Recomenda-se:

Netscope

Thursday, September 27, 2012

Short Story: O terror dos primeiros beijos

                         
Seguem a caminho de uma festa, já atrasados; estrada fora, rolando pela escuridão, finalmente em paz ao fim de meses, anos, de desencontros, de amor-ódio, de enigmas. A lua banha o caminho, há pó por toda a parte, não se vê uma alma - noite boa para fantasmas. Não trocam um som: estão entre uma felicidade que enche o pequeno espaço e o medo, vago e indefinido, que antecipa o salto de um abismo. Agora ou nunca, se voltarmos atrás é nunca mais, mas se avançarmos também. Não olham um para o outro, estão siderados, medusados pela presença do sonho tão esperado. Sentem-se inocentes, desajeitados, com uma timidez incomum: eles que dizem tudo um ao outro, nem sempre coisas amáveis, acham-se sem nada para dizer; qualquer som pode dirigir o momento para uma trivialidade, aligeirá-lo, quebrar o encanto. Está tudo mais que dito, escrito, implícito, só nunca foi confirmado nem concretizado. A tensão podia cortar-se à faca. As mãos dele tremem ao volante. Porque é que ela o perturba daquela maneira, ele que tem conhecido tantas mulheres? Os joelhos dela batem um contra o outro, medo dele agora porquê, eu que sei tudo o que há para saber de reacções destas, sinto que sufoco de ansiedade - olhem para ele, tão indefeso, e agora, e agora? Sem admitir réplica ele coloca o braço  à volta dos ombros dela.  Ela deixa e isso decide-o: como uma fisga que é disparada, mete-se para a berma aos solavancos, um camião que entretanto seguia atrás buzina que nem doido. Pára, o coração aos saltos - o dela quase a desconjuntar-se - e ali ficam a tentar recuperar o fôlego e a compostura, nos segundos terríveis que antecedem o beijo (enorme, tão esperado, imaginado tantas vezes, como seria, como não seria,  nunca mais haverá outro assim) que se segue dali a alguns segundos. Um desmaio em miniatura, é o que é.

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...