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Wednesday, September 26, 2012

Manias portuguesas que me irritam #1 :perder tempo


                                
Tira-me do sério o prazer que muitas pessoas têm em ouvir a própria voz e perder tempo a falar, falar, falar de nada. Neste país - coisa que arrepela os cabelos dos britânicos que tenham o azar de trabalhar com portugueses- uma reunião, para ser levada a sério, tem de durar pelo menos duas horas, em agonizante redundância. Se formos direitos ao assunto, tratarmos o que for preciso rápida e eficazmente e pronto, vamos todos para casa, não estamos a ser competentes, somos uma cambada de mandriões. Esta mania 
reflecte-se também no horroroso hábito de pensar que quem faz o seu trabalho bem disposto, com um sorriso, sem ar de sacrifício e vai para casa à hora contratada depois do dever cumprido é um brincalhão que não está empenhado. Para parecer competente em Portugal há que:

 - Chegar a horas mas não ter horas para sair, nem que se ande o dia todo a empatar, a papar moscas e nem haja tarefas extraordinárias;
 - Não fazer intervalos para ir à casinha, e assim compor melhor o ar de sofrimento;
 - Trabalhar infeliz e fazer as horas extraordinárias, noites e fins de semana à borla sem soltar um ai, mas com cara séria, para parecer determinado e devoto à empresa;
- Dar graxa, mas com cara de tacho;
- Não propor ideias, para não ofuscar o chefe, mas fingir que trabalha o dia todo para ficar pelo menos meia hora depois do fim do expediente, nem que seja a tirar macacos do nariz.

Ainda há pouco tempo, saiu um artigo sobre portugueses incautos a trabalhar no estrangeiro que foram acusados de mau comportamento e espionagem industrial por ficarem no edifício quando toda a gente tinha saído, na tentativa de impressionar as chefias; mas não se aprendeu por cá que (fingir que estamos a) trabalhar muito e com sacrifício não é necessariamente trabalhar bem, ou fazer alguma coisa de jeito. Que trabalhar eficazmente é cumprir os objectivos do dia dentro do tempo estipulado e mais nada. Só que este povo acredita que depressa e bem, não há quem. Be british boys, be british, porque já se viu que a nossa receita não funciona...

19 comments:

Colour my life said...

Ai, mas que post tão, mas tão bom. Não poderia ter escrito melhor. Haja alguém com cérebro para conseguir ver isso. Parabéns pelo post. :)

Jedi Master Atomic said...

Já não me lembro bem em que país é, mas um colega disse-me que lá, tu és EXPULSO do edifício se passar muito tempo do horário de saída.

A Bomboca Mais Gostosa said...

Concordo em pleno! Fogo, penso muitas vezes nisso, eu sou uma pessoa produtiva e não gosto de sair tarde, mas quando saio cedo, ou seja, pouco depois da hora, parece que me olham todos com olhar de desagrado.
Irrita-me as faltas de produtividade. Uma coisa é ficar até mais tarde porque há muito para fazer, outra coisa é ficar porque há que parecer. Tive um emprego onde as pessoas passavam o dia a pastar, e depois começavam a trabalhar após a hora, para ganharem horas extra.
Sim, era uma empresa pública, imagine-se!

Nelson Freitas said...

Este artigo deveria ser publicado nos jornais portugueses, pois trata-se de um tema que a maioria dos jornalistas tem medo de falar e por isso não existem reportagens sobre isto. Parabéns!

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Nelson :D
De facto, dava um estudo ou reportagem interessante. Alguns antropólogos já se debruçaram, sobre isso...e as conclusões têm que se lhe diga.

Imperatriz Sissi said...

É um hábito que devia ser arrancado deste país como uma erva daninha.

Imperatriz Sissi said...

Creio que é nos EUA,Jedi. Eles não aturam pantomineiros.

Jedi Master Atomic said...

Já lhe perguntei. É na Holanda e na Dinamarca.

Imperatriz Sissi said...

