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Friday, September 7, 2012

Os burguesinhos

                                 
Snobismos cada um tem os seus. A definição de snob é amplamente discutida, com várias obras publicadas sobre o assunto, mas quase todos os autores que se debruçam sobre o tema concordam que é algo transversal,  multifacetado, presente em todas as camadas da sociedade - com cada uma dotada dos seus preconceitos em relação às outras "tribos", e mesmo aos seus pares - e  profissões. Um velho ditado reza que " não há ninguém tão snobe como a criadagem". Há formas de snobismo simpáticas, com certa graça ou originalidade - as ideias irreverentes de ícones como Oscar Wilde, Lord Byron ou Baudelaire são um bom exemplo - outras são simplesmente para rir ou desprezar. Em todo o caso, observar a snobbery alheia é sempre interessante, desde que estejamos conscientes de que ninguém está livre dela. Porque a própria ausência de pretensão pode ser uma forma de snobismo...é demasiado complicado. Anyway, um género que infelizmente pulula bastante para os meus lados, e cujo pretensiosismo (falemos sem rodeios: peneiras) não cai de todo nos snobismos com piada é o casal - pequeno-burguês. Os burguesinhos da treta.  É uma praga enjoada e chata, relativamente fácil de identificar, com origens mais ou menos delimitadas - do novo rico ao remediado assim assim -  e vários graus de gravidade. Ressalvo que não pretendo generalizar, nem ofender os leitores que se revejam em algum dos itens aqui explicados: para encaixar na definição é preciso ser azarado o suficiente para preencher todos os requisitos abaixo (e creio que quem encaixa em todos não faz o género de passar por aqui, logo estou a salvo). Ora vamos lá identificar o bicharoco:

Caracterização e modos:

 - Situam-se entre os 20 e muitos e os 40 e picos. Os seus pais, os burguesinhos-mais-velhos, têm maneirismos mais óbvios, um arrivismo mais acentuado e uma parolice mais evidente e genuína. A segunda geração "beneficia"  da burguesice estabelecida, por isso pode dar-se ao luxo de lamber botas de forma um pouco mais discreta e de franzir o nariz a tudo o que vê. 

- Como bons burgueses são infinitamente moralistas, bastante conservadores, respeitáveis e febrilmente politicamente correctos. Defendem tudo o que é "saudável": não fumam, não bebem, são avessos a tudo que soe boémio ou rebelde  e reagem com histeria se alguém se atreve a fazê-lo à sua frente - nem que tenham sido uns gandas malucos na faculdade e toda a gente saiba disso. A desculpa pronta, que santifica tudo? "Agora tenho filhos". Muitas vezes são ressabiados, como seria de esperar...

- Têm uma atracção louca pelo novo, pela novidade, pelas tendências, pelos modismos. Aderem a tudo assim que se torna mainstream, mesmo que no fundo isso não lhes diga nada: há uns anos experimentaram os legumes biológicos, o veganismo e obrigaram as crianças a enfardar leite de soja com Mocambo ao pequeno almoço, agora diz que a carne está in outra vez.

- São incapazes de alguma expressividade, a não ser quando lhes estala o verniz: qualquer dito espirituoso é recebido com desprezo; esforçam-se por falar muito baixinho, com ar enjoado, a encolher as vogais e a soprar as consoantes. Qualquer opinião sincera ou mais arrojada é encarada como subversiva, logo, motivo para pânico.

- Morrem de medo da opinião alheia. Mas nunca morrem, falecem. Morrer é "de mau gosto". Pretendem dar-se ares (por isso falam pelo nariz, tratam os filhos por você e dão-lhes nomes repetitivos, à moda e supostamente tradicionais como Madalena, Tomás ou Matilde, mesmo que nunca tenha havido tal nome na família ) mas são demasiado dados a eufemismos, têm as prioridades trocadas e deixam escapar pérolas como o "fostes; "viestes" ou mesmo "o comer". Usam "sanitas", mas atenção - não pode ser um penico qualquer, tem de ser de designer


   Família e manias:

 Obrigatoriamente, os burguesinhos são casados e têm duas a três crias. Mesmo que não gostem de crianças, elas são um acessório indispensável.
Gostavam de ter mais, como as grandes famílias das revistas do coração, mas o orçamento não o permite e é preciso pensar no custo dos tratamentos de beleza pós parto. 

