram à guarda do avô paterno, um homem  excêntrico e orgulhoso, que se dedicou a fazer de Gilles um monstro. Transmitiu-lhe os valores da soberba e do poder e aos 14 anos, 
armou -o cavaleiro. Nos primeiros tempos porém, o avô concentrou as suas atenções em René, o que permitiu a Gilles passar o tempo escondido na enorme biblioteca da casa, devorando sem supervisão todos os livros que lhe apeteciam: as histórias trágicas da Roma Antiga eram as suas preferidas. Mergulhado em tal ambiente, não tardou em mostrar tendências violentas - aos 15 anos matou um amigo num duelo, mas dada a sua condição elevada o crime ficou sem castigo. Pensou então em aproveitar os seus impulsos naturais para uma bem sucedida carreira militar: dizia-se que em batalha era transfigurado por uma fúria guerreira tal que nem os companheiros o reconheciam. Entretanto o avô manobrava nas sombras para lhe arranjar um casamento vantajoso. Após várias negociações falhadas a escolha recaiu sobre uma fidalga e herdeira bretã,  Catherine de Thouars. O casamento seria um fracasso: Gilles nunca escondeu não amar a mulher e apenas teve com ela uma filha, Marie. A guerra era o seu único amor: foi comandante do Exército Real e os seus feitos durante a Guerra dos 100 anos foram incontáveis. Lutou ao lado de Joana d´Arc, a quem idolatrava. Ela tinha o poder de dirigir os seus impulsos para o bem, de o inspirar ao caminho da rectidão. Rezam os mexericos do tempo que Gilles estava profundamente enamorado da Donzela: esteve ao seu lado quando foi posto fim ao Cerco de Orleães, e na coroação de Carlos VIINesse dia, foi elevado a Marechal de França, com direito a juntar a flor-de-lis às suas armas. O trágico fim de Joana  d´Arc, no entanto, deitou por terra os seus bons propósitos. Gilles terá dito que com Joana morrera a sua razão de viver. A partir daí lançou-se numa vida de dissipação febril, de desequilíbrio emocional e de conflito religioso. Um ano após a morte da Donzela, o seu avô, horrorizado com a fera que criara, deixou a sua armadura e espada ao neto René, num acto de desprezo público pelo comportamento de Gilles.
 File:Blason Gilles de Rais.svgRetirou-se da vida militar para se entregar a um estilo de vida excêntrico: a construção de uma capela, estranhamente dedicada aos Santos Inocentes, onde ele próprio oficiava vestindo estranhos atavios, e a produção de uma peça de teatro caríssima foram algumas das extravagâncias que depauperaram os seus bens. Começou a desfazer-se de terras e objectos de valor. Por essa altura ter-se-á envolvido com o Oculto - a princípio com a Alquimia, depois convidando bruxos e charlatães para o seu castelo que, a troco de somas elevadas, lhe prometiam a riqueza e a glória, alegadamente evocando demónios...sem resultados. Gilles terá no entanto, segundo os seus biógrafos, permanecido fiel à Fé Católica. A partir daqui torna-se difícil deslindar a verdade do mito, os factos das acusações interesseiras de inimigos.    

As hipóteses levantadas até hoje são inúmeras: Gilles de Rais seria um louco? Um assassino cruel? Um inocente vítima da Inquisição às mãos de inimigos que cobiçavam os seus domínios? Um fidalgo excêntrico com interesse pelo oculto, ou um seguidor do paganismo, mártir do seu tempo? Nunca teremos a certeza. O que fica ao ler os relatos do seu julgamento é o retrato de um homem perturbado, profundamente espiritual, que apenas confessou os horrores de que era acusado perante uma excomunhão inevitável. Depois de um processo sensacional, o herói amado pelo povo confessou, entre muitas lágrimas, o horrendo assassinato ritual de cerca de 200 crianças. A confissão fez chorar a assistência, incluindo a família das vítimas, que lhe gritou palavras de perdão. Foi condenado a ser enforcado e depois queimado na fogueira. No patíbulo, fez questão de morrer antes dos seus seguidores, para que estes não perecessem julgando que ele escaparia ao destino para o qual os arrastara a todos, e confortou-os com palavras de esperança na redenção divina. Lá em baixo, a multidão gritava louvores a Deus, pedia perdão para os seus crimes e bradava " morrei em doce paz!". Não permitiu mesmo que o seu corpo fosse consumido pelas chamas: foi retirado do cadafalso e preparado por damas de alta linhagem para o descanso eterno. Com apenas 36 anos, desaparecia uma das personagens mais fascinantes do século XV. O resto fica à imaginação de cada um...














4 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Mais um post muiiitttooo interessante :)

O Sexo e a Idade said...

UAU!
Adorei!
Não conhecia esta história!

Imperatriz Sissi said...

Obrigada Bomboca. O Gilles é um it-boy ;)

Imperatriz Sissi said...

Obrigada :****
Tenho alguns livros sobre ele que contam o percurso e os crimes em detalhe. Fascinante mesmo.

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