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Sunday, September 16, 2012

Ó povo que saíste à rua

                                    
Apesar do IS não ser um blog pesadão e solene, também se falam aqui de coisas sérias. Por isso, talvez um ou dois leitores tenham estranhado que nos últimos dias, eu me tenha cingido a temas mais rosados ou pessoais. Por escapismo, por cansaço de ouvir falar sempre no mesmo e sou-vos sincera, por não saber o que dizer acerca do assunto. Há um ano escrevi este texto. Dedicado a um povo que vai em cantigas, que é assim, que acorda sempre tarde, que adora que lhe digam o que quer ouvir e só se levanta quando alguém, talvez não da melhor maneira, talvez sem as melhores soluções, talvez tão atado de pés e mãos como eles - lhes diz a verdade.  E só age quando, à melhor moda "se vai um português assarapantado, vão logo dois ou três e está o caldo entornado", os outros levantam hoje de novo os murais do Facebook
Foi bonito (se excluirmos as cenas de cobardia e violência causadas por agitadores, profissionais ou não, de garrafa de cerveja em punho) ver o povo a sair à rua, a intervir. É bonito, arrepia, ver os portugueses unidos num belo momento de consciência cívica, de união e (aparentemente) de solidariedade. A mandar passear o poder estrangeiro que, com falinhas mansas, nos tem metido em maus negócios, nos tem dado peixe em vez de ensinar a pescar, nos deixou reféns de guitas tão distantes, tão invisíveis e tão emaranhadas que ninguém sabe como desatar. A reclamar a sua vida, a sua independência, o direito a sonhar, a ter esperança. Foi muito bonito. E triste de observar- por tardio. Por  (para boa parte dos envolvidos, pelo menos) não serem os melhores motivos que os empurraram para a rua. Onde estavam todos estes valentes portugueses quando, durante seis anos, tudo caminhava para o abismo? Quando as provas de desonestidade, de desperdício, de desprezo pela liberdade tão amada, pela situação "do povo", pela autonomia e liberdade de acção dos portugueses eram, uma a uma, vendidas por feijões? Andavam contentes, muitos deles. Estávamos com a suposta Esquerda, estávamos com Deus. Independentemente das minhas ideias ou simpatias políticas, não gosto de fanatismos nem de dogmas. E em Portugal, este é um mito enraizado. Quem fala muito bem, com muita autoridade, quem jura que o preto é branco e que o branco é preto, quem afaga a inveja e os medos do povo, quem promete mundos e fundos e faz lembrar os "bons tempos" da Revolução, é fofinho e amigo, nem que acredite tanto na fraternidade e seja tanto de Esquerda como eu sou da Cientologia. Entrevistei muito boa gente, gente "do povo", do povo crédulo, sincero e analfabeto, que me disse "voto nele porque este é o meu Partido, e hei-de votar sempre nele porque sempre votei nele" sem olhar às ideias nem aos actos. Enquanto se dividiu para reinar; enquanto houve Magalhães, RSI sem olhar a quem, Novas Oportunidades, tareia para os malandros dos professores e rédea curta para os odiados funcionários públicos, esteve tudo bem. Só calhava aos outros. Só quando se admitiu "estamos mal" e o mal bateu à porta de todos, é que finalmente, o povo viu as suas esperanças por terra. E isso é a pior coisa que política e socialmente falando, se pode fazer à população, principalmente num país de ideias românticas como o nosso. Agora o povo já não éramos só "nós", que chatice, que aborrecimento, o povo éramos todos. E o povo saiu à rua. Quando gritar já pouco resolve.Por desespero e por já não acontecer só aos outros: maus motivos.  Eu não acredito que medidas a estrangular a economia resolvam coisa alguma per se, por uma simples lógica de dona de casa. Também me parece que, boas ou más, as "soluções" não tenham sido comunicadas da melhor maneira. Creio que estamos desnorteados e reféns de directrizes que nos ultrapassam. Com a nossa liberdade de acção tolhida. E é isso que me deixa triste. Quatro ou cinco anos antes, esta manifestação poderia mudar alguma coisa. Poderia mandar uma mensagem lá para fora. Tal como outras formas de intervenção cívica. Votar em  vez de ir à praia, por exemplo. Intervir nos locais certos. No seio dos partidos, para quem é militante de um partido, mas só lá aparece quando o rei faz anos. Nos órgãos locais. E até nas redes sociais, mas em tempo útil. Com genuína preocupação por todos, porque é isso que faz a força de um povo. 

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