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Sunday, September 2, 2012

O caso dos ladrões de casacos

 Já referi algures que a certa altura, tentando contrariar a tendência familiar para o complexo bicho-do-mato, achámos boa ideia morar numa zona muito in, muito "urbana" (como está na moda dizer agora) e muito central da cidade - a minha cara, estava-se mesmo a ver.  Por pouca sorte ou por ingenuidade (que isto na vida, vivendo e aprendendo...)  fomos logo engraçar com um apartamento bastante simpático, que nos foi pintado como pertencendo a uma urbanização onde só morava gente séria, toda benzoca e por associação de ideias, sã de espírito. Devíamos saber melhor que as zonas da moda nunca são boa ideia e que lá cai todo o bicho careta com vontade de parecer o que não é, mas gostámos da localização, tínhamos uma ligação afectiva àquela parte da cidade e podíamos ir a pé para toda a parte. Enfim, foi um bom negócio...ou assim parecia. Não havia nada de errado com a nossa casa - se descontarmos a incompetência da empresa do gás natural, que ia mandando o edifício pelos ares - mas dizer que o prédio era um manicómio é eufemismo. Este blog não chegaria para relatar as peripécias que lá se passaram; cada dia era uma novidade, e nunca era boa. Do macambúzio sinistro que comprou um andar inteiro, não falava com ninguém e fazia buracos nas paredes dia e noite com video vigilância ligada para parar assim que alguém se aproximava (desconfiámos que se tratava de um serial killer a emparedar gente) ao respeitável político que dedicava os tempos livres a deixar bilhetes anónimos para chatear os vizinhos com queixas mirabolantes, passando pelo tarado que fechava a porta na cara de quem vinha à varanda e dizia à filha pequena * com voz nasalada e bem alto * "Constança, venha cá ao pai...venha cá, Constança...venha cá, car*****o!"  houve de tudo e só duas ou três famílias (tão aparvalhadas como nós com  tantas doideiras) se aproveitavam. 
Vizinhos mais ou menos assim...
Para cúmulo, a porta principal abria com código, que os irresponsáveis badalavam a esmo, causando um fluxo de estranhos muito desagradável. Dia sim dia sim, lá apareciam as testemunhas disto, os peditórios daquilo. Ao fim de três meses já uma senhora vinha, cheia de alívio, dizer-nos "comprei uma vivenda em cascos de rolha...antes morar longe que aturar isto!". Nós próprios começávamos a partilhar dessa opinião, quando um episódio - um de muitos - nos obrigou a perder o comodismo que ainda nos restava. Um grupo, movido pela cobiça e pela vontade de vandalizar as coisas dos outros porque sim, arranjou maneira de se introduzir nos estacionamentos. Arrombaram garagens, forçaram fechaduras e bagageiras de carros, partiram vidros e levaram quanto puderam. No nosso caso, além do porta bagagens arrombado, dos fechos amassados e dos vidros estilhaçados, roubaram muitos CD, o rádio, quantas bugigangas lá tínhamos, um relógio de estimação e ...um casaco de cabedal. A desgraça não seria grande se não se tratasse do kido casaquinho da senhora minha mãe: um sobretudo de pele macia, preto, que usava com tudo e que (apesar de já não ser novo) era o ai Jesus dela. Os estragos, a despesa, a chatice, a insegurança, isso foi mau mas passou. Mas ainda hoje ela maldiz os ladrões (que de resto, nunca foram apanhados) por causa do casaco. Escusado será dizer que começámos de imediato à procura de outra casa. Resta-nos o consolo de pensar que semelhantes brutos não terão dado uso decente a uma peça tão bonita. Decerto não seriam ladrões de casaca, não...


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