A realidade Dinamarquesa não conheço. Mas sei que além dos EUA, na Holanda é assim. Quando lá estudei, TODAS as tardes reunia com os colegas para o trabalho de grupo e ninguém arredava pé - impressionante a disciplina daqueles jovens - mas ninguém ficava um minuto além da hora marcada.

Maria Pitufa said...

É uma grande verdade tudo o que escreveste. Mas agora dou-te um exemplo. Imagina que passas o dia todo a dar no duro... phones nos ouvidos, não abres a net a não ser para o indispensável e às cinco, cinco e meia da tarde estás exausta mas fizeste todo o teu trabalho e ainda mais algum. E pegas nas coisas, preparas-te para dizer até amanhã..e ouves as chefias: então já se vai embora? Não é muito cedo?
Eu conheço várias situações assim e até já presenciei. Ou seja muitas vezes as próprias chefias gostam deste bajulamento inacreditável mas que a mim me deixa fora do sério!

Diligentia said...

Muito bom post. A 'teoria geral do trabalho em Portugal' extremamente bem retratada.

Carla said...

Eu entro às 9H e saio às 18H. Às vezes, se fico mais um pouco, o meu chefe vem-me dizer que já passou da minha hora.

Imperatriz Sissi said...

É horrível, Maria. Em empresas dessas só uma pessoa impondo regras muito explícitas desde o início, e mesmo assim...as pessoas têm de aprender que tempo é dinheiro, e que empregados dissimulados e infelizes não são produtivos.

Imperatriz Sissi said...

Obrigada :D
Diz-se que somos dos países com menor índice de democracia no trabalho.

Imperatriz Sissi said...

Que sorte :)

Nuno Raphael Relvão said...

Pois é isso mesmo, em Portugal as próprias "chefias" pensam que mais tempo na "empresa" resulta invariavelmente em mais trabalho e mais produtividade, o que significa que enquanto no estrangeiro o gestor é quem introduz método e eficácia no "serviço" mesmo que tenha empregados que tentem abusar e ser mais papistas que o papa, por cá não há ninguém que "meta ordem no convento".

Quando li o post da Sissi, foi assim mesmo que interpretei uma crítica não só aos empregados mas também aos gestores.

A título de exemplo, quando a Bayer (agora Bluepharma)se estabeleceu em Coimbra o gestores alemães que eram enviados da sede ficavam apenas seis meses antes de serem substituídos por outro. Porquê? A sede considerava que em um ano esses mesmos gestores ficavam contagiados com os vícios dos portugueses que conduziam a fraca produtividade.

Nuno Raphael Relvão said...
This comment has been removed by the author.
Cafeína said...

Adorei a descrição daquele que quer parecer competente! Conheço alguns casos assim na empresa onde trabalho! Até acrescentaria mais uma característica... Correr pelos corredores com papeis na mão como se estivessem a fazer a meia maratona! :)
Eu faço muitas horas extraordinárias mas porque quero! Adoro o meu trabalho e às vezes as horas passam e eu nem dou conta. Para mim não é um emprego, nem um trabalho, é mais uma coisa que eu gosto de fazer, com pessoas com quem gosto de estar!
Não ando com ar de sofrimento ou cara séria. Ando sempre feliz da vida porque adoro o que faço! Já faço isto há alguns anos e sempre fui assim!
Há muito a ideia de que quem faz horas a fio ou leva trabalho para casa é porque não produz quando deve, ou para parecer muito devoto à empresa e para dar graxa, mas é uma pena porque nem todos os casos são assim!
Em todo caso, acho péssimo chefes que esperam que os seus colaboradores esqueçam a vida que têm lá fora e passem a ir de saco cama para o local de trabalho!

Imperatriz Sissi said...

"chefes que esperam que os seus colaboradores esqueçam a vida que têm lá fora e passem a ir de saco cama para o local de trabalho" conheço uns quantos desses! É uma lata...
Ter um emprego como o teu é uma sorte. Eu, quando gosto do que faço, das pessoas com quem trabalho e me sinto compensada/valorizada pelo trabalho extra que realmente seja necessário não me importo. Agora para fazer tempo, fazer monte ou servir de escrava não contem comigo. A dignidade e frontalidade antes de tudo. :**

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