Recomenda-se:

Netscope

Friday, September 14, 2012

Reza brava

                           
O povo português - tal como o espanhol e o italiano - sempre foi muito agarrado à sua fé, a que se misturava, não raras vezes, uma certa dose de superstição, do maravilhoso popular e mesmo das velhas tradições pré-cristãs. Resquícios de crenças pagãs e de ensinamentos mágicos de raiz hebraica ou muçulmana fundiam-se com as práticas da religião oficial - para grande dor de cabeça do Tribunal do Santo Ofício, que procurava obrigar os fiéis, à custa de avisos, multas, ou castigos piores, a abandonar as "diabruras" e "rezas supersticiosas". Debalde: as crendices, magias e rezas misteriosas perduravam no campo, sobreviviam secretamente pelas ruas da cidade, eram sussurradas nos palácios. Os registos da Inquisição portuguesa são uma delícia de ler - e nem sempre os processos acabam assim muito mal, ao contrário do que se pensa. O próprio Rei D.João V teve o seu nome envolvido em processos do género, nas suas aventuras com freiras que por sua vez, recorriam aos serviços de "mulheres de virtude". Muito curiosamente, num deles está rigorosamente explicado " a diabrura não surtiu efeito"(pessoalmente, sempre achei que o senhor dispensava sortilégios e poções...). Nos seus esforços para combater as coisas prejudiciais à fé (e em alguns casos, os burlões profissionais, que sempre houve como há hoje) os responsáveis optavam quase sempre por registar as receitas dos acusados, permitindo que alguns enguirimanços antigos chegassem intactos até nós. Nas aldeias porém, muitas dessas ingénuas práticas nunca se perderam, e foram passadas de geração em geração. É muito curioso, para quem conhece a simbologia por trás das palavras, observar como alguns elementos se mantêm intactos desde a noite dos tempos e como símbolos velhos como os montes continuam a ser usados, embora as "rezadeiras" não tenham a mínima ideia do seu real significado. As benzelhices, benzeduras e rezas bravas davam um estudo em si mesmas, e algumas são bastante cómicas, tanto no propósito como na fraseologia. Deixo-vos uma, simples e transversal, para antes de sair de casa, a atropelar os princípios de perdão do Novo Testamento (que nestas coisas, o povo não brinca em serviço):

                                                    Bons olhos me vejam
                                                    Maus olhos não vejais
                                                    Caia tudo em vós
                                                    O mal que a mim desejais.


No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...