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Monday, October 8, 2012

A frase que anda na boca do povo: neste país não dá

                                           

Todos os dias ouço pessoas a dizer que vão emigrar, já emigraram ou conhecem alguém que emigrou. Já não vejo só os jovens licenciados: agora são famílias inteiras a partir. Outros deixam as pessoas queridas para embarcar num exílio forçado. São muitas despedidas, muita angústia, muito cansaço de remar contra a maré. Há quem vá com uma atitude vencedora de desafio, há quem se tenha pura e simplesmente conformado e parta com a frase, seca e eloquente, nos lábios: "neste país não dá". E há anos que ouço essa sentença " vocês têm de emigrar, porque neste país não dá". Não sou aventureira; a ideia de procurar fortuna noutras paragens - pelo menos de forma permanente - nunca me seduziu. Não tenho nada contra aproveitar uma boa oportunidade de crescer e evoluir.  Mas partir à força, porque não há alternativa, parece-me uma violência. Uma tristeza. Talvez eu seja demasiado optimista, demasiado leal às causas que tomo como minhas, mas ficarei profundamente zangada se tiver de constatar realmente "que neste país não dá". Como é que todo um povo - sem pensar agora em atribuir responsabilidades, pois acredito que a "doença" é cultural, e com raízes demasiado profundas - constrói um país "que não dá"? Como é que toda uma nação deixa pura e simplesmente de funcionar, de oferecer um futuro a quem teve a sina de nascer dentro das suas fronteiras?
 Mais do que o imediato - porque como todos os portugueses, tenho jogo de cintura para o maldito vai-se vivendo - aflige-me o mal enraizado. Porque a crise, mal ou bem, há-de passar. Há sempre quem "se safe" (termo detestável!). Há sempre quem enriqueça no meio da calamidade. Em última análise, não há mal que sempre dure. O que me preocupa cá dentro, e que eventualmente me forçará a escapar também - sim, forçar, não há outra palavra, é empurrar, expulsar-me daqui para fora em grande velocidade, como a tantos outros - é a mentalidade portuguesa. A mania de se amesquinharem uns aos outros, de não saberem trabalhar em equipa, de fazerem o possível para explorar o próximo, de aproveitarem todos os buracos na pobre da Lei para não pagar, pagar menos, receber subsídios, aproveitarem indecorosamente a necessidade alheia, contratarem estagiário sobre estagiário. O hábito repugnante de acharem que o trabalho tem de ser um sofrimento, que pagar uma ninharia lhes dá direitos absolutos sobre o tempo livre e a vida familiar dos colaboradores. O hábito "não queres, há mais quem queira" e a maldade desse conceito, que prejudica as próprias empresas. Um país com hábitos desses realmente...não dá. E o mal não é da crise, que tem tocado a  países bem civilizados, em várias épocas, sem que o desastre fosse grande. O mal é outro. E ao pensar nisto, cada vez me sinto mais estrangeira, e pergunto-me porque terão os meus avoengos decidido mudar para um país "que não dá".

3 comments:

Sérgio Saraiva said...

Ó Sissi, tu para além de escreveres bastante escreves bastante bem. Confesso que andei aqui a espreitar às escondidas, alguns textos mais antigos... eheheh... Qualquer dia podias compilar uma série de crónicas (organizadas por temas), e criar uma publicação digital (exceto aqueles sobre moda e o batom e as sobrancelhas e o vestido-que-aquela-usou-não-sei-onde-e-que-tinha-uma-gola-fora-de-moda-e-uns-sapatos-que-não-condiziam, etc...) :P

Em relação à crise, importante nesta altura parece-me ser o de conseguir contrariar uma quase histeria coletiva que está a ganhar forma na sociedade, em que as pessoas começam a ficar revoltadas muitas vezes não sabem bem porquê (porque os do lado também estão). De resto emigrar é algo que tenderá a ser cada vez mais natural, nem que seja pela facilidade de circulação que hoje existe. E não vejo isso como mau: quando alguém que tira um curso em Lisboa, porque só procura trabalho aqui e não também logo no Porto, Madrid, Barcelona, etc.? De resto, pela minha experiencia de vida, o Português, ao contrário do que se pensa tem muito pouca vocação de emigrante: é muito agarrado à sua terra.

Tema que sobra... Boa semana.

Imperatriz Sissi said...

Obrigada Sérgio :D
É uma hipótese a pensar. Já se sabe que o IS é um blog que fala de coisas sérias, mas também fala de coisas que para os cavalheiros não têm tanta graça...mas só com temas profundos a vida é uma sensaboria!
Quanto ao tema, concordo, e espero continuar a concordar. Por um lado, é como disse - se aparecer uma oportunidade irrecusável, a nossa casa é onde nos tratam bem. Mas gostaria que isso fosse uma opção, e que esta debandada seja mais o susto do que a realidade...

kari said...

Gosto deste post, triste realidade mas esperança a ganhar! :)

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