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Sunday, September 2, 2012

Rivais#2: o amuo de Maria Antonieta




                                  
Desde que sucedera à ponderada Marquesa de Pompadour como maîtresse en titre do Rei Luís XV, Madame du Barry vivia num encantamento. Só havia uma pedra no seu lindo sapatinho: a Delfina, a célebre Maria Antonieta, recusava-se a  dirigir-lhe a palavra. Uma desfeita mortal, já que a rígida etiqueta do palácio proibia que a amante do Rei tomasse a iniciativa de lhe falar...
File:Madame du Barry.jpg
Madame du Barry
 A corte (onde conquistara aduladores, ansiosos por obter por seu intermédio as mercês do apaixonado monarca, mas também inimigos jurados) sofria, contrafeita, a sua presença.  Não havia nada a fazer: Madame Campan, camareira-mor da Delfina, recorda nas suas memórias o péssimo hábito que Sua Majestade tinha de se relacionar com mulheres de baixa extracção. A jovem du Barry, Jeanne Bécu de sua graça, aliava aos inegáveis dotes com que a natureza a presenteara o despudor e a vulgaridade, inexplicáveis afrodisíacos para alguns homens no poder. Bonita, nova, tonta, descarada, Jeanne não era, no entanto, desprovida de bondade, e talvez os seus impulsos generosos - que aparentemente, a subida meteórica não estragava -  tivessem ajudado a cimentar o afecto do sexagenário soberano. Um dos primeiros favores que pediu ao Rei foi a comutação da pena capital para os velhos condes de Lousenne, caídos em desgraça. No entanto, os truques aprendidos no exercício da mais velha profissão do mundo terão contado outro tanto para o fascínio que exercia no amante. Quando o Luís XV descreveu, deliciado, ao Duque de Noialles os "novos prazeres" que conhecera nos braços de Jeanne, este terá respondido " Sire, pensais assim  porque não frequentais bordéis!". E nada havia de calúnia nesta afirmação...

Filha ilegítima de uma costureira-cozinheira de rara beleza, Anne Bécu, e de um monge, as origens da futura condessa du Barry não podiam ser mais irregulares, para dizer o mínimo. Graças a um amante da mãe, Monsieur Billard-Dumonceaux, pode ser criada com todo o mimo e luxo. O "padrasto" arranjou colocação para Anne, como cozinheira, em casa da sua outra amante (esta italiana, e "oficial"). Tal arranjo permitia a Anne levar consigo a filha, de apenas três anos. Curiosamente, Francesca, a dona da casa, afeiçoou-se a Jeanette, tratando-a com desvelo. E neste estranho ambiente a  pequenita desabrochou, até que o seu protector achou por bem mandá-la para um convento, proporcionando-lhe assim uma educação bastante razoável para uma pequena de condição tão humilde. Aos 15 anos saiu do convento e a relação entre a mãe e a madrasta azedou. A partir daí teve uma série de empregos - não sem escândalos e amantes pelo meio - de aprendiza de cabeleireira a dama de companhia, de camareira  a empregada de balcão. Finalmente, conheceu o libertino Jean-Baptiste du Barry, dono de um casino e conhecido "angariador" de beldades para o seu negócio. Ele tornou-a sua amante e estabeleceu-a como uma das mais infames prostitutas de alta classe de Paris. Entre os seus clientes, encontrava-se a fina flor da aristocracia: foram muitos os ministros do Rei e membros da corte que conheceram os seus encantos...
 Um deles, o belo Marechal de Richelieu, achou que ela seria um belo peão para manipular o Rei, e com a ajuda do próprio du Barry, arranjou maneira de lha apresentar. O plano funcionou às mil maravilhas. Jeanne não poderia ser amante do monarca sem possuir um título, mas onde não há escrúpulos não há dificuldades: falsificou-se uma certidão de nascimento, com três anos menos e uma ascendência mais glamourosa, e o irmão de Jean-Baptiste, o conde Guillaume du Barry, voluntariou-se para casar com a cortesã. Jeanne passou de um irmão para o outro e daí para o Rei sem ai nem ui, como boa profissional da vida galante...e o "marido" fazia vista grossa, para seu governo. A bolsa real e os privilégios compravam tudo. Poderosa, adulada, feliz, a Jeanne não faltava nada: o povo detestava-a pelos gastos astronómicos em toilettes espaventosas, de gosto duvidoso, e a corte ria-se dos seus modos grosseiros e vulgares, mas o Rei adorava-a. 

Na sua felicidade, só havia uma nuvem: a Delfina austríaca, Maria Antonieta, que por dinheiro nenhum se dignava a confirmar-lhe publicamente o prestígio.  Princesa de sangue, a futura Rainha fora criada numa corte austera, de princípios dignos, e não podia sofrer que uma mulher com um passado daqueles, boçal e espalhafatosa, se passeasse por Versailles como dona e senhora . Para piorar tudo, a du Barry fora a principal agente na intriga para afastar o seu aliado, o Duque de Choiseul - e tivera o atrevimento de se rir, em público, de uma anedota contada pelo Príncipe de Rohan que ridicularizava a sua mãe, a Imperatriz Maria Teresa da Áustria. Por seu turno, as tias do Delfim acicatavam-na, recordando-lhe o horroroso percurso da filha da cozinheira. Caprichosa, a du Barry tinha chiliques, fanicos, descabelava-se, queixava-se ao Rei "da afronta" . Este rebaixava-se ao ponto de insistir com a mulher do neto para que acabasse com a contenda e dissesse duas palavras à pobre coitadinha. Que lhe custava, afinal? A corte estava em pulgas e divertia-se com a situação. Como acabaria tudo aquilo? Os rumores cresciam e chegaram finalmente aos ouvidos da sensata Maria Teresa da Áustria. Irritada pelo facto de a sua própria filha entrar em contendas (ainda que silenciosas) com uma mulher de tal género, e com isso lançar a desarmonia no palácio, terá instado com ela para que acabasse com o desacato. Maria Antonieta cedeu, finalmente, mas a seu modo. No baile de Ano Novo de 1772, virando-se na direcção da favorita, lançou para o ar ( não se dirigindo a ninguém em particular) uma frase que ficaria famosa: Il y a bien du monde aujourd´hui à Versailles ("hoje está muita gente em Versailles..."). Era pegar ou largar. A mâitresse aceitou, jubilante: estavam salvas as aparências e a paz restabelecida. A Delfina, porém, foi categórica: aquela mulher NUNCA mais ouvirá a minha voz. E cumpriu. Mais tarde, du Barry haveria de vingar-se com o desastroso Caso do Colar...
 Pouco mais de duas décadas depois, porém, as duas mulheres partilhariam o mesmo fim, vítimas da guilhotina e do furor do povo...e a mesma vala comum no Cimetière de la Madeleine, destino final de tantos mártires da Revolução Francesa.








2 comments:

S* said...

Uma figura apaixonante, repleta de controvérsia.

Imperatriz Sissi said...

du Barry ou Marie Antoinette, S*? Beijinho :)

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