- Idolatram os filhos ("a menina" e "o menino", nota bene) a quem criam como pequenos ditadores que arrastam para toda a parte e deixam fazer birras a bel prazer: lêem cada novo best seller de psicologia infantil permissiva, adocicada e peganhenta. 


- Tal como os pais o mini burguesinho tem de ter, porque tem de ter, cada novo brinquedo, além de fraldas, cuecas, biberons, chuchas e trapinhos de marca, mesmo que a griffe não seja grande coisa nem de grande qualidade. Os pais burguesinhos também preferem um mau colégio desde o infantário ( a pré, como fazem questão de dizer) e subsidiado pelo Estado, de preferência -  a uma boa escola pública, mesmo que esta fique a dois passos de casa e o colégio onde Judas perdeu as meias porque as botas ficaram para trás. Como não podem pagar um colégio de elite, escolhem um que não é grande coisa só para dizer " o colégio". Nesses antros de educação, os mini burguesinhos aprendem desde muito cedo a atormentar quem não traz calcinhas "de marca" por baixo do bibe e a dizer " o meu pai ganha mais do que o teu".

- Assim que os pequenos nascem, os pais deliciam-se a azucrinar quem os ouve com conversas de vomitado e cocó verde. Quando crescem mais um bocadinho, adoram contar como o tenro prodígio vai para medicina ou tem aulas de mandarim.

- Os seus filhos são inevitavelmente crianças índigo. Quando não são - a tragédia, o horror! - é porque sofrem de hiperactividade.

- "Metem" os filhos no ténis ou qualquer actividade que considerem "fina" (que horror!). E usam imensamente o verbo "meter".




Materialismo e Lifestyle

- Sofrem de um materialismo, arrivismo e exibicionismo desgovernado, ou daquilo que o povo chama "mania das grandezas". Não importa tanto de onde vem o dinheiro (que confundem com prestígio) desde que venha e se exiba. Têm uma contida simpatia pelos chicos espertos. Politicamente, embora lhes fuja o pé para a "esquerdite aguda" (porque cai bem defender os oprimidos em público ao mesmo tempo que se ataca quem tem mais dinheiro do que eles) falta-lhes a coragem para sair do armário. Além de tudo, a esquerda é para os pobres e ser de direita parece mal. Por isso vão mudando consoante lhes convém ou escolhem, gloriosa e radiantemente, a opção partidária mais assim assim que houver. 


- Adoram as estrelas de televisão, acham a Catarina Furtado o cúmulo do chique, conhecem de cor os concorrentes da Casa dos Segredos, mas só o assumem como quem não quer a coisa.

- Baptizam e casam pela Igreja, mas raramente lá põem os pés.

- Procuram copiar os looks "benzocas" que aparecem nas revistas, mas falta-lhes o gosto, o porte e o hábito. Eles parecem betos mal enjorcados; elas usam madeixas, bronzeado e outfits à moda de 2004. Não assumem gostar de feiras, mas passam por lá para comprar artigos contrafeitos que alimentem o seu amor por logótipos.

- Além dos filhos, o carro é o acessório sine qua non, por isso adoooram os leasings.

- Espatifam os desgraçados dos cartões de crédito.

- Descobriram o gourmet e o sushi e não querem outra coisa. Idolatram os chefs e pagam para fazer coisas esquisitas, como cozinhar com eles.


- Pelam-se por ser "urbanos", morar num local da moda e muitas vezes vivem em apartamentos supostamente "chic". Se calha residirem numa moradia, a primeira coisa que fazem é assassinar qualquer árvore num raio de   quilómetros "para não tapar a vista da vivenda" e matar qualquer insecto que se aproxime porque "a menina faz alergia a isto". No entanto, são acérrimos praticantes da reciclagem

- Ouvem as bandas da moda, principalmente as mais batidas na rádio e que as crianças sabem de cor.

- A única coisa mais importante do que as crianças são os amigos: meia dúzia de casalinhos chatos com filhos, iguais a eles, que os acompanham nas férias, no jogging (que praticam na urbanização, a levar com o fumo dos escapes nas trombas) ao ginásio (tem de ser in) e a quem cortam na casaca pelas costas. 

- Em termos de decoração e limpeza, a jovem dona de casa pequeno burguesa é muito exigente: não põe os pés no IKEA, que isso é para o povo, mas adora  A Loja do Gato Preto e similares, como tudo quanto venha de centro comercial (go figure). Velharias, nem pensar. E as tupperwares são uma instituição sagrada, têm de ser mesmo Tupperware senão o caldo está literalmente entornado. Sabe-se lá o efeito que uma taça de plástico barata pode ter na sopa (sem sal, minha gente! Sem sal!) do menino...
 Poupam em coisas parvas para gastar noutras ainda mais parvas: o detergente tem de ser "do bom" mas usado a conta gotas. E ai da empregada (nunca "a criada", que isso é feio) que se atreva a esticar-se com o precioso líquido. Maltratar os subalternos é  apanágio de quem "subiu na vida"...

- Enquanto sobem e não sobem, vão-se juntando a associações locais, para passarem por bons cidadãos enquanto fazem aquilo a que chamam "connects". Perante qualquer figurão, pseudo famoso, ou pessoa "que lhes dê a a mão" desfazem-se em amabilidades, com um servilismo abjecto.

-São doidos por viagens, mas tem de ser um sítio que esteja na moda, se não não tem graça nenhuma contar que lá estiveram. E não "vão à Tailândia ou a Miami". Fazem Tailândia, fazem Miami. Consideram o agente de viagens como um terapeuta de casal e adoram hotéis recentes com "experiências" maçadoras.

- Podem dispensar o queijo e o fiambre, mas o cabeleireiro, jamais: porém, tem de ser um cabeleireiro in, que faça as madeixas 2004 e que tenha montras a toda a volta. Deus nos livre de pagar centenas de euros para não ser vista com uma toalha enrolada na cabeça e o rímel a escorrer pela cara abaixo...







9 comments:

Jedi Master Atomic said...

Bem, que paciencia para escrever este texto...loooool

Imperatriz Sissi said...

eheheh, não foi preciso muita. Conheço o bicharoco basntante bem, embora não o admita ao meu convívio (fugia-me a boca para a verdade ou acabava por cair de sono..).

Imperatriz Sissi said...

I mean, bastante.

Cafeína said...

Adorei o texto! Principalmente esta parte:
"Idolatram os filhos ("a menina" e "o menino", nota bene) a quem criam como pequenos ditadores que arrastam para toda a parte e deixam fazer birras a bel prazer: lêem cada novo best seller de psicologia infantil permissiva, adocicada e peganhenta. "

Infelizmente conheço muitos exemplares desta espécie... Na minha cidade natal há famílias de burguesinhos a torto e a direito... Senhoras que andam na rua a passear os seus mini-cães, depois de irem ao cabeleireiro arranjar o capacete... Senhores que gostam de se passear com os seus carros topo de gama enquanto falam ao telemóvel (também ele topo de gama)... Filhos que toda a vida foram tratados por menino/a pelos pais e pelas empregadas e que hoje sãos uns nojentinhos que não sabem o que querem da vida.

Para mim é tudo gente que vive de fachada... Vai-se a ver e dentro de portas é uma desgraça....

Imperatriz Sissi said...

É o mais provável. Os novos ricos (e os remediados que os imitam) são do piorio. Valores, disciplina, brio, honra, são coisas que desconhecem. É a parolada dissimulada :D Ou como dizia o outro, "antes ser um novo pobre do que um novo rico".

A Bomboca Mais Gostosa said...

Que texto espectacular!
Dessa gente, infelizmente, conheço eu muita, é o que há mais na minha área. E não os suporto, dão-me vómitos. É impossível ter uma convivência saudável com estas pessoas, que pensam que por serem quem são têm o mundo a seus pés. E sim, têm tudo o que o dinheiro pode comprar.

Imperatriz Sissi said...

Bomboca, verniz que ainda não secou...

Láu Barreto said...

Tão, mas tão bom! Adorei! Parabéns pela genialidade deste e de outros textos, Imperatriz Sissi, e muito obrigado. :) **

minimilk said...

Acabei de descobrir esta pérola, e continua actual como em 2012 (go figure...). Assumindo-me claramente como descendente de povo sem pretensões ao neo-burguesismo, devo confessar o prazer que me dá dizer "o comer". São expressões que permanecem no falar (outro exemplo) dos meus avós no campo, e há qualquer coisa de aconchegante em utilizar expressões que passaram pelas suas bocas.
Valha-me a sensatez de ter nascido em berço humilde onde sempre reinaram dois valores: a boa educação e a humildade honesta. Nunca quis parecer rica porque nunca o fui. E isso, esse não parecer o que não se é, permitiram-me por um lado crescer para a vida sem ilusões de grandeza e valorizando a genuinidade de caracter. Essas coisas não se compram nem a leasing nem se esfregam na cara do vizinho.

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